MITOS COMO CAMINHO DA IMPLANTAÇÃO DE DITADURAS, por ALEXANDRE ARAGÃO DE ALBUQUERQUE

BRASIL, AME-O OU DEIXE-O” era o lema do governo Garrastazu Médici (1969- 1974) no período mais tenebroso da ditadura militar. Não existia, como se constata nesse lema, a possibilidade do contraditório, do debate democrático questionador e opositor. Era submeter-se ou sumir. O Brasil era apresentado como uma totalidade – um totem – à qual todos os brasileiros e brasileiras sem exceção deveriam prestar culto e obediência. Um período conhecido historicamente como “Anos de Chumbo”.

Ao longo desse tempo a ditadura militar atingiu seu pleno auge, com controle das poucas atividades políticas toleradas; a repressão e a censura às instituições civis foram reforçadas; manifestações de opinião contrárias ao sistema foram proibidas, um período marcado pelo uso sistemático de meios violentos como a tortura e o assassinato, como atesta o relatório final da COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE (2014): “Com Médici, o regime ditatorial-militar brasileiro atingiu sua forma plena. Criara-se uma arquitetura legal que permitia o controle dos rudimentos de atividade política tolerada. Aperfeiçoara-se um sistema repressor complexo, que permeava as estruturas administrativas dos poderes públicos e exercia uma vigilância permanente sobre as principais instituições da sociedade civil: sindicatos, organizações profissionais, igrejas, partidos. Erigiu-se também uma burocracia de censura que intimidava ou proibia manifestações de opiniões e de expressões culturais identificadas como hostis ao sistema. Sobretudo, em suas práticas repressivas, fazia uso de maneira sistemática e sem limites dos meios mais violentos, como a tortura e o assassinato”.

Após muita luta e resistência social, em 05 de outubro de 1988 nós retomamos o caminho democrático com a promulgação de nossa Constituição Cidadã. Todavia hoje, mais uma vez, deparamos com uma situação de excepcionalidade institucional, com o assalto ao Poder pelos derrotados nas eleições de 2014, que perpetraram um golpe na soberania popular ao depor sem causa material comprovada a presidenta Dilma Rousseff.

Hoje estamos às vésperas do segundo turno de eleições presidenciais, com uma situação altamente questionável: o concorrente mais bem posicionado no primeiro turno esquivou-se de participar de debates públicos no primeiro turno e, ao que tudo indica, também deverá adotar a mesma estratégia nesta reta final do pleito eleitoral. Por que será que ele quer esconder-se do debate público? Seria para não ver exposta toda a sua fragilidade conceitual e temperamental, como atestam diversos vídeos e entrevistas suas no passado? Seria para alimentar a sua tentativa desesperada em aparecer nas mentes de seus eleitores e eleitoras como “um mito”, como alguns deles já o denominam assim?

Mas o que é “um mito” na visão da ciência política?

O mito seria aquele objeto impulsionador das ações humanas tendo em vista um objetivo comum. A partir deste mito, um grupo se move com uma crença cega, veemente e ativa. A força do mito não está no conhecimento crítico por parte das pessoas, mas no emocionalismo da fé: elas acreditam piamente em seu mito. Essa força do mito está escondida em causas capazes de despertar paixões das massas e mobilizá-las a agir voluntariamente, na maioria das vezes de forma não racional. Tais mitos carregam em si a totalidade das percepções e anseios de um determinado conjunto social representados num projeto ou num desafio que impulsiona a ação das massas com vistas a concretizar um determinado ideal. Por isso um mito dificilmente será questionado ou refutado pelas massas porque ele é identificado como a personificação dos seus anseios.

A história nos presenteia com diversas personalidades que conseguiram assumir no inconsciente coletivo essa imagem mítica. Um dos exemplos clássicos é Adolf Hitler, que levou a Alemanha e o mundo a uma Segunda Guerra Mundial, exterminando milhões e milhões de seres humanos inocentes, em seus campos de extermínio.

As características desses mitos humanos genocidas são muito comuns. Geralmente atribuem a si a representação e garantia do interesse coletivo geral. Consequentemente, sentem-se no direito de subjugar todos aqueles e aquelas que lhe venham fazer oposição. São personalidades altamente “otimistas”, de temperamento exaltado, e se por acaso forem armados de um grande poder, que lhes permita realizar “um ideal” por eles forjado, podem conduzir (e de fato conduziram) seus países às piores catástrofes sociais, políticas e econômicas. Por não reconhecerem que as transformações sociais não se realizam com a facilidade que anunciaram, atribuem a terceiros as dificuldades de materializar o seu projeto, agindo inescrupulosamente no extermínio de pessoas e grupos que lhes parecem fazer objeções ou impedimentos. Os “mitos” humanos que mais derramaram sangue das suas populações foram justamente aqueles que anunciaram projetos de felicidade de fácil alcance para todos.

A encruzilhada que o Golpe de 2016 propiciou, ao destroçar a caminhada histórica regular de nossa democracia com a deposição de Dilma Rousseff, foi a de abrir caminho para uma candidatura à presidência da República que encarna essa ideologia ditatorial do mito: uma ideologia violenta, sanguinária, discriminatória, redutora de direitos sociais e individuais, perseguidora de opositores e de minorias. O referido candidato-mito brasileiro anuncia como seu lema totalizante nesta eleição, a exemplo do lema do ditador Garrastazu Médici, O BRASIL ACIMA DE TUDO.

Estamos diante de uma página trágica de nossa história que convoca as mulheres e homens de bem a dizerem um veemente NÃO à tentativa de ascensão ao Poder de uma proposta inequivocamente autoritária. A democracia é um bem raríssimo, para mantê-la precisamos assumir nossa responsabilidade de cidadãos e cidadãs democratas rejeitando nas urnas essa candidatura tenebrosa. DITADURA NUNCA MAIS! ELE JAMAIS.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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