Joseph Goebbels no Brasil – FILOMENO MORAES

[…]
não basta conheceres sete teorias,
terás que subir as setes altas montanhas.

Gonçalo M. Tavares, “Uma viagem à Índia”

​A grotesca manifestação do ex-secretário nacional da Cultura, ecoando quase literalmente palavras do ideólogo nazista Joseph Goebbels, a que denominou de “coincidência retórica” e, depois, de “não de uma ação humana, mas de uma “ação satânica em toda essa horrível história”, me trouxe à mente dois livros lidos em passado recente: o magistral romance “As benevolentes”, de Jonathan Littell, e “ Crer & destruir: os intelectuais na máquina de guerra da SS nazista”, do historiador Christian Ingrao.

 

Da leitura dos dois livros, fica o alerta de grau máximo de que brincar de nazismo e de incorporar o fantasma de Goebbels, como o fez Roberto Alvim, é muito perigoso. E que convém colocar as barbas de molho, as existentes ou potenciais, e começar a perscrutar, para reagir mais severamente, se o incidente se enquadra como um epifenômeno ou um fenômeno que se alastra, ainda que sub-reptício, pelo atual governo da República.

 

Mas, afinal, por que a ligação de ideias com os escritos de Littell e Ingrao? Na verdade, o “Crer & destruir…” mostra como brilhantes, jovens e cultos advogados, economistas, filósofos, historiadores se engajaram particularmente na SS (“Schutzstaffel”, em português, “Tropa de Proteção”), – a unidade de proteção da elite do Partido Nazista e responsável pelo “trabalho sujo” do nazismo – e no seu Serviço de Segurança (SD). Ingrao investiga os mecanismos de cooptação política, científica e ideológica de oitenta desses advogados, economistas, filósofos, historiadores – enfim, pertencentes à a elite intelectual alemã -, pela ideologia nazista e pela ideia do extermínio em massa. Extrai-se do estudo, que tem base empírica severa, que que o nazismo provocou um imenso “fervor”, tanto entre as massas quanto nas elites da inteligência e da cultura.

 

Nomeadamente, o trabalho é uma tentativa de explicar como pessoas sofisticadamente instruídas se tornaram realizadores de assassinatos em massa, racionalmente programados e executados sem vestígios de sentimentos de humanidade.
Já “As benevolentes” (as “Erínias” ou “Fúrias”, representantes do castigo, do rancor e do inominável na mitologia greco-romana) é uma gigantesca – cerca de novecentas páginas – e formidável obra de ficção, lastreada nos terríveis fatos em que se calcou o nazismo. No livro, um ex-oficial da SS consegue fugir incólume da Alemanha, e se reinventa depois da guerra. Maximilien Aue, jovem alemão de origem francesa, meticuloso e delirante, é o personagem principal, que participa dos episódios mais sombrios do conflito e que relata na sua memorialística a execução dos judeus, as batalhas no “front” oriental, sobretudo em Stalingrado, a organização dos campos de concentração e de extermínio e a derrocada final da Alemanha. Max é um intelectual versado em literatura e filosofia, que a par do excelente conhecimento da música clássica, faz desfilar no seu relato macabro Hitler e Goebbels, Himmler e Heydrich, entre outros monstros humanos, que, com ideias e ações, fizeram a fábrica da morte funcionar.

 

Por tudo que se lê nas duas obras – uma, literatura; a outra, história -, ecoam as palavras de um sobrevivente do campo de extermínio de Auschwitz, Primo Levi, quando diz que “cada época tem seu fascismo; seus sinais premonitórios são notados onde quer que a concentração de poder negue ao cidadão a possibilidade e a capacidade de expressar e realizar a sua vontade”. Chega-se a isso de muitas maneiras, não necessariamente com o terror da intimidação policial, “mas também negando ou distorcendo informações, corrompendo a justiça, paralisando a educação, divulgando de muitas maneiras sutis a saudade de um mundo no qual a ordem reinava soberana e a segurança de poucos privilegiados se baseava no trabalho forçado e no silêncio forçado da maioria”.

 

É sabido que a história, em regra, não se repete, e quando o faz é como farsa. Assim, convém alertar, pois, sobre o discurso que relativiza a democracia, a tensão constante sobre as instituições, a boçalidade política, as “fake news”, as pós-verdades, os gabinetes do ódio, e assim por diante, para que não venham, afinal, a realizar alguma farsa trágica. E que se diga peremptoriamente que o lugar de Goebbels não é aqui.

Filomeno Moraes

Cientista Político. Doutor em Direito (USP). Livre-Docente em Ciência Política (UECE). Estágio pós-doutoral pela Universidade de Valência (Espanha). Publicou o livro “Estado, constituição e instituições políticas: aproximações a propósito da reforma política brasileira” (Belo Horizonte: Arraes Editores, 2021) e o e-book “Crônica do processo político-constitucional brasileiro (2018-2022).” (Fortaleza: Edições Inesp, 2022).

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