O bairro com memórias de jardins – Jéssika Sampaio

No jardim de minha avó tinha uma planta que na minha memória infantil era gigante. Como uma floresta. Colônia, o nome dela. Boa para fazer chá, e com uma folha grande e dura que só se corta com faca. O nome é o mesmo do bairro em que morei quando criança. Bairro da Colônia, periferia com gente boa, que senta até hoje na calçada, sabe da vida de todo mundo, compartilha e ajuda. Fica ali perto da Barra do Ceará, na altura do hospital Fernandes Távora, e hoje o bairro se tornou parte do Álvaro Weyne. Ouvi dizer que o nome anterior é por conta de uma colônia de pescadores que por ali se instalou há muitos anos.

Lembro de brincar na rua sem asfalto, de ir na rua dia de segunda, de atravessar a avenida da Leste, que na época era só uma rua normal, de mãos dadas com Seu Antônio, meu avô. Vez ou outra íamos até a Avenida Doutor Theberge comprar pão em uma padaria grande que tinha na esquina. Infelizmente não lembro o nome. Tinha também a horta em que o vô comprava cheiro verde pra vó, essa era para o lado da Barra. Eu ia tão feliz acompanhando ele – miúda como sempre fui, e de mãos dadas. Ficava olhando para o bigode branco e muitas vezes corria só para vê-lo vermelho de raiva gritando:

– Volte já aqui, sua cabrita!

Eu recebi muito amor na Colônia!

Quando queríamos ir para o Centro era fácil, só pegar o Beira Rio e descer na praça da estação.

– Vó compra bulinho pra mim!

– Não.

– Compra broa?

– Na volta a gente compra alguma coisa pra tu comer, agora a gente tá atrasada pra a missa do Patrocínio, depois vamos ao jumbo e lá na calçada a gente compra.

E ela comprava.

Ficava sempre em dúvida entre a broa, o bulinho, a peta ou o suspiro. Êita que agora bateu saudades da calçada do Jumbo. Para quem não sabe, vou situar – A igreja do Patrocínio é aquela que fica perto do Teatro José de Alencar e Jumbo era como chamávamos o supermercado Pão de Açúcar, a história que sei é que tinha um Jumbo mesmo, que faliu e apareceu o Pão de Açúcar, que por um tempo foi chamado de Jumbo. É isso!

Ainda falando das idas ao Centro, eu odiava a igreja do Patrocínio. Lá minha avó me fazia rezar para as estátuas e tocar nelas pedindo proteção, acho até que meu medo das danadas começou aí.

Ano passado inventei de fazer o caminho do Centro para a Colônia de Beira Rio e rememorar os bons momentos. Comprei bulinho e fui para a nova parada do ônibus. Foi só raiva. Tinha um senhor pregando a bíblia com caixa de som, uma moça falando bem alto no telefone e dois senhores brigando com o cara que estava falando da bíblia. Fora calor e lotação. Nada romântico, eu bem que poderia ter deixado como estava, só na memória.

Lembro também dos comerciantes locais! A Mundinha que era tipo um armarinho tinha bobina de máquina, coador de café, fumo, borracha para panela de pressão, rapadura, boneca, chiclete, papêro, sanduicheira (daquelas de metal), cola maluca e onde nos atualizávamos da comunidade. Era uma central de vendas e informações. Já a Luizinha era mais bombom, chiclete, pirulito… Tudo que dá cáries e diabetes tinha lá. Eu amava quando o meu avô me dava moedas de R$0,25, as mais bonitas para mim, e eu ia lá gastar tudo em suspiro. Me admira eu ter tido minha primeira cárie somente aos 30 anos. Ah! Não posso esquecer o Seu Odilon, o bodegueiro da Rua Francisco Calaça. Contava o troco três vezes. Passava o dedo na língua antes de cada cédula, eu ficava imaginando ele lambendo o dinheiro, e ria. Sempre que tinha dinheiro sobrando, que não era sempre, a gente comprava cajuína para o almoço lá. Eu saía no pingo do mêidia toda feliz para comprar a bebida pro almoço.

Morei quase esquina com o curtume, onde se trata/tratava couro. Até hoje quando passo por lá escuto os sinais de início de turno, pausa para o almoço e final de dia. Acho que hoje está desativado. O vô conhecia os seguranças e vez ou outra ficávamos lá na portaria do curtume, com aquele cheiro forte que já era normal para mim. A conversa ficava entre os mais velhos, eu só corria nas calçadas e fazia desenhos com as pedras.

Pertinho de casa era também a “Fábrica de castanha”, que a Vó chamava de castanheira. Ela odiava lá e vivia dizendo preu não pisar naquele lugar. Depois descobri que meu avô vez ou outra batia as asinhas dele por lá. Nunca desobedeci d. Maria, viu?

Vivi na Colônia dos três aos nove anos e depois voltei a morar com minha mãe lá no Jóquei Clube, onde fiquei até os 30 anos, entre mudanças e retornos, mas a Colônia tem um cantinho especial aqui dentro. Uma memória tão pura e inocente. Daquelas que a gente se pega lembrando em momentos de ternura.

Infelizmente a região hoje é tomada pelo tráfico, mas o povo ainda é gentil e ainda lembra da neta da d. Maria e seu Antônio.

– Sabe, a filha da Fatinha, tá grande, né?

– Uma mulher!

Jessika Sampaio

Curiosa, tagarela, viajante, feminista, caótica e contraditória. Ignorante sobre quase tudo e em constante aprendizado sobre o vazio da existência. Além de ser bicho humano, já atuei como jornalista, radialista, assessora de imprensa e de comunicação, coordenadora de comunicação e em lutas ambientais e LGBTQIA+. Em processo de aceitação da escritora que grita aqui dentro.

Mais do autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.