Não haverá paz sem uma ética mundial

O texto que aqui desenvolvo tem como base o livro “Projeto de uma ética Mundial”, do teólogo suíço Hans Küng, publicado no Brasil no ano de 1998 pela Edições Paulinas. Portanto, as ideias aqui desenvolvidas não me pertencem e estou socializando como um convite à reflexão e à leitura do texto, que pode nos trazer elementos para pensar os desafios globais que estamos vivendo atualmente. A tese principal do autor é a de que não haverá sobrevivência no mundo sem uma ética mundial.

A crise do momento atual não é o resultado de um desenvolvimento recente, ela vem de um tempo bem mais longo, é a expressão de irrupção de uma nova época que teve início com a Primeira Guerra Mundial, quando se inicia o desmoronamento da sociedade burguesa e do mundo eurocêntrico. Para Hans Küng, após o fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, o mundo capitalista perdeu a chance de consolidar uma nova ordem mundial e as razões foram três: o surgimento do fascismo na Itália, Espanha e Portugal, e o surgimento do nazismo na Alemanha que provocaram a Segunda Guerra Mundial e a perseguição aos judeus; o militarismo no Japão, que oprimiu toda uma oposição interna e passou a construir uma hegemonia no Oriente Próximo; o surgimento do socialismo revolucionário na Rússia.

As duas últimas décadas do século XX se caracterizaram pela construção de uma constelação geopolítica pós-eurocêntrica e policentrista envolvendo várias regiões do planeta, pela transformação na forma de reprodução da riqueza que indica a passagem de uma sociedade industrial para uma sociedade pós-industrial prestadora de serviços e de comunicações.

No final do século XX, o mundo ocidental chegou marcado por um vazio de sentido, de valores e de normas, ou seja, a sociedade ocidental vive uma crise moral. O mundo ocidental capitalista promove a destruição de toda e qualquer tradição de sentido para vida e lhe faltam orientações para um novo objetivo de vida. As pessoas não sabem mais em que base ou princípios devem orientar suas tomadas de pequenas e grandes decisões de vida no cotidiano e as tomam com base nos seus interesses individuais imediatos. Em todos os lugares se vive uma crise generalizada de orientação e com ela se vão acumulando as frustações, os medos, as violências, as drogas, o alcoolismo, a violência doméstica e a falta de perspectiva de vida.

Apesar do avanço da ciência e da tecnologia e de todas as suas possibilidades, o seu controle privado e seu uso instrumental, tem promovido violência, exclusão de serviços e curas que elas permitem, bem como a promoção de guerras com uso de novos armamentos cada vez mais sofisticados. A tecnologia e a ciência promoveram a depredação do meio ambiente e a produção de máquinas e agrotóxicos que produzem alimentos transgênicos, o que sinaliza a possibilidade de produzir energias renováveis, mas não a capacidade de produzir energia espiritual para controlar seus riscos e consequências.

A modernidade, o progresso e o desenvolvimento têm seus mandamentos ontológicos: ser sempre maior, ser sempre melhor, ser sempre eu, ser sempre mais eficiente, ser sempre lucrativo, ser sempre de menor custo. Tais mandamentos orientam uma competição excludente e a concentração de riquezas e de poder. A democracia, como regra do jogo, não produz nenhum mecanismo de participação e nenhum valor moral que possa se contrapor aos interesses de indivíduos e empresas nacionais e transnacionais ávidos de poder.

A matriz de produção e reprodução de capital do sistema capitalista ocidental é marcada por um modelo de ciência e tecnologia que promove a destruição do meio ambiente e a desestabilização social. A materialização dessa destruição e desestabilização é comprovada pelos seguintes fatos mundiais: escassez de reservas naturais; poluição do meio ambiente; a extinção de várias espécies de plantas e animais; os diversos problemas urbanos e de trânsito; chuva ácida, queimadas, secas e enchentes; buraco na camada de ozônio; narcotráfico, milícias e facções criminosas; explosão demográfica e migrações; fome, genocídio, desemprego e guerras; crises políticas e etc.

Em uma nota de rodapé de número 66, na página 190 do livro de Hans Küng, declara-se o seguinte: em nossos dias realizou-se aquilo que, da perspectiva dos séculos XVII e XVIII, pareceria ser o inacreditável, que a razão, a racionalidade mesma e como tal é levada diante do tribunal para responder à pergunta pela sua legitimidade. Deixar um processo de racionalidade por sua própria conta é similar a deixar por conta própria uma máquina cujo funcionamento não é mais controlado por algum objetivo; ela se soterra até a autodestruição.

Segundo Hans Küng, apesar de toda uma conjuntura negativa à qual a modernidade, o desenvolvimento e o progresso nos colocaram, ninguém, por princípio, pode ser seriamente contra o progresso, mas, para encontrar uma solução para a crise, cabe um questionamento: a ciência, a tecnologia e a indústria ainda são capazes de se adaptar ao ser humano, ou se, inversamente, elas criarão para si um ser humano, por meio da tecnologia genética e da inteligência artificial, (o homem pós-orgânico) que se adapte a elas?

Que sentido têm o que chamamos de progresso, desenvolvimento sustentável, nossa ciência, nossa tecnologia, nossa economia e nossa sociedade? Segundo Hans Küng, a resposta deverá ser buscada para além dos sistemas já estabelecidos. Um processo de mudanças implica, fundamentalmente, na transformação de valores. Ele aponta um quadro de mudanças ou passagens que implicam em transformações de valores:

1.ª – A passagem de uma ciência sem ética para uma ciência eticamente responsável;

2.ª – A passagem de uma tecnologia que domina as pessoas, para uma tecnologia que se coloque a serviço da humanização das pessoas e de suas relações;

3.ª – A passagem de uma indústria que destrói o meio ambiente para uma indústria que promova os verdadeiros interesses e necessidades das pessoas garantindo a harmonia com a natureza;

4.ª – A passagem de uma democracia formalmente de direito para uma democracia vivida, como um modo de vida, na qual a justiça, a igualdade e a liberdade sejam reconciliadas.

Uribam Xavier

URIBAM XAVIER. Sou filho de pai negro e mãe descendente de indígenas da etnia Tremembé, que habitam o litoral cearense. Sou um corpo-político negro-indígena urbanizado. Gosto de café com tapioca, cuscuz, manga, peixe, frutos do mar, verduras, música, de dormir e se balançar em rede. Frequento os bares do entorno da Igreja de Santa Luzia e do Bairro Benfica, gosto de andar a pé pelo Bairro de Fátima (Fortaleza). Escrevo para puxar conversa e fazer arenga política.