Juventudes, experiências e leituras

Só depois é que eu ia entender: o que parece

falta de sentido – é o sentido.  Clarice Lispector.


Os universos da leitura e
da escrita se concretizam através da palavra. É ela que molda o pensamento de quem emite uma mensagem, tornando-a possível de ser compreendida e interpretada. Ou, dizendo de outra forma, de gerar significado para quem com ela mantém contato. Mas não só o universo vocabular significa. Sabemos que o silêncio é igualmente uma forma de representação comunicadora, quase sempre com significados, além da Língua Brasileira de Sinais, reconhecida como meio de comunicação e expressão.

 

E, em torno de todo esse quadro, há também um lado extra da língua que faz com que compreendamos os sentidos daquilo que é enunciado. Mikhail Bakhtin, o genial pesquisador russo conhecido como o filósofo do diálogo, já comentou sobre isso, ao afirmar que o sentido de uma palavra está no seu uso, ou seja, nos enunciados concretos que ouvimos e reproduzimos em torno dela. E assim, fundamentalmente, na construção de mundo que instaura ao ser usada como fonte de comunicação e de ação efetiva.

 

Portanto, no entorno dessa conjuntura, a palavra – analisada academicamente a partir dos estudos críticos da linguagem – é delimitada enquanto estrutura e acontecimento. O 1º termo se refere ao aspecto linguístico: a palavra é veiculada em um gênero textual, o qual existe e é produzido – enquanto enunciação “prática” em função daquilo que o comunicador deseja divulgar. Por sua vez, o 2º termo abrange o que está fora da língua, e que é representado pelo contexto social/humano em que ela se encontra e se concretiza. Nesse sentido, a palavra é um acontecimento, que propicia ações humanas ao ser comunicada e estar no cerne do processo.


Mas há outros contextos no
s quais o universo da língua pode ser valorizado enquanto existência provocadora de novas possibilidades para se tentar compreender o mundo ou, ao menos, vivenciá-lo em profusão, ou seja, com intensidade, com prazer e com gozo. É o que ocorre quando a palavra está presente em manifestações artísticas, e também quando é veiculada poeticamente, ou pela linguagem musical, ou ainda pelo teatro, ou pela literatura de uma forma em geral.

 

O universo literário permite conexões entre autor e leitor que intensificam o processo de comunicação humana. Portanto, quando se compreende a palavra ali presente como representante de ações e ideias do ser humano, o texto passa a ser um microcosmo do vivenciado, ainda que ficcional.

 

Nesse sentido, a palavra é vivificada e se torna alimento. Literalmente, o ato de se alimentar envolve ganhos de vida. Portanto, envolve musculatura nutricional, força e poder para continuar a nossa existência. Metaforicamente, a palavra veiculada e transformada em ação alimenta nossa alma, nossa vontade de nos conhecermos mais e mais. Envolve, portanto, possíveis amadurecimentos.

 

Amadurecer, por sua vez, é uma expressão envolvida com o tempo de vida. Existencialmente, há a compreensão de que experiente é aquela pessoa que o tempo fez tornar-se madura e escolhedora das melhoras opções de vida, de acordo com as próprias intenções. Por outro lado, há escritores como o ex-craque do futebol, Tostão, médico e articulista de jornais brasileiros após o encerramento da carreira, que já afirmou que a experiência vem com a juventude, não com a maturidade.

 

O paradoxo que tal afirmação sugere não encontra sustentação na realidade. Vejamos: as palavras significam pelo seu uso, portanto, elas têm sentidos relacionados ao contexto vivenciado e, academicamente, à polissemia, parte da Linguística que analisa as multiplicidades de sentidos que uma expressão apresenta. Assim, por dedução: é a situação de comunicação na qual o vocábulo é usado que vai delimitar o seu significado. E, numa leitura possível, a experiência de que fala o ex-jogador mineiro encontra eco não no “conhecimento” da vivência realizada, mas na experimentação, na mistura de elementos, nas possibilidades que a existência propicia.

 

Há um bom tempo eu havia ficado intrigado com essa afirmação de Tostão. Afinal, não a conseguia compreender, não conseguia captar a essência do comentário, realizar conexões do que ele disse com meus conhecimentos obtidos ao longo da vida; isto é: minha leitura e as reflexões dela advindas não eram aprofundadas, não eram críticas. Mas, ao contrário, “grosso modo”, incipientes e primárias.

 

Entretanto, a vida expõe aos seres humanos possibilidades de trilhar novos rumos, novos olhares, novas simbioses com o porvir. Foi neste porvir novidadeiro que me deparei com o trabalho da amiga Isolda Colaço Pinheiro, linguista que analisou semioticamente a obra “A paixão segundo G.H.”, publicação de Clarice Lispector. Assim eu, curioso para conhecer os meandros da Semiótica numa análise literária, bem como desvendar alguns segredos deste livro,e igualmente curioso para penetrar no universo de pesquisa da minha amiga, li o ótimo trabalho do curso de pós-graduação de Isolda, realizado na UECE, e encontrei um ponto chave para uma possível resposta a esta afirmação do ex-futebolista, qual seja, a questão da “coragem infantil”.

 

Por conseguinte, partindo desta expressão claricianaColaço cita que a força dos infantes se relaciona a sair da zona de conforto e (se) experimentar, haja vista queperder-se é essencial para encontrar-se novamente. Em outras palavras, e tentando aprofundar a questão, minha amiga assevera que na infância o medo e os limites não existem; e que ao contrário, sobretudo força e esperança para se continuar o percurso e se seguir em frente

.

Em seu estudo, Colaço ainda cita Roland Barthes, escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo e filósofo formado na Universidade de Paris. Segundo ele, em trecho presente também no trabalho acadêmico dela, a escrita é a arte de levantar questões e não de respondê-las ou de resolvê-lasHá neste fragmento de pensamento do pesquisador francês uma intrigante questão, pois o mundo exige novas respostas para novas e velhas perguntas, como já sustentou, em certa ocasião, Paulo Freire.

 

Obviamente que a leitora e o leitor compreendem: as palavras – como elemento das ações humanas – elaboram novos horizontes. E muitas das vezes partem das dúvidas, e não das certezas. Assim se faz ciência. E assim me faço como leitor. E eu me desejo interferente, descobridor dos sete mares, amante contínuo das artes e da educação, rejuvenescido em minhas novas – e velhas – experiências, em novos shows que virão, em novos espetáculos doamanhecer...

 

Mas eu também entendo Barthes: ele deseja valorizar o processo, o caminho, o percurso! Daí a proeminência e a valorização da questão; e não da resposta. Talvez impressione ao mestre o mito de Sísifo, condenado a rolar incessantemente uma rocha até o cume de uma montanha, e que caía em seguida. As palavras seriam essa rocha; metaforicamente: o problema constante, o leitor em estado de alerta por toda uma vida, criando mundos com sua coragem e com sua capacidade de empreender, se fazendo presente e enfrentando as negações existentes.

 

Daí a importância da imersão nas leituras. Compreendido o processo de alfabetização, o letramento: a amizade ao texto, a companhia das letras, o desejo de pintar o papel, de pintar o mundo, de pintar a alma, a presença do lápis, da caneta, da borracha, o bom humor do professor, a paz e a ciência que a paciência preconiza, a vontade de transcender, de criar e criar e criar…

 

Em todo o quadro, a compreensão de que ler é participar do mundo, e de que os sentidos presentes não estão apenas no final de um texto, mas, ao contrário, perpassam sua estrutura paragrafal, “tocam” no receptor, não obrigatoriamente para que ele concorde, mas que interfira com o seu olhar, com seu esforço prazeroso e com sua capacidade cognitiva.

 

Isolda Colaço ainda tematiza em seu trabalho da UECE sobre as possibilidades de leitura que outras linguagens nos permitem. E eu complemento que esse aspecto enriquece o nosso existir, e que nos torna mais inteligentes e com maiores vontades de potência. Nesse sentido, destaco que importa amalgamar o despertar das ideias e a existência do vivido, concretizado como fonte originária da formação de nossa consciência, amadurecimento e visão de mundo.          

Carlinhos Perdigao

Carlinhos Perdigao

Carlinhos Perdigão é arte-educador, músico, produtor cultural, professor de língua portuguesa da Faculdade Plus e da UNIQ – Faculdade de Quixeramobim. É autor do livro “Fragmentos: poemas e ensaios” e do disco “Palavra”. Tem formação em Letras e Administração, com pós-graduação em Gestão Escolar. E-mail: [email protected] Site: carlinhosperdigao.com.br

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