Mentira virtual, verdade biográfica, por ALDER TEIXEIRA

É de causar espécie o que vem ocorrendo no país nos últimos tempos. O nível de tolice nas redes sociais, por exemplo, ganha status de insanidade. Coisas inacreditáveis, a exemplo do que lhes conto agora: Amigo me manda um post de WhatsApp que vai na contramão de sua inteligência e das leituras que, estou certo, fez ao longo de toda uma vida, e das quais, pode-se presumir, deveria tirar melhor proveito.

Que nada: isso que chamam de “bolsonarismo”, substantivo com que se procura definir a cega adesão ao governo de plantão, e que de fato, em sua essência, apenas traduz um ódio doentio a Lula e tudo que represente minimamente uma leitura de mundo à esquerda, leva muita gente a perder o senso do ridículo.

Pois bem, o tal amigo me manda um vídeo em que, numa recurso de edição grosseira, vemos o ator e, agora diretor de cinema, Wagner Moura, levando a mão ao nariz repetidas vezes (porque editado o vídeo) num gesto que, é a intenção do autor da montagem, sugere tentar livrar-se de restos de cocaína. E isso durante uma entrevista, pasmem. Tudo porque, além de ator notável e dono de um conteúdo intelectual de fazer inveja, Moura acaba de lançar uma cinebiografia de Carlos Marighella (1911-1969), um dos mais renomados revolucionários brasileiros do século 20. Para não falar, claro, que tem denunciado ao mundo o golpe de 2016 e a prisão por motivos políticos de Luiz Inácio Lula da Silva.

A agravar o desespero dessa gente, na mesma proporção e em sentido contrário às barbaridades de Jair Bolsonaro, que, segundo um famoso jornalista, aposentou as antológicas piadas do papagaio, tão recorrentes têm sido a cada dia as aberrações saídas da boca do Mito e de sua gangue, Wagner Moura vem sendo aplaudido de pé mundo afora pela qualidade do seu filme e segurança com que discorre acerca de tudo que diz respeito à cultura, à literatura e, de forma destacada, à política do Brasil e do mundo. Tudo, diga-se de passagem, num inglês escorreito e sem sotaque.

Quanto a Marighella, o filme, infelizmente ainda não o vi, razão por que não posso tecer por enquanto quaisquer comentários além do que pude ler em jornais brasileiros e de alguns outros países. Muitíssimo elogiado, por sinal.

Li, há pouco, no entanto, uma extraordinária biografia do líder de esquerda escrita pelo jornalista Mário Magalhães com o títuloMarighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo, Companhia Das Letras, 2012, e que serve de esteio para o roteiro do filme de Wagner Moura.

O livro, reafirmo, é um primor  —  e recomendo-o a todos aqueles que queiram conhecer os meandros de um Brasil autoritário, perverso e sujo moralmente falando. O Brasil que, de novo, como um monstro redivivo, vem aos poucos dando a ver a sua cabeça horrenda em meio a crimes e lama.

Como um thriller, o livro obedece a um ritmo narrativo envolvente e profundamente lúdico (no sentido estético), abrindo as portas do cárcere e do porão para expor, com correção e destemor, as práticas mais inconfessáveis de atrocidades tão comuns durante os anos de chumbo desencadeados com o golpe de 1964.

O capítulo com que Magalhães dá início ao livro, intitulado Tiro no cinema, é perfeito do ponto de vista narrativo, acompanhando com o rigor de operador de câmera os passos com que os militares levam em frente a decisão de matar Carlos Marighella, não sem antes lhe impor a simbólica experiência da humilhação e um sofrimento físico insuportável. É, sob este aspecto, um registro que faz lembrar parte da história dos movimentos de esquerda no Brasil e no mundo.

Por último, o que me parece particularmente notável, para os que imaginam Carlos Marighella como um bandido sem qualquer qualificação intelectual e humana, o livro destaca o prestígio internacional do líder de esquerda brasileiro, a repercussão de seus artigos na Europa e os aplausos de ninguém menos que Jean-Paul Sartre, pela qualidade de estilo e densidade dos textos publicados em jornais e revistas importantes, a exemplo de Les Temps Modernes.

Por essas e muitas outras razões, Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo, pelo que traz no subtexto sobre o Brasil de 2019, é leitura incontornável.

Alder Teixeira

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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