Maternidade, quarentena , trabalho invisível.

O puerpério não é fácil. Aquele período pós parto, pós ansiedade, pós barriga-grande-com-bebê-dentro, definitivamente, não é fácil. É o momento de lidar com todos os desafios reais, da maternidade real. Sem ter pra onde correr e muitas vezes sem ter como externalizar o que se sente. É uma grande imersão.

Agora imagine emendar puerpério com quarentena e isolamento social? Imagine lidar com medos, angustias, ansiedades, bebê e uma nova mulher que surge com a maternidade com um período de pandemia global, vida social restrita e confinamento dentro de casa?

Imagine a casa.

Lar ou qualquer outro nome que se dê. Imagine o espaço físico da casa e tudo que ele traz como responsabilidade. Imagine ser mãe. Imagine ser mulher.

Todo dia tem alguma coisa pra fazer. O trabalho doméstico não tem fim. Lava uma louça, suja um fogão. Lava um banheiro, tem uma sala pra varrer. Sempre tem o que fazer. Sempre tem trabalho.

Mas o chamado serviço doméstico não é considerado trabalho, não é? Quer dizer, lavar louça, cozinhar, varrer a casa, lavar o banheiro tudo isso não é trabalho, é obrigação. Deve ser feito. Não deve ser pago.

Quando todo mundo é levado a permanecer dentro de casa, quantos silêncios continuam a existir? 

A chamada esfera doméstica, o tal do lugar delegado oficialmente as mulheres, guarda tantas contradições quanto se pode e a lógica é perversa: já faz tempo que a maioria absoluta das mulheres não fica “somente” em casa. As mulheres trabalhadoras, desde sempre tiveram que “ganhar o pão” fora de casa. Quem pode, paga outras mulheres pra cuidar de seus afazeres domésticos. E, ainda que nada permaneça inalterado comparando à séculos atrás, ainda é considerado feminino todo o trabalho doméstico.

Trabalho invisível, trabalho não pago, trabalho. Por mais que se dividam as tarefas – coisa rara – ainda é na cabeça da mulher que o que tem que ser feito vai ficar martelando antes de dormir. Organizar, planejar, fazer fluir a rotina da casa – tudo isso – ainda é sob os ombros femininos que recaem tais funções.

E quando a maternidade se soma? Não bastam os 9 meses no ventre, a demanda continua: amamentação, fralda e banho. Quantas fraldas, de quantos revolucionários, foram trocadas antes mesmo deles aprenderem a falar? 

Quantos silêncios um cotidiano pode esconder?

Lembro de muitas mulheres antes de mim. Lembro das que aceitaram de bom grado o papel bíblico, do ser-costela que lhes foi relegado. Lembro das que se rebelaram e ainda hoje se rebelam. Penso no patriarcado multifacetado que permeia nossa realidade, transcorrendo impávido, lúcido, sádico sobre nossas cabeças, nossos corpos, nossas vidas. É classe, raça, gênero, capital. Tudo isso junto e ainda sim, mil silêncios escondidos.

Reparo a mulher que varre a calçada. 

Eu sei, é quarentena, mas a calçada não pode estar suja. A privada também não. O filho vai chorar e você vai ter que dar de mamar. E não se esqueça do sal do arroz, da roupa no varal e quem sabe, de pentear os cabelos.

O número de mortes só aumenta – diz a TV.

Quarentena.

Isolamento social.

Trabalho invisível não remunerado.

Silêncios.

Juliana Magalhaes

Juliana Magalhães é licenciada em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e mestre na mesma área pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) . Atualmente é docente da UECE na cidade de Itapipoca. Mãe de primeira viagem do Fernando.