Lições de Dona Lindu

Uma das marcas intrínsecas do Presidente Lula é o relacionamento admirável, cultivado em seu coração, por sua mãe Dona Lindu, uma camponesa pernambucana, nascida em Caetés, em 1915. Sozinha ela educou oito filhos, nas cidades de Santos, São Paulo e São Bernardo do Campo, após haver migrado, num caminhão pau-de-arara, do sertão pernambucano em virtude da seca da região. Entre as diversas homenagens póstumas que recebeu em monumentos, Dona Lindu tem um belo parque com seu nome, localizado na Praia de Boa Viagem, em Recife (PE), projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, inaugurado em 2011.

Em sua recente passagem pelo Ceará, no discurso que proferiu por ocasião do seu encontro com os Movimentos Sociais e Culturais, Lula sacou de sua memória afetiva uma das muitas lições guardadas eu seu sacrário interior. Exclamou para a plateia: “Dona Lindu sempre me disse para eu nunca baixar a cabeça diante de ninguém, porque se eu baixar, eles colocam uma cangalha em meu pescoço e eu nunca mais terei condições de levantá-la”.

A reflexão de Lula está inserida dentro de um contexto de forte contradição presente no cenário político em função de a eleição vindoura possuir no estado do Ceará um forte componente nacional, em virtude da candidatura de Ciro Ferreira Gomes (PDT-CE) à presidência, acarretando um intenso debate político conceitual e estratégico.

No plano conceitual, o dilema se apresenta pelas notórias e continuadas agressões públicas proferidas por Gomes, tanto ao Presidente Lula quanto ao Partido dos Trabalhadores.  A concepção que Ciro tem de Lula é a de que “Lula é um merda”, que “Lula é o maior corruptor da história do Brasil” e de que “Lula é um cínico”. Nesta semana, foi a vez de Ivo, outro Ferreira Gomes, reforçar esse quadro conceitual, caucionando as sentenças do irmão, dizendo que Lula é um batedor de carteiras”.

A questão, portanto, que se impõe é se os líderes estaduais do PT cearense bem como a militância petista concordam com o conceito postulado por Ciro Gomes em relação a Lula. E em caso de discordância, por que ainda não se manifestaram publicamente? Afinal, como lembra o dito popular, quem cala consente.

No plano estratégico os números relativos à coligação mantida com o PDT de Ciro Gomes apresentam-se fartamente desfavoráveis ao PT cearense. Apesar de ter um petista no governo do estado, constata-se um claro definhamento da importância do Partido dos Trabalhadores (PT) na vida política, contrastando com o exponencial crescimento do PDT. Se em 2012 o PT no Ceará era a legenda com o segundo maior número de prefeituras, 30 ao todo, passados sete anos do governo de Camilo Santana (PT), esse número desabou para 17 prefeituras, menos de 10% do total de municípios. O mesmo não ocorreu com o PDT de Ciro Gomes, que em 2012 possuía o número irrisório de 08 prefeituras, e agora, devido ao efusivo apoio dado pelo governador petista Camilo na última eleição municipal, o PDT de Ciro Gomes conta ao todo com 66 prefeituras.

O caso da eleição de Fortaleza, capital do estado, é emblemático. Uma das causas de a candidata do PT à prefeitura, deputada Luizianne Lins, não haver conseguido chegar ao segundo turno, deveu-se decisivamente pela omissão do governador do PT no engajamento em sua campanha. O mesmo não ocorreu no segundo turno quando Camilo rapidamente declarou seu apoio incondicional a José Sarto (PDT).

Também nesta quadra política, como consequência desses acordos com o PDT de Ciro Gomes, o PT cearense viu ser rifado o seu senador José Pimentel, eleito em 2010 com 2.397.851 votos. Pimentel, filiado ao PT desde 1980, além de senador, foi deputado federal por quatro mandatos consecutivos. Exerceu também o cargo de Ministro da Previdência Social no governo Lula, de 2008 a 2010. Hoje o PT cearense não conta com cadeira no Senado Federal, além de ver diminuída sua bancada na Câmara Federal para três deputados, representando metade dos deputados federais do PDT, que conta com seis.

Importa registrar que os ataques conceituais dos irmãos Ferreira Gomes só tenderão a aumentar ao longo do tempo, na medida em que o leque da coligação que vem sendo formada pelo Presidente Lula, no sentido de garantir uma sólida governabilidade ao seu futuro governo, se fortalece com a inclusão de partidos representativos no cenário político, fazendo Ciro despencar cada vez mais na disputa presidencial, como bem demonstra a pesquisa recente da Futura Inteligência segundo a qual Gomes continua desabando, tendo caído em torno de 3 pontos percentuais nas intenções de voto.

Portanto, conforme a lição de Dona Lindu, fica a pergunta no ar: até quando a direção estadual do PT no Ceará ficará cabisbaixa diante de tanta agressão conceitual e desvantagem competitiva?

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Religião em tempos de bolsofascismo (Independente); Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .