Mercado de Sinônimos

Pense numa confusão semântica, um abuso de linguagem! Dizem que vivemos numa sociedade de mercado, de mercado livre. 

O mercado subiu.

Desceu o mercado.

O mercado tá quente, tá livre, tá peixe.

O mercado do qual os jornais nos falam todo dia – o mercado mundial, os mercados que se contentam, ou não, com as decisões do governo, o mercado do ferro, da uva ou do morango, o mercado do trabalho, ao qual devemos “nos adaptar”, o mercado chinês ou o mercado interno…

E o que isso tem a ver com os mercados de Fortaleza? São Sebastião, Central, Feira do Beco ou Buraco da Gia, a Feira da José Avelino, a Feira da Praia, dos Papagaios, dos Periquitos, o Mercado do Peixe…  Talvez a única coisa, o único elemento em comum é o vender e o comprar. Já que o primeiro sentido de mercado é impessoal, anônimo. Feito unicamente para comprar e vender. 

Se os vendedores do Buraco da Gia ou do Mercado de Messejana se conhecem e todo mundo dá bom dia e boa tarde – num mercado institucional os operadores econômicos, diretores de empresas e operadores de Bolsa movimentam suas mercadorias à distância. 

Pois bem, nessa confusão semântica, a palavra “guerra” ganha mais um sinônimo – MERCADO, “ficar rico” à custa dos outros, e até, se possível, aniquilá-los.

A guerra comercial não acontece somente entre China e USA, ela está bem viva entre os pequenos boxes das feirinhas e o novo supermercado, o atacadão, o “gigantão que tudo tem”…

Mas basta falar a palavra mercado e já imaginamos uma coisa diversa, um cheiro de bom bocado de tempo, tradicional, cultural! É claro, tudo se vende e tudo se compra, e cada um que ali põe os pezinhos todo santo dia, espera voltar para casa, no fim da jornada, com os bolsos estufando de notas de cem reais. Pelo menos os que vão vender as mercadorias.

Ah… mas o mercado não é só isso…

É barulho furtacor.

É grito, espetáculo e agito. 

Quem vai ao mercado é também para ver e ser visto.

No mercado de verdade, aquele das antigas, homem com cigarro no bico e cuspe no chão e mulher com bucho pelas goelas esperando menino e outro escanchado nos quartos, pra “riba” e pra baixo, discutem o preço, choramingam, pechincham. 

É, parece que os nossos modelos modernos com preços fixos e arrumadinhos em prateleiras são uma degeneração do que foi o mercado um dia.

A negociação é a retórica mais bonita,  – “ei, bixim, faça isso não, dê “ao meno” cinco reais de desconto, ainda vou “interar” pra comprar um “quilidicarne”.  – “Ôochee, tu é doido mah, lá em casa eu tenho cinco menino pra dar dicumê, dá não meu fii, isso aqui eu já compro nas carestias, meu lucro é bem “pouquim”.”

Entre pedido de desconto, negação e chororô, argumentos que nada têm  a ver com a economia.

Do ponto de vista econômico parece absurdo. Mas a diferença é que nos mercados populares, a relação não é somente econômica, é uma relação humana mais ampla. Não é somente economia monetária, é também “de vida”, no sentido antropológico. 

Não significa que seu Zezim do box das cuecas lá da Zé Avelino e o comprador/sacoleiro têm uma profunda relação humana ou que são bons e velhos amigos. Mas que nas sociedades tradicionais não se separa a economia das demais relações. 

Todo nordestino sabe, as feiras sempre mantêm algo mais quente, aconchegante, de mais humano em comparação com um centro comercial, ou Amazon, por exemplo…  E até um tempo desses, as feiras eram o reino do artesanato, da produção local, das rendeiras, pescadores, gente do litoral, das velhinhas com cestas que faziam em casa e traziam cheia de ovos de galinha capoeira…

Isso também se tornou raro. Até nos mercados encontramos tomates holandeses, faisão, carré de cordeiro neozelandês. Siiimmm, aquela tripinha seca com sal enfiada do espetinho de marmeleiro já já vira estória de trancoso.  E no lugar do artesanato, dá-lhe produtos chineses.

Aqui e ali encontramos objetos interessantes nas feiras, as redes nordestinas, cintos e sandálias de couro para presentear amantes rebeldes, bonitezas de bilros, modinhas de algodão cru… Mas em geral, as feiras vendem simplesmente quase as mesmas mercadorias que há  nas lojas, só que mais baratas.

Mais barata? Sim, mas calma aí, tem uma exceção.

As imitações – principalmente no campo da moda – as roupas, os sapatos, bolsas…

Uma boa parte é da indústria planetária, com imitações asiáticas que são distribuídas no mundo inteiro, inclusive aqui na nossa Fortaleza.

Sem falar nas fabricações locais, artesanais,  de contrafacção. 

Quem nunca viu em Fortaleza uma produção da Gucci? É só espiar os pés que desfilam nos rolês da nigth, de Nike, uau, é tendência, as bolsinhas e looks sorridentes com ares de luxo puro, réplicas de Vuitton. 

Mas tudo bem se você não tem, aquela saia bonita, no Buraco da Gia tem.

Pra ressaca de carnaval, cajuína artesanal,

lá no Central, Madrugão ou no velho Sebastião.

 

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - canivete suíço, jornalista, pesquisadora, educomunicadora, coordenadora de Cultura e colunista no SegundaOpinião.jor

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