MACUNAÍMA, AS FORMIGAS E OS POLÍTICOS – PARTE DOIS!

​Não custa repetir a verdade segundo a qual as formigas são particularmente populares, pois, além de muito comuns na Natureza, são havidas como por demais organizadas. Entre os insetos, são os que atingiram o maior grau de organização biológica, o que é conhecido por “eusocialidade”. Elas, também, são imprescindíveis ao ambiente natural, na remoção das camadas do solo de baixo para cima, e vice-versa, deixando a terra mais saudável, além do que, enquanto passeiam pelas flores, espalham o pólen, dando origem a mais plantas.

Quando examinamos o grau de organização de uma outra espécie de insetos, igualmente populares e muito comuns entre nós, conhecidos como políticos, identificamos o mesmo grau de organização das formigas, porém com uma abissal diferença entre uma e outra; enquanto as formigas removem e adubam a terra, tornando o solo mais fértil, os políticos remexem das entranhas dos governos, seja de direita, esquerda ou trans-ideológico, camadas e camadas de vantagens espúrias, milhões e milhões em corrupção, para adubar os seus interesses, tornando o País cada vez mais estéril para a população. Enquanto as formigas são indispensáveis à natureza, os políticos…

Nesse âmbito, é imperioso lembrar o fato de que, em um período da história recente do País, uma centena de políticos e empresários, em conluio com alguns diretores e servidores de empresas estatais, agindo como se fossem “saúvas”, quase devoraram a Petrobrás, o BNDES, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica, e até a Receita Federal, como ficou demostrado na conhecida operação “Zelotes”.

Atuaram como fazem as formigas, que trabalham em rede e dividem as tarefas. Rapidamente, elas atacam, devoram e transportam com a máxima eficiência uma significativa área de folhagem, com o objetivo de alimentar a numerosa família no interior do formigueiro.

Por aqui, a família não é tão numerosa e são poucos os amigos, alguns inclusive conhecidos milicianos; o que é numericamente tão grande ou maior do que a quantidade de formigas no interior do formigueiro é a rentabilidade das rachadinhas. De tão alta, alguns conhecidos políticos com assento na Assembleia, e Câmara Municipal, do Rio de Janeiro, e no Senado, já compraram apartamentos e mansões em conhecidas cidades do País; e continuam irrigando suas ambições e ganâncias sem limites.

“As formigas são animais pertencentes à família formicidae, o grupo mais numeroso dos insetos”. Assim também pode ser considerada a família dos “corruptus”, do latim, que significa quebrado em pedaços”. “O verbo “corromper” significa tornar pútrido”. No Brasil, a família dos que se tornaram “pútridos”, no passado e no presente, parece ser tão numerosa quanto à das formigas e, ao contrário do que ocorre com o restante da população – trabalhadora, e honesta – que está envelhecendo, os corruptos estão se desenvolvendo, muito rapidamente, e são cada vez mais jovens.

​Os bancos suíços e de outros paraísos fiscais, historicamente, sempre foram o grande formigueiro desses corruptos que compõem a trama. Foi para esses paraísos que, durante muito tempo, impunemente, eles drenaram os milhões e milhões de dólares da corrupção, que praticaram desse lado de cá, do equador.

De tão abarrotados de dinheiro da corrupção, e monitorados pela – Justiça, esses paraísos fiscais já não aceitam transferências, depósitos ou investimentos, de qualquer natureza, oriundos dos integrantes da família dos pútridos – exceto quando é o caso de recursos pertencentes a autoridades do alto escalão da economia do atual governo, transferidos das suas offshores”.

A diferença substancial, – e isto deve ser registrado – é que as formigas realizam um trabalho coletivo, para alimentar toda a família, que é sempre numerosa, ao passo que esse grupo composto por bípedes formigões, que vivem às sombras do governo…

​Contextualizando o escárnio internalizado no comportamento de uma parcela dos pútridos políticos, recorremos à literatura clássica nacional, onde encontramos a reafirmação dessa cultura malsã dos homens públicos brasileiros. Quem teve a curiosidade e o privilégio de ler Macunaíma, de Mário de Andrade, sabe que o personagem à noite, quando ia dormir, subia ao jirau e, quando urinava, molhava a cabeça de sua mãe, que dormia em baixo da sua rede.

Os políticos, empresários, burocratas e os dirigentes de estatais, que historicamente se albergam nessa rede internacional de corrupção, com atuação articulada, dentro e fora dos governos, de direita, esquerda, ou trans-ideológico, urinam e defecam na cabeça de todo o povo brasileiro, dia e noite, o ano inteiro, desde o descobrimento desse País; sendo sua população formada por pessoas ordeiras, trabalhadoras e honestas. Desse ponto de vista, a Nação não merece os políticos que a representam.

Nessa contextura, uma operação, batizada pelo sugestivo nome de “lava jato”, que embora tendo cometido excessos e forjado provas para incriminar alguns dos envolvidos, provocando inclusive anulação de muitas das suas sentenças, realizou uma grande faxina, para varrer do cenário político do País os dejetos acumulados nas últimas décadas, expelidos pela escória dos pútridos.

​Macunaíma, ainda na meninice, gostava de tibungar no rio, enquanto tomava banho, nu, junto com a família, tentando pegar guaiamuns. Como todo menino, gostava de brincar, ou de ficar sem fazer nada, só na preguiça. Nessa trama, os personagens, também, não têm lá muito gosto pelo trabalho. Mostram-se tão ou mais preguiçosos do que Macunaíma.
​Enquanto isso, uma parcela da elite política e do empresariado brasileiros, envolvidos na trama, prefere tomar banho em banheiras de espuma e ofurô, regados a muito champanhe, em companhia de belas, e jovens mulheres, de preferência, em luxuosos hotéis da Europa e dos Estados Unidos.

Não é só isso, pois, dos seus hábitos de vida, também fazem parte aulas em luxuosas academias de tênis e outros esportes ainda mais sofisticados, assim como passeio de Ferrari, para si, e suas famílias, nas mais modernas e ricas cidades europeias, tudo – claro – bancado com os milhões de dólares, desviados do Brasil. Tal predileção se insere no âmbito do sofisticado estilo de vida, da maioria deles, embora muitos não saibam manusear um talher!

Enquanto isso, o povo é quem fica nu, e seus jovens atletas, muita vez, não têm sequer um par de tênis para treinar, em meio aos canaviais e estradas de chão batido, transformadas em pistas de atletismo. No País do futebol, que sediou a Copa do Mundo em 2014, e as Olimpíadas em 2016, é assim que se cuida dos atletas, ainda hoje.

​Mesmo identificando todas essas semelhanças, desde logo, advertimos adiante o distinto público leitor, e pedindo permissão ao genial Mário de Andrade para que possamos fazer essa que talvez seja considerada uma infâmia comparação, sem, no entanto, pretender, sob qualquer hipótese, agredir ou sujar a figura mítica e de múltiplas representações do personagem Macunaíma.

​Com essa maneira de agir e de ser do mandarinato brasileiro, seria até previsível imaginar que os personagens que compõem a representação da política e da economia brasileira, nessa trama, tivessem um perfil de “heróis”, cuja característica de maior relevo fosse a ausência total de caráter (em Macunaíma o caráter era apenas vacilante), já que, na tradição malsadia, da política, não se percebe a presença da virtù maquiaveliana porque a virtude não é o elemento fundante da política, ainda que o discurso seja continuadamente virtuoso.
​Racionalmente, recorremos a Mário de Andrade, e tomamos por empréstimo o personagem Macunaíma, porque, como preguiçoso, mentiroso, trapaceiro, sem palavra e traidor, consubstancia como nenhum outro as figuras dos milhares de políticos embusteiros e empresários oportunistas pelo País afora.

​Esses, historicamente, sempre se locupletaram das benesses estatais; afinal, parcela significativa da nossa elite política e econômica é composta de muitos macunaímas, com os quais os leitores já têm até alguma familiaridade, pois, no dia a dia, mantêm com eles algum contato nos noticiários que a imprensa reproduz sobre suas peraltices.

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Arnaldo Santos

Arnaldo Santos é jornalista, sociólogo, doutor em Ciencia Política, pela Universidade Nova de Lisboa. É pesquisador do Laboratório de Estudos da Pobreza – LEP/CAEN/UFC, e do Observatório do Federalismo Brasileiro. Como sociólogo e pesquisador da história política do Ceará, publicou vários livros na área de política, e de economia, dentre eles - Mudancismo e Social Democracia - Impeachment, Ascenção e Queda de um Presidente - sobre o ex-Presidente Collor, em 2010, pela Cia. do Livro. - Micro Crédito e Desenvolvimento Regional, - BNB – 60 Anos de Desenvolvimento - Esses dois últimos, em co-autoria com Francisco Goes. ​Arnaldo Santos é membro da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo – ACLJ, e da Sociedade Internacional de História do século XVIII com sede em Lisboa.

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