Maternidade, coisa pública

Comumente, as pessoas costumam se constranger ou, ao menos, pensar duas vezes antes de dar uma opinião sobre algo da vida de outra pessoa. Seja corte de cabelo, roupa, escrita, tarefas do trabalho, etc. Em geral, as pessoas tomam cuidado ao opinarem – salvo exceções – e muitas vezes acabam até desistindo de emitir determinadas opiniões críticas. Via de regra, é assim.
Mas com a maternidade não.
Desde a descoberta da gravidez, passando pelos enjoos, preparos para a chegada da nova vida, parto, pós parto, amamentação, criação: tudo que envolve o maternar é entendido como coisa pública. Todo mundo sabe ou conhece alguém que disse que outro alguém disse e olha, esse é o jeito certo de fazer. (se pudessem, até o jeito certo de vomitar na gravidez, determinariam).
É como se, ao tornar-se mãe, acontecessem dois processos: 1) a mulher se reduz ao ser mãe e 2) a maternidade não pertence a mulher e sim a todo mundo.
Não adianta. Sempre vão saber mais do que você sobre o que é ser mãe. E as opiniões vão ser dadas sem cuidado ou preocupação com a mulher, com os sentimentos dela. Maternidade é coisa pública e entendida como tal, diz respeito a todo mundo. Essa é a regra que a sociedade dita.
Como se não bastassem os processos internos – a gente se julga O TEMPO INTEIRO – e como se não bastassem toda a carga mental que o maternar impõe sobre a mulher, ainda há o peso de lidar com a coisa pública, publicamente analisada e muitas vezes condenada.
É fato que criar uma criança é processo coletivo. Transcende a relação mãe/pai e filho. É social. Vai além da casa e de afeto, incide sobre determinações que não estão sobre controle de uma pessoa apenas. Mas é sobre a mulher que as cobranças são feitas. É sobre o jeito da mulher de maternar que os julgamentos são feitos. Se ela amamenta ou deixou de amamentar, se ela deixa a criança assistir TV ou não deixa, se ela corta as unhas de um jeito x ou de um jeito y, se e se e se e se… A maternidade-coisa-pública é aqui o algo social que diz O QUE a mãe tem que ser, COMO a mãe tem que ser e QUANDO.
Acontece que nem só de “mãe” a mulher é feita. Há muito carne, sangue, suor e lágrimas. Há também inseguranças e talvez a coisa mais humana e importante nos processos de aprendizagem: a possibilidade do erro. Dito popular antigo que diz, é errando que se aprende. Toda mãe vai “errar” (entre parênteses porque erro e acerto é um outro debate, envolvendo moral, construção social, ideologia). Toda mãe, ao maternar, está aprendendo a ser mãe assim como o serzinho que se desenvolve e cresce está aprendendo a ser filho.
De tribunais julgadores estamos fartas. Já bastam as sombras que pairam em nossas cabeças e os dedos no espelho. A coisa pública deveria existir para fortalecer, não apedrejar.
Quando encontrar com uma mulher-mãe no seu dia-a-dia, dê um abraço. Acolha. Lembre a ela o quão incrível ela é e, se possível, diga a ela que pode contar com você. É essa a coisa pública que faz sentido. A solidariedade é a coisa pública que faz crescer.

Juliana Magalhaes

Juliana Magalhães é licenciada em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e mestre na mesma área pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) . Atualmente é docente da UECE na cidade de Itapipoca. Mãe de primeira viagem do Fernando.