Mil vidas de Jean-Paul, por Alder Teixeira

A palavra escrita não para de surpreender, o que é maravilhoso num mundo dominado pela imagem. Explico-me: “garimpando” estantes da livraria Cultura, no exercício diário do vício, eis que deparo com um livro intrigante  —  não por outra razão: do autor, nada sabia além do fato de que se trata de um ator importante, e ícone da Nouvelle Vague francesa, uma estética cinematográfica que “amo de paixão”, como diria Carol, minha filha. Como escritor, absolutamente nada conhecia de sua autoria. Eis o porquê da surpresa. Refiro-me a Jean-Paul Belmondo, cuja autobiografia chega às lojas de livros brasileiras com um título curioso: “Mil vidas valem mais do que uma”.

Tomo nas mãos um exemplar e, ali mesmo, leio com sofreguidão essa pérola sobre uma vida muito mais rica do que, cinéfilo contumaz, supunha eu até agora.

Delícia de livro este em que o astro francês desfia uma história pessoal marcada por experiências emocionantes, mesmo quando a narrativa se dedica às coisas mais banais: a infância em Neuilly-sur-Seine, onde nasceu em 1933; a convivência com os horrores da guerra; a admiração pela mãe; o ateliê do pai, escultor, e os muitos amores. É que o texto de Belmondo, vazado num estilo leve e descontraído, como é raro no gênero, leva-nos a percorrer os mais inusitados caminhos, numa prática de leitura que a um tempo ensina e seduz.

Belmondo, sabe-se, além de protagonizar o filme Acossado, 1960, de Jean-Luc Godard, um dos marcos do cinema moderno, atuou em mais de oitenta filmes, sem falar nas dezenas de peças teatrais encantando plateias do mundo inteiro com o perfil “feio charmoso” que levou a cantora Édith Piaf a fazer a famosa revelação:  —  “Saio com o [Alain] Delon e volto com Belmondo”.

O livro vai, assim, de página em página, proporcionando-nos um passeio atemporal pela Europa e pela história do cinema moderno. Intitulado “Então, Godard”, o capítulo em que se reporta ao filme que o consagrou, contracenando com a lindíssima Jean Seberg, é uma aula de construção narrativa. É que Belmondo lança mão de uma forma curiosa de expor o seu pensamento sobre a personalidade controversa do diretor francês, no que surpreende com um depoimento originalíssimo que vai da repulsa ao mau caráter à verdadeira adoração ao gênio do cinema. O discurso desliza de um olhar a outro com a leveza de um mestre da escrita, sem sobressaltos ou declarações minimamente antipáticas tão comuns quando se é levado a julgar alguém. É sublime o estilo, na sua simplicidade quase franciscana.

As páginas em que narra a dura realidade da Segunda Guerra constituem um registro invulgar sobre a insanidade do combate armado entre homens: Jean-Paul, então com onze anos, e seus amigos de mesma idade, auxiliam um padre a recolher cadáveres de aviadores “abatidos” nos céus de Clairefontaine, cidade onde vivia com os pais. Tudo, reafirmo, com um domínio de linguagem que impressiona pela força de uma narrativa digna de nota mesmo se estivéssemos diante de um escritor consagrado.

Nomes célebres do cinema, das artes plásticas, do teatro, da literatura, protagonizam histórias impagáveis vividas com Jean-Paul Belmondo em diferentes países. Nesse sentido, aliás, é que o livro ganha fôlego enquanto registro do que houve de mais significativo na Europa na segunda metade do século XX. Aí estão Michelangelo Antonioni, Woody Allen, Ursula Andress, Jean Anouilh, Claude Chabrol, François Truffaut, Laura Antonelli, Alain Resnais e Gérard Depardieu, para citar apenas algumas celebridades que povoam essas mil vidas de Jean-Paul Pelmondo.

Mas o livro, diga-se por fim, é muito, muito mais que um depoimento de um astro do cinema e do teatro sobre seu tempo. Em muitas passagens, deparamos com o homem consciente do seu papel, politizado, portador de mensagens extremamente atuais sobre a impossibilidade de nos colocarmos neutros diante das contradições de um mundo submetido à lógica do capital, em que se professa, de forma desavergonhada, a neutralidade impossível. Referindo-se às corporações militares, por exemplo, à época da Segunda Guerra, diz sobre um dos chefes: “Usa a braçadeira das forças de Resistência quando precisa e tira quando se sente constrangido”.

E arremata, com uma precisão cirúrgica: “Quando a batalha surge, convém escolher de que lado lutar. Mas, para sobreviver, há os que fazem questão de não ter opinião, de esquecer de escolher um lado. Querem a paz a qualquer custo, até mesmo às custas da própria honra. No final do conflito, não pensarão duas vezes antes de marchar com os norte-americanos […]. A duplicidade vem acompanhada de certa audácia”.

Que bela surpresa estas Mil vidas… de Jean-Paul Belmondo.

 

 

Alder Teixeira

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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