MOVIMENTOS HISTÓRICOS – por Rui Martinho

Movimentos históricos resultam de complexas constelações de fatores. Crescem e dominam. Contam com a articulação dos adeptos, que conspiram para favorecê-los. Os movimentos estéticos como o classicismo, o romantismo, o realismo foram ondas amparadas pela ação organizada de artistas, críticos, professores e intelectuais em geral.

O favorecimento dos movimentos artísticos e políticos consiste em selecionar publicações, professores e obras com base no paradigma do movimento dominante. A seletividade se faz por falta de visão alternativa e como tática para impor um entendimento ou um emblema totêmico de “tribos” que podem ser apenas cooperativas de poder entre os grupos encastelados nas universidades, indústria de entretenimento, editoras, meios de comunicação e igrejas. Um movimento convertido em paradigma dominante torna-se ortodoxia. Os raros dissidentes são vistos como ignorantes, desinformados ou desatualizados. Na política são demonizados. O dominante é apresentado como novidade evolutiva, superior.

Temos avanços enormes na ciência, na técnica e nas instituições jurídico-políticas, mas não na condição humana, reconhecem Jaques Le Goff (1924 – 2014) e Sérgio Paulo Rouanet (1934 – vivo). “O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer: de modo que nada há de novo debaixo do sol” (Eclesiastes, 1;9). Transformação radical dos fenômenos sociais é engano. Nada começa do zero. As experiências revolucionárias falharam, reconhecem os revolucionários meio desiludidos, como Herbert Marcuse (1898 – 1979), na obra Eros e civilização.

A busca da terra sem males (yvy marã e’y ou yby marã e’yma), onde não haveria fome, guerras nem doenças, era empreendida pelos índios. Na mitologia grega a deusa Bem-Aventurança, mulher atraente e sedutora, prometia colheita sem plantio, cama e estradas macias. Mas o Estado do Bem-Estar promete o mesmo e foi recebido como novidade. Raoul Girardet (1917 – 2013), na obra Mitos e Mitologias Políticas, desnuda a natureza mítica das grandes narrativas políticas. O domínio do pensamento político que promete a terra sem males, colher sem plantar, estrada e cama macias levou a um monopartidarismo discreto. Todos os programas políticos prometiam bem-estar, igualdade e emancipação. As constituições posteriores à de Weimar se comprometem com tudo isso. Incorporaram matéria constitucional imprópria e normas programáticas em constituições rígidas.

A reserva do possível foi esquecida. Veio a pandemia da crise fiscal. Reforma de previdência e recuos do Estado do Bem-Estar se impuseram na rica Europa. A deusa Virtude (Mentirosa) perdeu prestígio. Mas quem pode se opor ao “bem” que ela proclama? Os intelectuais aderiram a ela. Os seus críticos em geral não passaram pelas universidades ou o fizeram em áreas técnicas. Não contribuem muito. Só a desmoralização pela corrupção e a degradação dos costumes abalou a deusa sedutora. Ela apresenta diferença como desigualdade, propõe igualdade de resultados, omite o desafio da produtividade, da formação de poupança para investir enquanto deblatera contra o pagamento de juros e defende o descontrole de gastos. Derrotá-la no debate intelectual é fácil. Mas o povo não entende. Só a desmoralização pode vencê-la, como está acontecendo em várias partes do mundo. O embate é grosseiro. Mas a perda do recato foi estimulada pelos “virtuosos”, para quem toda contenção era opressiva. Dará certo?

Rui Martinho

Rui Martinho

Doutor em História, mestre em Sociologia, professor e advogado.

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