MULHERES, CORPO E ACUMULAÇÃO PRIMITIVA – os moldes de um comportamento a ser seguido – Por Jessika Sampaio

Quando Marx, Engels e Foucault (cada um na sua linha e com sua metodologia) explicaram como o capitalismo se tornou real, analisaram levando em consideração as causas das mudanças sociais a partir do resultado coletivo da busca pela satisfação das necessidades humanas. Eu sei disso muito por cima. Não sou uma completa ignorante, mas não posso me considerar estudiosa do assunto. Acho que todo jornalista é um pouco curioso e metido a sabichão; eu sou curiosa, posso parecer sabichona, mas a questão é que gosto de entender minimamente os processos que me fazem um ser social.
O que eles não analisaram foi a sociedade com todos os pontos de vista, em vez disso focaram na força de trabalho dos assalariados, que em sua maioria eram homens. Aqui surge a necessidade de lembrar da divisão sexual do trabalho, que se tornaria cada vez mais clara durante a Era Moderna. Eu vim me dar conta disso lendo o livro Calibã e a Bruxa. Estou no comecinho, mas só pela introdução já fui atrás de entrevistas, matérias e artigos da acadêmica feminista Silvia Federici.
Anos de pesquisa resultaram nesse livro que reconta a história do capitalismo. Ela apresenta dados sobre a caça às bruxas dos séculos XVI e XVII, período que coincidiu com a perda da liberdade reprodutiva feminina. Como cita a própria autora esse é o “aspecto central da acumulação e da formação do proletariado moderno, tanto na Europa como no Novo Mundo”. O cercamento feminino, o genocídio e a imposição de um comportamento, que têm como premissa alimentar a base do capitalismo, são características presentes na sociedade que vivemos até hoje.
A caça às bruxas não foi nada mais, nada menos que o extermínio de mulheres cujos comportamentos não atendiam às expectativas daquela nova divisão. O início da Era Moderna e a caça às bruxas coincide com a construção de uma feminilidade disfarçada de destino biológico, quando, na verdade, a produção da força de trabalho feminino foi reduzida às paredes do lar.
A sociedade capitalista conseguiu e consegue usar o corpo das mulheres como fábrica para novos trabalhadores e seu tempo à serviço da manutenção para o “completo funcionamento” dos processos básicos necessários.
Para que houvesse a aceitação dos moldes acima explicados era preciso mostrar às mulheres o que acontecia com às que não se encaixavam: As bruxas. O bom funcionamento desse sistema deveria garantir que corpos das geradoras de novos trabalhadores fossem encarcerados social e até fisicamente dentro das paredes do lar.
O subtítulo do livro “Mulheres, corpo e acumulação primitiva” pulsa em minha cabeça sempre que volto os olhos para a capa. As bruxas não se encaixavam no comportamento exigido. Elas não aceitavam a subserviência.
O trabalho reprodutivo não é reconhecido, não é remunerado e quando remunerado, não de uma maneira justa e tido como algo inferior ao trabalho de produção material. Parir, servir, limpar, cuidar e manter era, e ainda é, algo subestimado e minimizado. Mas alguém tem que lembrar às pessoas que isso é o que sustenta a sociedade capitalista. Todas as sociedades, aliás. Ter mulheres que negam a família nuclear, negam seus papéis de serventia e inferioridade causa não apenas desconforto. Causa exclusão.
A caça às bruxas foi fruto da necessidade de corrigir comportamentos desviantes, incompatíveis com a organização social capitalista nascente. Ainda somos caçadas, de certa forma, até hoje. Não, não é ilusão ou papo de feminista, apesar disso ser sim papo de feminista. Papo sério. A correção comportamental ainda é feita. A gente, como animal social, quer se encaixar, e quer que os outros se encaixem. Para isso há modelos a seguir. Modelos que ainda nos aprisionam.
O trabalho fora das paredes da propriedade da casa não nos libertou; pelo contrário, nos condenou a ser, além de instrumento de reprodução social, também força de trabalho a serviço da produção material e intelectual, frequentemente mais barata, ainda que igualmente qualificada.
Repito, o trabalho reprodutivo é a base para que tudo aconteça. Para que alguém consiga se desenvolver intelectualmente, vá ao trabalho, durma em lençóis limpos, tenha comida pronta é necessário que alguém dedique tempo a isso. E esse trabalho continua a cargo das mulheres, principalmente, que agora têm jornadas duplas e até triplas.
A base do funcionamento da sociedade está aí. Negar esse comportamento é querer quebrar a roda e isso é preciso ser feito.

Viva, Silvia Federici.

Jessika Sampaio

Curiosa, tagarela, viajante, feminista, caótica e contraditória. Ignorante sobre quase tudo e em constante aprendizado sobre o vazio da existência. Além de ser bicho humano, já atuei como jornalista, radialista, assessora de imprensa e de comunicação, coordenadora de comunicação e em lutas ambientais e LGBTQIA+. Em processo de aceitação da escritora que grita aqui dentro.

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