Memento Para Auto Filho, por Dimas Macedo

Francisco Auto Filho, ex-Secretário de Cultura do Estado, constitui um exemplo raro de intelectual que tem feito da sua práxis política, um modelo de cidadania e de defesa da sociedade e dos seus incessantes movimentos culturais e políticos.

Em toda sua trajetória de cidadão e de filósofo, fez da estratégia e do compromisso com o socialismo, a sua bandeira de ação, com plena consciência de que as artimanhas e interesses do capitalismo fazem sangrar ainda mais as desigualdades.

O capitalismo e o modelo neoliberal de Estado conspurcam, para Auto Filho, os valores do Socialismo e da Democracia, de forma que, para ele, não existe liberdade política nem igualdade, se não houver, na vida coletiva, a emancipação da consciência.

O republicanismo e os limites da alteridade, a vontade objetiva e o materialismo, a dialética e a conquista revolucionária do poder, constituem pontos de inflexão do seu raciocínio, tendo em vista, a prática do interesse público.

Guindado ao posto de Secretário de Estado da Cultura, pelo governador Cid Gomes, no período 2006/2010, Auto Filho não esqueceu o lugar de onde veio (o nicho dos movimentos populares) nem a classe da qual é um representante legítimo (o universo dos professores, jornalistas e intelectuais).

Chico Auto, como o chamamos carinhosamente, é um erudito e um estudioso da filosofia marxista, destacando-se, também, como bibliófilo, jornalista e professor universitário, com passagem pelos melhores auditórios do Ceará e do Brasil.

Do seu discurso de posse na Secretaria de Cultura do Estado, gostaria de chamar a atenção para o fato de que ele pretendia desenvolver no Ceará “uma gestão cultural democrática e republicana, fundada no princípio de que a cultura é um Direito Fundamental e de Cidadania e não uma simples atividade econômica, regida pelos imperativos do mercado”.

Tinha, na época em que foi Secretário de Estado, a noção precisa de que a Cultura é um Direito Constitucional irrenunciável e um instrumento de transformação e de enfrentamento da globalização.

Democracia, republicanismo, constituinte cultural e prevalência do interesse público: este, com certeza, o conjunto de princípios sobre os quais arquitetou o seu programa de ação.

Outra virtude que vislumbrei no seu discurso de posse e nas diretrizes e linhas programáticas do seu projeto de gestão à frente da Secult, foi o reconhecimento do esforço de todos os secretários que o antecederam. Em suas ações e no seu discurso, Auto Filho sempre se mostrou um governante ético, primando pela continuidade dos processos e dos projetos culturais em andamento, sem a veleidade de ser o pai exclusivo do assunto.

O Sistema Nacional de Cultura e o Sistema Estadual de Cultura, em evidência no Ceará, desde a gestão cultural que o antecedeu, constituíram pontos de partida para a sua ação cultural consequente, aí destacando-se o livro e a leitura como objetos primordiais de seus investimentos.

A economia da cultura e a cidadania cultural exigem muito dos poderes constituídos para tanto. Na realidade, não sei o que melhor avaliar ou destacar nessa área de transformação da nossa identidade, pois são muitas as demandas e os déficits que entre nós se acumularam.

Tomar a cultura como Direito Fundamental e Democrático foi uma decisão das mais acertadas do Secretário Auto Filho, que elegeu a audiência com produtores e consumidores de bens, valores e serviços culturais como ponto de partida. E é justamente isto o que importa aferir, quando se quer a gestão cultural como transparência e o livro como como instrumento de libertação.

A comunidade latino-americana de nações, a integração política e social do continente americano, fora do alcance da ALCA e da sanha especulativa do capitalismo financeiro, liderado pelo consenso de Washington, esperam o máximo da cidadania cultural e das políticas que se tecem com os linhos da cultura, pois a cultura é elemento-primo de transformação da consciência.

Afastado da gestão cultural e do jornalismo, Auto Filho continua ativo como militante, comandando rodas de conversas nas livrarias da cidade, pregando o republicanismo e a liberdade política, defendendo a educação e a cultura, apostando no novo, e iluminando os debates que se armam numa Fortaleza cada vez mais vazia, em termos de renovação das suas forças culturais e da sua energia criativa.

O Ceará precisa dos seus líderes, e não apenas dos seus intelectuais que silenciam e dos políticos que o querem preso às turvas águas da sua hegemonia. O Ceará precisa de escola, e o sal dos cearenses, necessita de novos provadores. Auto Filho é um intelectual de vanguarda e sabe sintetizar, muito bem, os valores culturais da Terra de Iracema.

Fortaleza, 19 de julho de 2018

Dimas Macedo

Dimas Macedo

Poeta, jurista e crítico literário. Professor da UFC.

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *