MEDITAÇÕES SOBRE A ARTE ESCULTORA – Carlinhos Perdigão

A criação – enquanto ideia de originalidade – está no cerne da produção de um artesão. É a partir dela que ele, muitas vezes, delimita os percursos do seu trabalho. Nesse sentido, pode-se perceber como sua produção é construída e formatada, tendo possibilidades de ser compreendida quando circula – e está presente com seus significados – no meio social. Tal aspecto remete a questões culturais, históricas, e também comerciais, como veremos a seguir.

Por outro lado, destaque-se que, enquanto linguagem, e em relação ao trabalho de um artista, a liberdade pode ser absoluta. Com a arte de esculpir isso não seria diferente. Ela é concretizada principalmente em torno de materiais de superfícies endurecidas – como pedra, madeira e metais, e outros – como plástico, vidro, e possuindo três dimensões em relação ao relevo: a altura, a largura e a espessura ou profundidade. Assim, ela ocupa espaços físicos, excitando o nosso olhar e nos chamando para ser observada, “curtida” e companheira de viagens no mundo.

Retomando o tema da liberdade no entorno da arte de esculpir, sabe-se que ela é produzida a partir de uma perspectiva humana, não tendo, necessariamente, temas e formas já delimitados. Nesse sentido, e advindo dessa conjuntura, as composições podem ser bastante diferentes. Além disso, ela pode retratar aspectos culturais de uma sociedade, servindo mesmo como uma espécie de ícone, e delimitando tal espaço social como uma representação referencial de sua formação.

Dentro desse quadro, uma das primeiras esculturas a que tive acesso em Fortaleza foi a famosa Iracema, situada ainda hoje na avenida Beira-Mar. E, em paralelo aos contatos que vez ou outra mantinha com essa estátua nos passeios que fazia pela orla da Jurema, fui incentivado a ler a mais famosa obra de José de Alencar. Assim fiz.

O texto alencarino, pelo que lembro, remete a uma profusão de adjetivos, os quais valorizam a sequência textual descritiva – compreende-se que Alencar buscava traduzir em seus escritos a questão da imagem; fazia isso como uma forma de “retrato literário”, por assim dizer. Quanto à narrativa, em prosa poética, afora o conceito de o título representar um anagrama com a palavra “América”, também se sabe que retrata uma história de amor entre a índia e o guerreiro português Martim, e que originou o primeiro habitante nascido no Brasil: Moacir. Mas isso é assunto para outro texto.

Por sua vez, as estátuas presentes no Mucuripe impressionam pela beleza. Colocadas juntas de uma jangada (também esculpida), e do mar, à beira, formam uma espécie de conjunto coerente entre o visual e o material narrado. E, em conexão com o universo da escultura estão outras linguagens, como a cinematográfica. Assim, como o personagem Iracema é múltiplo, criança ainda fui assistir ao filme com o enredo de Alencar no Cine São Luiz. Uma Iracema voluptuosa foi o que surgiu na tela, a merecer olhares desejosos deste pré-adolescente, que não estava nem um pouco ligado na película, mas sim nas pernas – e nos seios – da atriz, Helena Ramos… Eu estava apaixonado pela América…

Tempos depois, numa visita ao Cariri, fiquei impressionado com a presença da estátua de Padre Cícero. Imponente, como que benzendo o povo daquela região, chama atenção já de longe. E, em torno dela, situada no alto de um monte, há inúmeros romeiros expressando em tons sinceros a força de sua religiosidade. Entretanto, na visita à estátua, ficou nesse cronista uma sensação muito forte de uma relação comercial, sobretudo. É o que ocorre nos arredores, com várias imagens do religioso, além de fitas e de outros artefatos relacionados ao tema sendo comercializados diuturnamente.

Realidades como essa me fazem questionar sobre os significados da fé e suas relações  mercadológicas. Explico: sou daquelas pessoas que veem alma e coração no lugar do dinheiro. Portanto: minha perspectiva é olhar o mundo por um viés humano, e creio que isso esteja cristalino nas atuações que empreendo enquanto arte-educador.

A Arte-Educação, como o nome deixa entrever, é uma área que privilegia um olhar artístico no entorno educacional abarcando variadas conexões com o mundo. Nesse sentido, compreendo que o olhar educacional segue comigo nas viagens artísticas que já realizei. Numa dessas, emoção à flor da pele, estive frente a frente com David, obra prima do genial Michelangelo. Desse modo, tomado por uma excitação diferenciada, soltei um sonoro “puta que pariu” assim que avistei a escultura! Em ato contínuo, com curiosidade extrema, cheguei próximo procurando perceber a força e a expressividade que dela emanavam. A partir daí, pus-me a pensar sobre os significados perenes que envolvem uma escultura como aquela, que conta uma parte expressiva da história do mundo e dos seres humanos. Em outra oportunidade, já em terras cearenses, pude conhecer uma das versões de O Pensador, de Rodin. A escultura visitou Fortaleza no fim dos anos de 1990. E lá estava eu, bem próximo, “meditando” sobre aquela beleza arquitetônica feita de poesia em forma de bronze. Feita de arte. Feita de educação.

Sim, só para reafirmar: é a partir da Arte-Educação que experimento o mundo, conectando-o à minha própria visão de produtor cultural, entronizado num cotidiano muitas vezes estéril, mas igualmente rico de possibilidades. É o que, por exemplo, a linguagem musical e baterística me propicia: ver o mundo por detrás de um palco – melhor lugar! Espalhar a palavra nos quatro cantos acreditando que ela “é” e que nos leva além – comparando com o que já disse, poeticamente, Leminski! Fazer as pessoas cantarem, encantando-se! Além de tocar e tocar e tocar a beleza de ser um eterno aprendiz…

Foi numa dessas tocadas na noite fortalezanse que conheci Kazane, artista plástico, guitarrista e gaitista envolvido com o blues. Ele era apaixonado – e ainda é! – pelo trabalho de Robert Johnson, um dos inventores dessa linguagem conectada aos lamentos de uma negritude escravizada, e que influenciou gerações de músicos e bandas tais como Rolling Stones, Willie Dixon e Elvis. Nascido em Sousa, no alto sertão paraibano, Kazane tem uma voz rouca, rasgante, e gosta de retratar em sua produção ícones da música. A natureza de seu trabalho, entrecruzado entre a linguagem musical e a imagem, já o levou a apresentar o projeto Partitura por Pintura, do qual eu e minha bateria fizemos parte. Uma conexão que deu certo, como pude observar no período.

Morador da Praia de Iracema, Kazane residia num enorme galpão que lhe servia de ateliê. Não raras vezes o vi a vários metros do chão, quase que suspenso no ar, a pintar painéis imensos. Kazane voava! Sua moradia era artística por natureza! Havia um cheiro perene de tintas, e quadros, muitos quadros expostos… Lembro-me bem que, logo na entrada do espaço, havia uma imensa escultura de um clarinetista – creio que baseada em Paulo Moura – a dar boas vindas a quem chegasse. Um luxo! Esses eram tempos anteriores ao Dragão do Mar, o qual, inaugurado, carestia no ar, o expulsou da rua Boris. Ele foi residir em outro espaço também completamente tomado por artes: o Peixe Frito Blues Clube.

Situado na José Avelino, coração da Praia de Iracema, o lugar era – na época – dividido por três artesãos: Kazane, Marcelo Santiago e pelo guitarrista Cícero Gato, também blueseiro todo. Na parte da frente do local situava-se o bar, propriamente dito, com circulação de vários artistas locais. Na parte de trás, por sua vez, igualmente havia muita produção de arte: quadros, molduras variadas, esculturas, material de sucata, ferros retorcidos, tintas, telas e suas superfícies planas… Era tanto material que havia dificuldade de se transitar… O Peixe Frito foi sem dúvida um lugar inspirador que, infelizmente, não durou muito…

De tudo isso, o que permanece para este cronista é a compreensão da força da arte escultura como construção humana. Ocupando espaços físicos, enche de beleza o mundo, sensibilizando pessoas, biografando a(s) cultura(s) de uma localidade, aprofundando narrativas e servindo como fonte de encontros entre o nosso olhar, a nossa alma e nossa capacidade de sentir.

Carlinhos Perdigao

Carlinhos Perdigao

Carlinhos Perdigão é arte-educador, músico, produtor cultural, professor de língua portuguesa da Faculdade Plus e da UNIQ – Faculdade de Quixeramobim. É autor do livro “Fragmentos: poemas e ensaios” e do disco “Palavra”. Tem formação em Letras e Administração, com pós-graduação em Gestão Escolar. E-mail: [email protected] Site: carlinhosperdigao.com.br

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