MALDITA LIBERDADE

Não é verdade que um paulistano se mate por amor. Lá embaixo há muitos deles. Quem poderia pensar que são tantos? Um rio. Gente. Surrela. Nenhum deles se mataria por amor, nenhum dos autênticos. Quais são os autênticos? Os filhos da gente que veio de fora já são autênticos. Se eu tivesse uma filha, ela já ia ser uma paulistana autêntica e podia ser que tivesse vergonha de ter uma mãe de fora e, ainda por cima, capaz de pensar em se matar por amor. O amor. Tudo começou quando eu vi uma catana autêntica, pela primeira vez na vida: era realmente uma espada japonesa, feita pra cortar o ar e matar pessoas, não um objeto de decoração. Eu nem imaginava o quanto ele mesmo podia ser ainda mais afiado do que as próprias armas. Hoje eu sei que não teremos uma filha e que eu nunca vou conhecer os seus pais, na Liberdade. Pensei em aprender japonês. Pensei que um dia a gente ia viajar e conhecer Tóquio. Mas ele era de Quioto. E não ia me levar. Por que os paulistanos que se matam se matam? Ninguém sabe. Ninguém quer saber. Há jornais que dão esse tipo de notícia, jornais que quando você espreme o sangue pinga, pinga, dizem: eu não sei, nunca espremi um jornal. Mas não são mais pessoas, são notícias, escândalos passageiros, e ninguém se lembra dos seus nomes e dos seus motivos. Dívidas. Crise financeira. Depressão. Solidão. Há crimes passionais, crimes por ciúme, mas isso é diferente de dizer no duro que foi por amor. Não cabe a palavra. Me sinto velha, fora do tempo, pensando assim. As amigas, que ficaram curiosas com o desempenho do japonês e inevitavelmente fizeram perguntas sacanas e estereotipadas — mas eu descobri que um japonês é um ser humano comum e proporcional —, agora dizem que eu devo sair com outros homens, esquecer: no final são todos canalhas egoístas e mesmo que amem amam porcamente. Que amam porcamente: isso quem me disse foi um amigo uruguaio, um que escreve, enquanto a gente dividia o mesmo baseado e ele ouvia os meus pesares. Talvez um dia ele transforme isso num conto e as pessoas vão achar que a minha tristeza é bonita, mas por enquanto a minha tristeza é só tristeza e, dependendo do que eu decidir, eu mesma posso não ser mais que uma notícia insólita de jornal. Caída da sacada do seu apartamento no Tatuapé. Morta instantaneamente. Curiosos. Alguns conhecidos de vista. Pode ser que descubram o motivo. Pode ser que publiquem o motivo e até certos nomes que deveriam permanecer anônimos: prefiro que pensem que foi solidão, depressão, uma casa cheia de samambaias e nenhum brinquedo de criança, um telefone que não toca. Todas as mensagens apagadas. Não deixei nenhuma carta. Uma vida sem rastro, surrela. Mais uma notícia de jornal e nem as de ontem foram todas lidas. E nem as que foram lidas todo mundo leu. Informação demais e cada um com os seus problemas. Dívidas. Desastres financeiros. Planos de conquista. O que se passa na cabeça dos homens? Saem à noite e aprendem a manejar espadas japonesas com o único intuito de seduzir e abandonar mulheres? Estranho que não se angustiem: nem sempre devem conseguir o que querem, mesmo os que sabem manejar catanas. Ou não. Os que sabem manejar catanas devem ser mais pragmáticos e objetivos: miram o alvo e disparam contra ele como. Como uma ave de rapina sobre a presa. Eu deveria me sentir apenas idiota e ter raiva e dizer que todos os homens são iguais e amam porcamente, mesmo os que manejam catanas, mesmo os uruguaios que fumam maconha, escrevem livros e são mesmo capazes de denunciar aos outros porque amam porcamente. Não, espera. Não posso falar assim do pobre Jorge. Ele não tem culpa, e me ouviu com toda atenção, como um irmão mais velho que não tivesse preconceitos com a vida e pode admitir que a irmã se interesse por homens e saia com eles. Se estivesse aqui e soubesse como me sinto. Nem só de baseados são feitas as confissões. É preciso que os ouvidos sejam os ouvidos certos. Jorge: me disseram que eu investisse nele e disseram, também, que parecia que eu tinha mesmo uma obsessão antropológica por estrangeiros. Tudo por causa de uma catana e de um baseado. Uma catana: ele, o outro, me prometeu uma no começo, uma espada autêntica, capaz de cortar o ar e de matar pessoas, uma espada do tipo que se usa no suicídio ritual dos japoneses honrados. Ele não vai se matar. Ele não ia se matar por causa de mim, se soubesse ou ao menos suspeitasse que eu tinha me matado por causa dele. Ele mesmo não é um japonês, embora fale o idioma perfeitamente e já tenha estado no país de origem dos seus pais… ou avós… bem mais de uma vez. Nissei. Sensei. Não lembro: podia dizer “não sei”, pra rimar e ser engraçado, mas não é engraçado. Ele é um paulistano e não vai se matar nem por honra nem muito menos por amor. Por que eu ainda devia me matar já sabendo disso? É que eu já sei disso: esse é o meu motivo. Ele não se importa e não vai se importar. Os meus pais vão se importar. As minhas amigas paulistanas vão se importar, embora não entendam como fui capaz de me matar por amor ou de talvez nem serem capazes de imaginar a minha razão. Quando souber o Jorge vai escrever um poema em castelhano e o poema vai ter o meu nome, e vai ser em minha homenagem, e ele vai ler o poema em algum dos bares de Montevidéu em que ele faz recitais. Um dia ele me disse que eu fosse vê-lo, e que levasse absinto, ajenjo, escondido na mala. Será que os uruguaios se matam por amor? Todos se matam por amor, mesmo que não saibam, ou pela falta dele, porque ele não houve, ou porque ele houve e foi demais pra se suportar ou porque não foi o bastante e esse quase angustiava ou. Ou porque ele veio e foi embora e não deu explicações e. Basta. As decisões não se tomam sozinhas e os atos não se concretizam sozinhos. Posso passar a tarde de hoje toda olhando o trânsito e derramar lágrimas que não vão cair no chão diluídas na fumaça de alguma coisa ou na humidade de tudo num dia tão frio que corta. Maldito mês de julho, tão frio! Todos se matam em julho, no julho de São Paulo, porque não há amor e se carece dele ou porque. Julho é frio demais, eis uma razão, não se pode esquecer o amor num mês tão frio, nos outros se pode passar. Mas julho, o ar cortando. A tarde de hoje. A tarde de amanhã. Até que as samambaias esquecidas murchem. Eu poderia adiar pra sempre e viver a angústia todo dia, como uma forma de saudade. É engraçado que eu olhe pra cima quando o que quero é cair. Ou não: é bastante compreensível. O meu desejo é ser uma estrela e que alguém possa me ver e querer me alcançar e não conseguir. Um idiota, um louco ou um poeta uruguaio que passou a noite fumando maconha e ouvindo as confissões de uma amiga chorona em outra língua ou. RRRRRRRRRRRRRRRRRRRR. O freio rasgou como unhas grandes e negras no quadro negro. Lá embaixo. Rasgou de se ouvir dentro da cabeça. O que a cabeça ouviria se fosse atravessada por uma espada. E o que havia dentro da cabeça agora se encontra imoralmente exposto. Amanhã será a notícia de algum jornal que vai pingar sangue se espremerem. Não posso mais olhar pra cima. A poça de sangue, densa, é como uma colcha que se desenhasse por debaixo dela, menina. A filha de alguém, a filha pequena de alguém, a menina atropelada. Os cabelos loiros assim espalhados no asfalto. De uma calçada um grito desesperado e agora inútil. A mãe possível de uma filha possível. Eu vejo. Eu recuo. Eu ando de costas e me quedo no sofá. Eu jamais pude esquecer. Enquanto eu pensava em me matar por amor. Lá embaixo. A menina atropelada. Ela morreu de olhos abertos. E olhava pra mim.

 

Airton Uchoa

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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