Metal + Cultura Pop: banda italiana canta “A Lenda dos 12 Cavaleiros de Ouro”

Quem nunca for nem um pouquinho nerd/geek que atire a primeira pedra! E pra quem já tá aí  na casa dos 30/40 anos de idade e não viveu ao menos alguma parte de sua infância na companhia da saudosa Rede Manchete de Televisão, eu só digo uma coisa: sinto, mas você pode ter perdido boa parte da diversão que os maravilhosos anos 90 nos proporcionaram.

Inesquecível foi essa década para quem começou a curtir as atrações infantis da saudosa emissora carioca de Adolfo Bloch, um dos maiores nomes na história da comunicação brasileira. Canal pioneiro em diversos tipos de formatos e atrações em termos de entretenimento, a Manchete nos trouxe de forma inédita gêneros televisivos lá da Terra do Sol Nascente que viraram febre entre as crianças e adolescentes brasileiros à época. Em primeiro lugar, tivemos a invasão dos seriados japoneses do gênero tokusatsu, que traziam atores reais se transformando vestindo uniformes ou armaduras futurísticas, assumindo o papel de poderosos herois com poderes sobre-humanos, e quase sempre apoiados por arsenais de bazucas, espadas, pistolas laser e veículos gigantes. Tudo produzido com efeitos especiais hoje duvidosos, mas revolucionários para os olhos de uma criança daquele tempo – quem não lembra com carinho de “O Fantástico Jaspion” ou do “Comando Estelar Flashman”?

Mas o que se tornou uma invasão nipônica que realmente veio pra ficar e escreveu uma história no Brasil fortalecida exponencialmente nos anos posteriores foram os animes – desenhos animados carregados de toda a estética japonesa. Essas obras carinhosamente nos sequestraram com seus personagens de olhos gigantes (dizem que para compensar a piada besta com os olhos puxados de nossos amigos japas), traços por vezes andróginos, por vezes fofos demais, por vezes bastante sensuais, e que se aventuravam em temáticas das mais diversas, tendo quase sempre como elemento obrigatório a violência explícita (para o pânico dos pais daquela época). Mas como disse, a violência era só um gancho, um acessório: o que pegava de verdade era o carisma absurdo de seus mais variados e inesquecíveis personagens.

E por falar em carisma, vale aqui um adendo: o trabalho realizado pelos dubladores no Brasil naquele tempo foi algo digno de não menos que gratidão eterna! Estúdios como a Gota Mágica, Audionews, Dublavídeo e muitos outros revelaram vozes ao panteão da dublagem nacional, facilmente reconhecidas e carinhosamente lembradas até hoje. Nomes como Guilherme Briggs, Hermes Baroli, Marco Ribeiro, Ursula Bezerra, Leticia Quinto, Mirian Fisher e muitos outros até hoje são ovacionados nos eventos de cultura japonesa pelo país afora por conta das vozes que emprestaram com maestria, carisma, criatividade e muita competência. A esses profissionais sem dúvida é creditado uma imensa fatia do sucesso destas séries, e a eles saúdo aqui com os parabéns e o muito obrigado em nome de toda uma geração!

Prosseguindo, foi nessa primeira leva nipônica em nosso país que conhecemos o primeiro anime trazido pela Rede Manchete que revolucionaria toda a cultura pop local dali em diante: a obra Saint Seiya, que por aqui ficou conhecida como Os Cavaleiros do Zodíaco, marcou toda uma geração e seu tremendo e inesperado sucesso encabeçou a vinda de muitos outros desenhos clássicos para nosso país – como Yu Yu Hakusho, Sailor Moon, Shurato, Super Campeões, Pokémon, Dragon Ball e tantos outros. Mal sabíamos que essa invasão nipônica estava apenas começando naquele 1º de setembro de 1994 a partir das aventuras de Seiya, o cavaleiro de Pégaso, e seus amigos. Na história, órfãos acolhidos pela Fundação Kido no Japão eram enviados ainda criança para diversos lugares do mundo. Em cada local, os futuros guerreiros treinavam artes marciais e aprendiam a despertar seu cosmo (a mística força interior de cada pessoa) para superar os próprios limites de seus corpos e se tornarem dignos de vestir as lendárias armaduras dos cavaleiros guardiões da deusa Athena, que reencarnava a cada duzentos anos na Terra. Estes jovens eram capazes de rasgar os céus com seus punhos e abrir fendas no chão com seus chutes.

Ilustração dos personagens principais da obra Saint Seiya - Os Cavaleiros do Zodíaco

“Os Cavaleiros do Zodíaco” e seus personagens principais com a Deusa Athena

Na história, cada armadura tinha o formato e era inspirada em um ser ou lenda da mitologia grega, e suas categorias principais as dividiam entre armaduras de bronze, prata e ouro. A série clássica que passou à época no Brasil trouxe diversas sagas dentro de seus 114 episódios, mas sem dúvida a que mais marcou os fãs foi a famosa Saga das 12 Casas. O arco narrativo mostrava os cavaleiros de bronze enfrentando os temíveis 12 cavaleiros de ouro para salvar Saori Kido, a reencarnação da deusa Athena, que havia sido atingida por uma flecha maligna ao chegar no Santuário da Grécia para o tal confronto. Assim, ao longo de dezenas de episódios, conhecíamos os doze poderosos dourados que protegiam uma casa do zodíaco representada pelos 12 signos astrológicos – de Áries a Peixes. Esta saga nos mostrou, assim, os guerreiros mais nobres do panteão da deusa, cada um com sua história e carisma próprios, além de poderes quase insuperáveis e armaduras belíssimas.

Os 12 Cavaleiros de Ouro em Saint Seiya

Os 12 Cavaleiros de Ouro, protagonistas da famosa “Saga das 12 Casas”

Tá, mas e a música e o heavy metal com isso?

Vamos a ele: uma galera lá da Itália forma em 2002 uma banda chamada Trick Or Treat. Apesar de fazerem músicas autorais, eles também costumavam tocar e gravar músicas cover de diversos personagens de desenhos (como Batman, Pokémon, Robin Hood e outros). Gravaram inclusive uma versão para Pegasus Fantasy, o tema original de abertura dos Cavaleiros do Zodíaco. Até que um dia, avançando mais um pouquinho até 2019, os caras decidiram embarcar num projeto mais ousado ainda: gravar um álbum temático que cantasse e contasse a tal Saga das 12 Casas. E assim o fizeram!

Foto da banda italiana Trick Or Treat

Os metaleiros geeks italianos da banda Trick Or Treat!

O ousado álbum The Legend Of The XII Saints (ou “A Lenda dos 12 Santos/Cavaleiros”) nasceu a partir de um projeto de financiamento coletivo, onde os músicos lançaram a ideia numa plataforma online e conseguiram levantar a grana pra lançar o disco fisicamente. Numa estratégia também bastante alinhada à história original de Cavaleiros, foram lançando aos poucos uma música por mês representando cada signo dos dourados. Assim, a partir de março de 2019, começaram a divulgar as faixas na internet. Seguiram a ordem começando pelo signo de Áries com a música Stardust Revolution, que traz uma fiel interpretação do que acontece no primeiro episódio da saga no desenho, quando os cavaleiros de bronze chegam na primeira casa do Santuário. Aliás, outra sacada de mestre dos caras da banda: fãs convictos da série, batizaram cada canção com o nome de cada golpe principal de cada cavaleiro de ouro. Nostalgia sensacional!

 

Capa do álbum "The Legend Of The XII Saints" da banda italiana Trick Or Treat

Arte da capa do álbum “The Legend Of The XII Saints”, fazendo menção ao famoso Relógio de Fogo das 12 Casas, presente nos episódios originais de Saint Seiya

Assim, o álbum prossegue justamente nos apresentando doze canções contando a história pela perspectiva dos cavaleiros de ouro. Aos mais atentos, as letras trazem inúmeras referências à personalidade de cada dourado, com menções às batalhas nos episódios e ainda referências a inúmeras outras passagens e obras de todo universo de Saint Seiya. O álbum em si é calcado num power/speed metal que traz diversos clichês do gênero (bateria e baixo em alta velocidade, solos de guitarra virtuosos e muitos, muitos agudos nos vocais), e realmente mais para o final dá uma leve sensação de que uma música é muito igual à outra.

Porém, numa audição mais atenta, percebemos que cada faixa comporta um ou mais elementos sonoros diferentes que servem justamente para referenciar e enriquecer a história, resgatando a memória do ouvinte para dentro de cada episódio da série. Assim, é muito legal ouvir, por exemplo, um toque de violino com uma melodia meio chinesa na faixa Libra: One Hundred Dragon’s Force, que fala justamente do personagem Dohko, o cavaleiro de ouro de Libra e seu discípulo, Shiryu de Dragão, que é… chinês! Da mesma forma, o instrumental na introdução dialoga com a história do personagem também na faixa anterior Virgo: Tenbu Horin, contando a história do cavaleiro Shaka de Virgem, que é de origem indiana. Mais à frente, na faixa dedicada ao cavaleiro de Capricórnio, ouvimos também um som de corte de lâmina ao final da canção, numa referência carinhosa à principal arma/técnica do cavaleiro Shura.

Imagem das 12 Casas do Zodíaco da obra Saint Seiya

A viagem turística dos sonhos de qualquer fã de anime: as míticas 12 Casas do Zodíaco, onde cada cavaleiro de ouro esperava para mais uma batalha mortal!

Como um presente de fã para fã, a banda Trick Or Treat consegue entregar uma obra empolgante, saudosista e épica ao mesmo tempo. O carinho dos caras pela série é tanto que nos lyric video lançados a cada mês antes da compilação final do álbum sair, é possível ver artes dos cavaleiros de ouro desenhados à mão pelo próprio vocalista da banda. Se isso não é ser fã, não sei mais o que é!

Fica a recomendação tanto pra quem não conhece o saudoso anime de Masami Kurumada quanto pra quem apenas gosta de um bom power metal “farofa” e ficou curioso pra conhecer a brincadeira – que, pra nossa felicidade, virou coisa séria e álbum físico.

BÔNUS: a banda lançou recentemente um videoclipe bem legal da primeira faixa do disco, com direito a atores vestidos de armadura e tudo! Assista aqui.

Longa vida aos Santos de Athena. Te vejo no próximo play!

 

SERVIÇO

Artista: Trick Or Treat

Álbum: The Legend Of The XII Saints

Ano de lançamento: 2020

Duração: 63min

Disponível em formato físico (via importação) e nas principais plataformas digitais

Tracklist:

1 – Ave Athena (intro)

2 – Aries: Stardust Revolution

3- Taurus: Great Horn

4 – Gemini: Another Dimension

5 – Cancer: Underworld Wave

6 – Leo: Lightning Plasma

7 – Virgo: Tenbu Horin

8 – Libra: One Hundred Dragons Force

9 – Scorpio: Scarlet Needle

10 – Sagittarius: Golden Arrow

11 – Capricorn: Excalibur

12 – Aquarius: Diamond Dust

13 – Pisces: Bloody Rose

14 – Last Hour (The Redemption)

Instagram: @trickortreat_official

 

 

Sérgio Costa

Sérgio Costa

Bacharel em Ciências Sociais pela UFC e em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) pela Fanor/DeVry. Publicitário por profissão, guitarrista por atrevimento. Apaixonado incurável por música, literatura, boas cervejas e grandes ideias. Escreve quinzenalmente sobre música para a coluna Notas Promissoras do portal Segunda Opinião. Contato: [email protected]

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