Mentiras que parecem Verdades

Há quem prefira engolir a lição dada e acabada, mas ainda bem que existem muitos outros que optam pela discussão aberta em espaços públicos, a partir dos lugares existenciais, dos questionamentos e dos conhecimentos acumulados em suas caminhadas humanas.

Paulo Freire nos ajudou a perceber para além dos livros didáticos, provocando-nos a ler o movimento da realidade ao nosso redor, não como algo dado, mas como resultado de uma dinâmica histórica e dialética dos sujeitos entre si e com a natureza. Já para o pensamento conservador, o importante é conservar o mesmo discurso, fazendo circular sempre os mitos eternos para a manutenção da ordem na forma estabelecida.

Um exemplo de discurso mítico pode-se encontrar nos versos de Olavo Bilac (1865-1918) em seu poema “A Pátria”, dedicado aos leitores infantis: “Ama com fé e orgulho a terra onde nasceste/ É um seio de mãe a transbordar carinhos/ Boa terra, jamais negou a quem trabalha o pão que mata a fome, o teto que agasalha/ Criança, não verás país nenhum como este/ Imita com grandeza a terra que nasceste//”. O mito do Brasil como pátria que ama a todos os seus filhos: ame-o ou deixe-o, disse a ditadura militar no tempo do general Médici. “O mito é o nada que é tudo; sem existir nos bastou”, arremataria o poeta parnasiano.

No livro didático consta, por exemplo, a lição dada de que “Eva viu a uva”. Mas para Freire, alfabetizar-se significa saber ler as palavras em seus contextos: quem é a pessoa (ou a personagem) Eva, onde nasceu e vive, o que significa ser mulher no tempo-espaço onde habita, o que é uma uva, como ela é produzida, em que sistema econômico de trabalho social e assim por diante.

Alfabetizar-se é estar aberto para a leitura do mundo e de suas relações, visando a identificar eventuais distorções, obliterações e opressões para desencadear processos de libertação e elucidação da verdade. É disso que os bolsonaristas têm medo. Da conscientização implícita na pedagogia freireana. Por isso a escolheram como o inimigo número um em sua guerra cultural negacionista totalitária, simbolizada na “escola sem partido”.

Mas na produção de todas as suas mensagens os bolsonaristas agem como facção. Recortam a realidade dos fatos, fazem montagens parciais, realizam inversões, para produzirem conteúdos e imagens falsas, apresentados ao público como sendo a verdade total e ponto final, sem discussão, sem liberdade pensamento e de expressão. Tá ok?

O bolsonarismo é, portanto, o aprofundamento da farsa iniciada em 2016 pelas forças golpistas que usurparam o poder, por meio de uma mentira: impeachment presidencial sem crime de responsabilidade cometido. É a consagração do engodo e da violência como modus operandi de atuação política. A mentira foi o começo de tudo, que o diga Sérgio Moro, o ex-juiz gatuno condenado por incompetência e suspeição pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Que o diga o general Villas Boas e seu twitter ameaçador do STF.

O jornalista Bob Fernandes publicou no dia 25 de maio de 2021 um breve e excelente documentário intitulado “A Rota do Dinheiro: a história da cloroquina de Bolsonaro”, no qual recompõe o tempo histórico do processo de construção e entrada no espaço público e midiático da narrativa da cloroquina (anti-protozoário) como a “pedra de toque” para o tratamento precoce da pandemia da Covid-19, sem comprovação científica, expressão da lógica ideológica da extrema-direita. O Brasil teve na pessoa de Jair Messias Bolsonaro o seu garoto propaganda oficial. Quando, como e por que essa trama financeira internacional começou? É a pergunta que o documentário buscou responder.

O marco inicial é a data 07 de março de 2020, em sua quarta visita aos EUA, em Mar-a-Lago, Palm Beach, no estado da Flórida, em apenas quinze meses de mandato, para encontrar-se uma vez mais com Donald Trump. Deste encontro, 23 membros da comitiva brasileira ficaram infectados pelo coronavírus. Até aquele momento o Brasil só tinha um caso registrado da doença.

A partir de então, enquanto nos EUA toda uma articulação midiática ligada a Trump desenvolvia muito cirurgicamente uma campanha para penetrar os corações e mentes dos estadunidenses a favor da cloroquina, no dia 15 de março, sem ter feito isolamento obrigatório de 14 dias nem os testes de laboratório para saber se havia sido infectado,  Bolsonaro participou, sem máscaras e promovendo forte aglomeração, dos atos convocados contra o Congresso, STF e pelo retorno do AI-5.

No dia 19 de março, após a sensibilização midiática da opinião pública estadunidense, Donald Trump em coletiva oficial a imprensa menciona a cloroquina pela primeira vez. A partir daí a campanha em torno da cloroquina aumenta de intensidade, capitaneada pela FOX TV. Dias depois, Trump dispara para seus 90 milhões de seguidores no twitter que a cloroquina iria virar o jogo contra a Covid-19. Registre-se que Trump é um dos grandes investidores da “bigpharma” SANOFI, produtora mundial da hidroxicloquina.

Quatro horas depois do twitter de Trump, Jair Messias Bolsonaro postou também em sua plataforma, no dia 21 de março de 2020, às 15h40, o seguinte vídeo: “Boa tarde. Agora há pouco profissionais (quem?) do Hospital Albert Eistein (onde ele se operou da suposta facada) me informaram  que iniciaram um protocolo de pesquisa para avaliar a eficácia da cloroquina nos pacientes com Covid-19. Também agora há pouco me reuni com o ministro da Defesa (general Fernando Azevedo), onde decidimos que o laboratório químico e farmacêutico do Exército deve imediatamente ampliar a sua produção desse medicamento”. (Note-se bem: uma avaliação preliminar implicou imediata ampliação da produção).

No dia 24 de março de 2020, em pronunciamento oficial em rede nacional, Jair Messias Bolsonaro volta a falar de cloroquina: “Após ouvir médicos, pesquisadores (o ministério paralelo?) e chefes de Estado de outros países (Trump), passei a divulgar nos últimos 40 dias, a possibilidade de tratamento da doença desde a sua fase inicial. Fruto da minha conversa com o primeiro ministro da Índia, receberemos, até sábado, matéria-prima (ifa) para continuarmos produzindo a hidroxicloroquina, de modo a podermos tratar pacientes da Covid-19.”

A partir daí, a cloroquina dispara nas consultas na internet; o produto desaparece das prateleiras das farmácias devido à procura pela população; a cloroquina, sem comprovação científica, ganha escala de produção e venda sem precedentes, inundando o Brasil e os EUA, em decorrência do discurso afinado entre Trump e Bolsonaro na comunicação globalizada. Um verdadeiro ataque semiótico.

No Brasil, inclusive, segundo os depoimentos na CPI do Senado, do ex-ministro da Saúde, Henrique Mandetta, e do presidente da ANVISA, almirante Antônio Barra Torres, Bolsonaro foi mais além com a tentativa em mudar a bula do remédio indicando-o como tratamento precoce para a Covid-19. A quantidade de cloroquina produzida em 2020 pelos laboratórios farmacêuticos das três Forças Armadas foi 25 (vinte e cinco) vezes maior do que o habitual anual. E sempre tendo em Jair Messias Bolsonaro o garoto propaganda oficial do produto.

Além disso, o ministério da Saúde, sob o comando do general Pazuello, utilizou a Fiocruz para produzir mais 4 (quatro) milhões de comprimidos de cloroquina, com recursos emergenciais de Medida Provisória, conforme revelou o jornal Folha de São Paulo.

Por fim, o documentário denuncia que, na iniciativa privada, o bolsonarista dono da farmacêutica APSEN, principal fabricante de cloroquina no Brasil, assinou, com o BNDES de Bolsonaro, dois contratos de empréstimo em 2020 no total de R$153 milhões para ampliar sua capacidade produtiva. Um valor sete vezes maior do que o crédito SOMADO liberado para essa empresa nos 16 anos anteriores.  As vendas da hidroxicloroquina fizeram com que a APSEN em 2020 atingisse um faturamento da ordem de R$ 1 bilhão (um bilhão de reais), respondendo por 78% das vendas do remédio no ano passado.

Essa é uma pequena amostra do tamanho do esquema obscuro que está por trás da campanha intensa do garoto propaganda Jair Messias Bolsonaro em torno da cloroquina.

O documentário, ao recompor a trajetória histórica dos fatos e relacioná-los, conseguiu colocar luz em algo que pairava desapercebido ao olhar do senso comum. Contudo ainda não conseguiu revelar a finalidade e a distribuição dos lucros espúrios dessa guerra semiótica cujo alvo foi o genocídio da população brasileira. Seria muito interessante que a CPI do Senado pudesse convidar o jornalista Bob Fernandes para ele poder tecer detalhes dessa sua magnífica pesquisa. Afinal, até agora, na CPI, só foi dito o óbvio sobre a ponta do iceberg que todos já conseguiam de certa forma enxergar. Mas se sabe muito bem que é no submerso que se encontra a maior parte do bloco de gelo. Que o diga o “inafundável” Titanic. Portanto, é preciso trazer esse bloco para a superfície para todos saberem de fato do que se trata. Vamos lá, CPI.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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