Na Hora do Almoço – Jessika Sampaio

Em algum momento de 2018 perdi o gosto por comida. Engolia qualquer coisa, andava um
pouco para fora de casa e trazia da rua alimento que não alimentava – era algo quase sempre
oleoso, deixado ao vento por não sei quanto tempo e que no outro dia seria almoço para mim.
Quando não tinha energia para tanto, pedia pelo telefone e comia no sofá. Olhava meio vazia
para os cantos da sala e tentava sorrir ao ver os gatos. Para mim aquilo era o melhor. Os gatos
ainda me faziam sorrir,  e vê-los apenas existindo era lindo. Muitas vezes me pergunto “Quantas
vezes Corisco e Dadá me salvaram de mim mesma?”

Perceber que não havia mais vontade de estar/fazer no/o ritual do almoço, fosse em família ou
sozinha, me mostrou que algo estava errado. Um dia, tendo comido quase nada e adoecida
por algo que não sabia o que, liguei para minha vizinha de bairro, D. Fátima, minha mãe. Pedi
que ela me visitasse, pois não estava bem. Chegando no apartamento me viu deitada às 15h
(coisa incomum), coberta dentro de uma rede, sem escovar os dentes, com cheiro de ontem e
o mais inadmissível para ela, sem nem almoçar.

Muitas coisas aconteciam em mim e comigo. Não queria médicos, vi como uma fase. Uma fase
sem fome de boa comida. Naquela tarde D. Fátima me ajudou a sair da rede, fez arroz,
franguinho e cortou uns velhos tomates. Tudo quentinho e cheiroso. Feito com alho, cebola e
sal. Pra que melhor? Depois do banho, comi. Havia felicidade naquele prato de comida, era
como uma cama quentinha em Fortaleza quando faz 25º.

Depois daquele dia, todos os dias, minha mãe me convidava para o almoço. Era motivo para eu
pegar a bicicleta, pedalar por cinco quarteirões com o Sol na moleira e almoçar junto com as
notícias locais do jornal e do bairro, pois havia sempre uma novidade sobre alguma vizinha que
eu nem conhecia. Não era fácil sair de casa e eu sempre tinha uma desculpa para não querer
ir, mas sabia que era o melhor.

A reunião em volta da mesa, a conversa jogada dentro, e mesmo em dias de preguiça ou falta
de tempo de D. Fátima, comíamos juntas. Ovo, galeto da esquina, macarrão no alho e óleo… A
ideia era alimentar o corpo, mas também os sentimentos, os laços e fortalecer a mente, que
andava inquieta e querendo desistir de tudo. Me ver sozinha em casa e almoçar com minha
mãe quase todos os dias começou a me fazer bem. Com o tempo eu ia mais de uma vez. Não
pela comida, mas pela conversa. Levava algum presente, comida para os gatos ou pão fresco
da padaria mais distante. Vez ou outra tomávamos café juntas, almoçávamos, fazíamos o bolo
da tarde e até sopa eu ganhava para congelar e ter sempre janta. Nessa mesma época decidi
aceitar a ideia de médico e foi o melhor que fiz.

Aqui na Bélgica perdi o costume do almoço. Não é mais a cabeça, é só que não “se perde
tempo” cozinhando, e a cultura aqui é comer comida quente uma vez ao dia. Almoço, muitas
vezes, é pão com algum frio dentro ou uma sopa de legumes. É isso. Não almoço como antes,
mas todo dia janto. Faço arroz fresquinho, tenho diminuído a carne por questões éticas,
morais e ambientais, e como salada. Mas o ritual ainda é o mesmo. Tem alho e cebola e tem
conversa em volta da mesa.

Lembrei de toda essa história ao ver a promoção de muitos amigos falando sobre o Setembro
Amarelo. Saúde mental é coisa séria, e sem ela perdemos o gosto por muita coisa, inclusive
pela comida e pela socialização. Em 2018 a hora do almoço me salvou de várias maneiras, e não
há ocasião melhor para lembrar disso.

*Tema e título da crônica inspirados na música Na hora do Almoço – Belchior, vencedora do V Festival
Universitário de Música Brasileira, promovido pela TV Tupi do Rio de Janeiro em agosto de 1971

Jessika Sampaio

Jessika Sampaio

Feminista, jornalista, pós-graduanda em gestão ambiental, sonhadora, acredita em signos, no budismo e na apatia da natureza. Contraditória como todo bicho gente, curiosa e colunista do Segunda Opinião.

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