No Instituto Cultural do Cariri, por DIMAS MACEDO

Nos últimos tempos, tenho fugido das academias e dos seus rituais enfadonhos, mas é certo que terminei refém do Instituto Cultural do Cariri, a cuja sedução me rendi, na mesma proporção quanto o desejei, assim como seguimos a alma de uma bela mulher.

Não postulei nenhuma das cadeiras existentes no ICC, mas aquela de número um, da área de Filosofia, me foi destinada pela conspiração de alguns amigos, entre os quais, João Tavares Calixto Júnior, Heitor Feitosa Macedo e Emerson Monteiro.

Ali tomei posse com um discurso feito de improviso, ao ensejo do lançamento, no Crato, do meu livro Dona Fideralina Augusto – Mito e Realidade. Não me lembro daquilo que disse na ocasião, mas é certo que o coração tremeu e as pernas saíram do lugar.

Percebi a presença de Joaryvar Macedo no plenário, e na alma ecoaram as palavras de Antônio Martins Filho recitando os poemas de Augusto dos Anjos, do Cego Aderaldo e de José de Mattos.

Afundei no passado, assim como descemos nas águas de um rio, e ressurgi na Praça da Matriz, em Lavras da Mangabeira, levado pela poesia de Filgueiras Lima, o maior poeta das canções de ritmo de todo o Ceará, e meu patrono naquela casa de cultura.

Por ser nova a cadeira que passei a ocupar, nela sentou-se apenas José Humberto Tavares de Oliveira (poeta e professor, assim como o autor deste texto), filho da cidade do Crato e descendente dos Tavares Filgueiras do Município de Lavras, de onde provieram os seus pais.

Autor de livros como Pontos de História do Brasil (trovas, 1979) e Versos de Saudade (poemas, 1999), nesta trilha, seguiu os passos do seu primo, Filgueiras Lima, e com ele bateu-se pela Educação, em Fortaleza, e como estudante, no Ginásio do Crato.

Ambos foram grandes como educadores e intelectuais e como seguidores de Antônio Martins Filho. Não sei se conviveram com Joaryvar Macedo, mas aposto que se orgulhariam, se vivos estivessem, do talento incomum desse grande lavrense.

O Instituto Cultural do Cariri faz lembrar as figuras de Irineu Pinheiro, de J. de Figueiredo Filho e, especialmente, do Padre Antônio Gomes de Araújo, o autor corajoso de O Apostolado do Embuste e de outros escritos ancestrais que fizeram do sul do Ceará um território glorioso.

Teria o Padre Antônio Gomes escrito ou influenciado a redação do livro de Otacílio Anselmo Padre Cícero – Mito e Realidade, ou o mundo de J. de Figueiredo Filho seria realmente uma Farmácia? Pereira Filgueiras seria maior do que Tristão Gonçalves ou, pelo contrário, qual o historiador do Cariri mais fiel às fontes de pesquisa?

O Cariri é um enigma. O sul do Ceará é uma região aquartelada, e da Chapada do Araripe até o Boqueirão de Lavras, corre o sangue dos heróis que deram significação ao Ceará, desde os índios da Nação Kariry até a saga dos mineradores; desde os tangedores de gado do meridional até as guerras da Independência e da Confederação do Equador.

Onde mais existe o Cariri? Na rebeldia de Bárbara de Alencar, em 1817, na saga poética de Patativa do Assaré, no engenho fabuloso construído pelo Padre Cícero, nos milagres de Maria de Araújo, na Sedição de Juazeiro e na prepotência dos seus coronéis, no sacrifício de José Lourenço e na eliminação do Caldeirão, e na mente, algo diabólica, do Padre José Martiniano.

E se nada existe para além dos historiadores, louvo, neste texto, o gênio absoluto de Joaryvar Macedo, que no ICC, de primeiro, me antecedeu, e que, contra o ICC, se rebelou, para fundar a historiografia do futuro em todo o Cariri, e porque, no Nordeste, ele foi o maior dos genealogistas.

Volto para o Cariri sempre que regresso a Lavras da Mangabeira, a terra, certamente, onde não nasci e o osso mais difícil de roer, em toda a minha vida, a terra do meu coração e o berço antológico dos meus pais, pelos quais, agora, sinto um desejo imenso de matar alguém e de esquecer, para sempre, a velha Princesa do Salgado.

Fortaleza, dezembro de 2018

Dimas Macedo

Dimas Macedo

Poeta, jurista e crítico literário. Professor da UFC.

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