José Albano – do avião, asas à imaginação


Singular, criativo, perceptivo. Em todas as obras de José Albano é quase possível tocar a emoção com as próprias mãos. Pode ser o punhal na mão de Ares ou a seriedade no olhar de Antônio e Cleto; a língua de Nel e da cobra, a baladeira de Luiz Carlos, o sorriso de Lucas e Daniel; “Meninos de Nápolis”, “Criança Tapeba” ou “Crianças das Américas”. Emoção, irreverentes Albanitos. Devoção, o ninar de pai, o seio de mãe, o mamar. Ah, Emília… a filha, Emília, Emília…

A casa de Joaquim e Juaryta, pais de Zé Albano, tinha muita cultura, muitos livros, enciclopédias, discos, revistas, jornais e muitos amigos professores. Era uma casa grande no bairro São Gerardo, onde Zé Albano nasceu, em 13 de março de 1944. O décimo filho de uma família com 12 irmãos. Assim como o pai, Zé queria ser professor. Mas, em vez do francês,  era atraído pela língua inglesa. Cursou o Instituo Brasil-Estados Unidos (Ibeu) e desde o inicio teve excelente pronúncia. Antes mesmo de fazer 18 anos já dava aulas. Optou por fazer o curso de Letras, para satisfação de sua mãe.  No segundo ano,  ganhou uma bolsa  para os Estados Unidos, onde passaria 6 semanas.  O irmão mais velho insistiu para José Albano levar a câmera, mas o rapazinho ainda não sabia fotografar.  O irmão mais velho insistiu.

“…olha, você coloca o filme assim, depois centraliza o foco nessa bolinha, aqui nesse ponteirinho é o fotômetro, e você bate as fotos, não tem erro”… E ele pegou a câmera e pendurou no meu pescoço e lá fui eu, na janela para ver o mundo, sobre a asa, e de repente eu olho o cenário e vejo aquele brilho do sol, umas nuvens, uma imagem bonita, peguei a câmera e gostei do que via através da lente, e fiz a minha primeira foto – da asa de um avião… Fiquei alucinado”. 

Nos Estados Unidos, ZA começou a fotografar tudo…  trouxe para o Brasil, 600 fotos em slides, e foi um sucesso. Queria ser fotógrafo, estava pronto para largar a faculdade, mas a sua mãe disse “não faça isso”… e a muito custo ele acatou o pedido. Quando terminou a faculdade, já fotografava e ganhava dinheiro.

“O que dava dinheiro era fotos de crianças e de moças de 15 anos – posters para colocar na parede. Eu e o meu irmão Maurício Albano fazíamos essas fotos.  tudo em preto e branco.”

Ganhou outra bolsa para os Estados Unidos, fato que mudou sua vida.

“Fiquei alucinado, era Bob Dylan, LSD, os hippies, maconha, a vibe da liberdade dos anos 60 e 70, Jimi Hendrix, aquela coisa toda. Eu era responsável e tinha muito cuidado com a parte acadêmica, fiz o curso inteiro, com tese em inglês, e fui bem sucedido, ganhei o título de Mestre.”

Vendeu uma máquina de datilografia, o som, comprou uma passagem e foi para Europa exercitar os estudos de fotografia, mesmo sem dinheiro para hotel e restaurante. Com um saco de dormir preso na mochila, pegando carona de uma cidade para outra na Europa, dormia embaixo de ponte, no parque, com duas câmeras e três lentes na mochila e os filmes de latas que ele comprava… “eu só tinha $100, comprei um fogareiro de aço para preparar uma sopa quando fosse dormir, um chá de manhã cedo, e fui percorrendo a Europa.  Quando o dinheiro acabou, alguém me indicou as colheitas de uva na França – eles recebiam estudantes. Trabalhei uns 40 dias nas colheitas, com o dinheiro resolvi conhecer tudo que pudesse até o final do prazo da passagem…”

A mãe, preocupada com a distância e o tempo, pediu que o filho escrevesse tudo o que estava acontecendo. Ele escreveu oito longas cartas de 50 a 60 páginas, cartas gordas, hiper cartas. Anotava numa folha quadriculada um diário com letras pequenas, coisas relevantes que aconteceram durante o dia – dia 1, dia 2, dia 3, dia 4…  E essas cartas vieram para o Brasil de vários lugares da Europa, às vezes eu estava no sul da Itália,  na Grécia ou em outro país qualquer… dona Juaryta guardou todas.

Quando José Albano voltou para o ceará, fez 42 reportagens para o jornal O Povo, usando o material das cartas que sobreviveram ao tempo, às traças e ao cupim, e agora sua Editora disse “cadê aquelas cartas, vamos publicar um livro?” Zé está trabalhando neste livro das cartas da Europa, escritas por ele com 28 anos de idade.



Em que outra época gostaria de ter vivido: Eu sou muito afeito e curioso com o tempo antes de Cristo, os tempos da Grécia, quando Atenas era a luz do mundo, o grandes império, tempo de Péricles ou de Sócrates, aqueles filósofos. Gostaria de ter vivido ali, influenciado pelo  Monteiro Lobato, pelas leituras que eu fiz principalmente do Minotauro, os doze trabalhos de Hércules, os trabalhos infantis que eu amei profundamente —  botei o nome da minha filha de Emília por causa da boneca, eu tenho paixão pelo Monteiro Lobato, li toda obra dele várias vezes.



A palavra que eu mais gosto é uma palavra cheia de luz: é alegria.  A palavra que eu menos gosto poderia ser um palavrão qualquer, é difícil porque as palavras têm conotações emocionais  – não é o som da palavra – são as conotações que se formam na sua cabeça, e é difícil para mim apontar uma palavra de que eu menos gosto, poderia ser um nome feio qualquer, escatológico… fica por aí…(risos)



Existem heróis?  Existem muitos heróis, alguns são famosos, outros são completamente desconhecidos, e eu acho que tem heroísmo em todo lado, tem heroísmo no agricultor que luta para manter produtiva sua terra, que planta, que enfrenta a seca, que tem uma vida de batalha e que, no entanto,  supera tudo e cria os filhos, educa, isso é valoroso para mim. E tem heróis que são conhecidos, alguns famosos, posso citar o Mujica, que foi presidente do Uruguai, e que me inspira, é um herói, acho ele incrível, simplicidade, despojamento total. E, no entanto, uma firmeza de princípios. Nunca esqueço ele dizer nas entrevistas a luta dele contra as forças do capital, do lucro e dos interesses. Ele tinha que batalhar enquanto presidente, e ele não se corrompeu, e ele permaneceu com seu caráter. É uma das raras exceções, uma firmeza incrível.

 

Um filme para ver de novo:“Amarcord”, de Federico Fellini, é provavelmente o meu filme favorito. Amarcord é um dialeto italiano que significa “eu me recordo”, “eu me lembro”, são histórias da adolescência e da infância dele, é lindo.



Politicamente, eu me considero de centro-esquerda,  mas eu não admiro só as pessoas que comungam com a minha linha, tanto eu posso admirar alguém que está mais à direita, quanto alguém que está mais à esquerda do que o centro-esquerda, a minha faixa é ampla, a minha visão é democracia como preferência. Embora a democracia tenha furos incríveis, a possibilidade de se eleger pessoa que não tem nada a ver, mas a maioria assim o quis. Eu tenho tendência a ser um pouco elitista, o povão não me atrai porque o nível de educação é baixo. Tem coisas encantadoras, mas tem muita coisa feia na maneira de lidar, por exemplo, com a educação dos filhos, na maneira de lidar com o lixo, na maneira de fazer barulho… o que me atrai é a elite educada, (me refiro à elite intelectual, existe a elite ignorante, os novos ricos, elite educada não se refere à classe social), mas essa elite é uma minoria, eu lembro o que Alexander Sutherland Neill disse sobre a democracia, no livro Liberdade Sem Medo, sobre educação de crianças: “a democracia não funciona, e não pode funcionar porque é dada à maioria o poder de decisão, e a maioria está errada”. Então se é maioria que elege,  a maioria está errada. Sou essa pessoa que está preocupada que exista o processo democrático, mas ao mesmo tempo estou lidando com uma nata ignara que é obrigada a votar. Eu sou contra a obrigatoriedade do voto, que força as pessoas a terem que votar, e aí não se leva uma democracia a sério…

 

Quem você ressuscitaria? Meu irmão Maurício Albano, porque era um pedaço de mim, e não acredito que chorei todas as lágrimas que tenho para chorar por ele, pela falta que sinto dele. E outra pessoa seria o Vinicius de Moraes, o poetinha.

 

O livro que já li várias vezes: O Minotauro, de Monteiro Lobato, o escritor que mais amo, e tenho prazer de ler e reler. Os personagens do Sítio viajam no tempo e acordam na Grécia Antiga, na Grécia de Péricles, de Sócrates e depois as crianças viajam e Dona Benta decide ficar nessa Grécia, porque ela adorou, enquanto a Emília, Pedrinho e Visconde fazem uma segunda viagem para conhecer a Grécia heróica, do tempo do Minotauro, dos deuses do Olimpo, da Quimera, dos trabalhos de Hércules. Eles vão à procura da Tia Anastácia, que foi raptada por um personagem da Grécia Antiga…


Eu me acalmo com uma boa rede e chocolate.

 

Eu me irrito com barulho e com música de má qualidade, profundamente.

 

A emoção que me domina: Alegria, eu adoro alegria, quando alguém diz “eu te desejo paz” eu digo, “paz é pouco, eu quero é alegria”.


Um dia ainda vou: As minhas ambições atuais, aos 75 anos, são muito poucas, eu fiz tudo que eu quis, eu aproveitei tudo, não estou devendo nada ao passado. Estou tranquilo porque eu vivi intensamente, o que ficou para trás eu não preciso repetir, eu cheguei aqui tendo conquistado o que conquistei e estou muito satisfeito. O que falta e quero fazer é entrar em contato com pessoas do meu passado, que por razões do turbilhão da vida, foram se afastando e cujo contato ficou muito ralo, algumas já conectei através do Facebook, mas agora  quero visitá-las e tomar um café na casa delas, fazer uma visita presencial, não ficar só no teclado.


Religião para mim é: Eu nasci católico, fui batizado e não me perguntaram se eu queria, fui batizado à revelia. Com 15 para 16 anos eu comecei a duvidar dos dogmas da Igreja Católica e começou justamente com a virgindade de Maria, com o padre velho, na missa que minha mãe frequentava e levava os filhos, ele gritava lá da beira do altar “Maria foi virgem, antes, durante e após o parto”, e eu me perguntava: “mas por que insistir nisso, que coisa esquisita esse velho aí, isso não é natural, não está certo, eu não acredito nisso.  Larguei a igreja completamente e virei um ateu.  Com 40 e poucos anos eu fui ao Primeiro Encontro Nacional das Comunidades Alternativas, era o 14º encontro, no interior Piauí, eram os herdeiros dos hippies, barbados, tatuados, muita gente ligada às filosofias da Índia, ao Budismo e ao hinduísmo, a meditação… Vi as pessoas cantando mantras e aí um dos líderes disse: – quem é o seu Deus? Aí me deu um frio na espinha e pensei “se eu disser que eu sou ateu vão me bater”, rapidamente eu pensei e disse: “meu Deus é o sol por que é um ser de luz, porque é uma forma perfeita, é uma esfera, por que está no céu e por que é o pai da vida, a nossa vida depende do sol, então meu Deus é o sol”.  Ele olhou para mim e disse: “é também” –  eu me senti aceito. Nunca mais falei que sou ateu.



Dinheiro: Eu nunca tive talento para juntar dinheiro, eu sou artista, cabeça despreocupada com esse tipo de coisa. Tudo que eu ganhei eu gastei, não acumulei nada, esta casa me pertence realmente, foi herança, eu sou aposentado pela previdência. Minimamente houve a preocupação com o que aconteceria na minha velhice, a aposentadoria dá para pagar as contas, eu moro sozinho e não tenho dependentes, as pessoas me ajudam a pagar IPTU – moramos juntos na comunidade e estou satisfeito, eu não preciso de mais do que tenho, não tenho carro, tenho uma moto velhíssima. Com 75 anos eu continuo viajando de moto – ela tem 34 anos. Viajei o Brasil inteiro com ela, várias vezes. Virou um livro  -“Manual do Viajante Solitário”.


A vida é: A vida nos é dada por um tempo, a oportunidade de habitar esse corpo. Não tenho certeza de que existe fora do meu corpo um espírito e, quando eu parar de respirar, esse espírito continuaria,  não acredito que vou  reencarnar. Não acredito que seja a reencarnação de outra pessoa. A vida para mim é a magia de estar na natureza, se beneficiando da energia do sol, porque sem ele não teria isso aqui . Sou encantado com a vegetação, com o calango, com a borboleta, o lagarto, o “soim”, aqui tem uns macaquinhos que ficam passeando nas árvores, eu sou um entusiasta da vida e de aproveitar a vida. Adoro estar aqui, interagindo, ver o crescimento das crianças, meus netos, meus vizinhos, acho um barato.



Se você tivesse o poder, o que mudaria? Mudaria a mentalidade das pessoas, as atitudes de intolerância, as discriminações, os preconceitos. O projeto do ser humano é  bom, mas para um grande número de humanos esse projeto degringolou, está muito aquém do que poderia ser, as pessoas teriam que ser felizes na bondade, na cooperação, na partilha das coisas… Na porta da frente da minha casa tem um desenho feito com xilogravura e a frase é assim: – se você tem mais do que precisa, não faça um muro alto, faça uma mesa maior.


Eu gostaria de ser: A única pessoa com quem eu trocaria a minha vida seria um violinista de Jazz francês, Stéphane Grappelli. Era a pessoa mais alegre, feliz e criativa. Tocava esse violino e gravou durante décadas com vários artistas do Jazz. Ele dizia, “vou tocar no violino até morrer”…  Agora, se fosse possível trocar minha vida com um bicho, seria com um pássaro.



Não perco uma oportunidade de ter conforto, de me dar bem, meu corpo se dar bem. Por exemplo, eu detesto banho frio, tem que ter chuveiro elétrico, banho morno, almofada, travesseiro com pena de ganso, eu quero conforto, uma rede boa para deitar, eu quero uma comida gostosa que eu mesmo prepare; como diz o Caetano: eu nunca quis pouco, eu quero não perder a oportunidade de estar confortável, uma filosofia epicurista, se você vai deitar, deite numa cama boa e gostosa, numa rede confortável, se vai tomar uma sopa, faça com bons temperos, não preciso consumir caviar, coisas caras…



A solidão e o silêncio: Não rola para mim solidão, e silêncio é desejável à noite, para eu dormir. Em geral não me perturba os meninos brincarem, jogarem bola, quando meu filho adotivo ensaia guitarra, nada me perturba, silêncio para mim seria o desejo de paz na hora de dormir, mas se não tiver, mesmo assim eu durmo. Amo morar aqui, não tem carro buzinando. A solidão, eu não gosto, sou um ser gregário, gosto só um pouco quando tenho que escrever meus livros,  gosto da companhia dos amigos e adoro recebê-los na minha casa, adoro tê-los por perto.


O Brasil é: (Suspira, pausa e silêncio…) eu tenho medo e tenho pena do Brasil, vergonha e uma alta preocupação porque tem corrente dentro do Brasil e brasileiros que me amedrontam, me deixam desanimado e apavorado…o Brasil somos nós, os brasileiros, e entre esses brasileiros tem gente que eu abomino completamente. Se eu cruzar com algum na calçada, eu mudo de calçada, eu tenho medo dessas pessoas que com o poder na mão podem fazer um estrago sem tamanho. Às vezes, tenho vontade de ir para o Uruguai (risos) vou para um lugar onde existe um nível mais homogêneo. Mas eu continuo acreditando que o Brasil terá forças para superar suas dificuldades enquanto ainda tivermos uma Imprensa Livre, que possa informar e avisar as pessoas do que está acontecendo. Tenho alguma esperança de que possamos superar coisas como assassinato da Marielle, por exemplo. Eu não me sinto representado pelas lideranças no Brasil atual, para dizer o mínimo.


O ser humano vem evoluindo, às vezes dá dois passos para a frente e dois passos para trás. Quando eu leio sobre os filósofos da Alemanha ou os grandes músicos, Bach, Beethoven, Brahms, as pessoas que amo e a música e a poesia, uma Alemanha que era símbolo da evolução, da intelectualidade, da arte, e aí uma Alemanha dessas se entrega para um Hitler, um golpe, um homem que destrói o país e destrói o mundo. Fico impressionado como a humanidade tem esse sentido de poder se aperfeiçoar e evoluir, e no entanto ela tem quedas terríveis. Li recentemente Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, de Yuval Harari, Você está indo um ponto de vista muito original, coisas que ninguém falava, ele foi sabido, foi uma evolução a felicidade no homem, o que conquistamos. Ao mesmo tempo eu sigo a preocupação de um astrônomo famoso chamado Carl Edward Sagan, ele fez uma série para Netflix chamada Cosmos, e ele dizia que nós, enquanto humanidade, estamos na adolescência tecnológica e a adolescência é um tempo na vida em que a gente se expõe a muitos riscos, a muitas excessos… E adolescência tecnológica pode levar o homem ao aniquilamento, ou a gente pode transpor essa adolescência tecnológica.



Eu sou o que os franceses chamam de um bon vivant. Um bon vivant é um cara que ama a vida e vive plenamente. É amigo do conforto e do bem-estar. Se ele for do vinho, ele quer o melhor vinho, se ele for do chocolate, ele quer o melhor chocolate.


Minha mensagem é essa, procure esse caminho porque a vida é uma só. Nada de grandes sacrifícios, estar bem e ser feliz. Quando você é feliz as pessoas lhe querem, lhe procuram. Você nunca vai estar isolado. Se você estiver bem com você mesmo, se você gostar de você, os outros gostam de você também. É simples assim, todo mundo que vem na minha casa, eu trato bem. E o que as pessoas querem fazer? Voltar aqui porque são bem tratadas. E o bon vivant não está necessariamente ligado a coisas muito caras. Tem muito mais a ver com a simplicidade e o conforto da casa que eu tive o privilégio de fazer, tem a ver com minha moto Honda velhinha, mais de 30 anos, e eu não fui atrás de comprar o modelo novo, é a mesma, enferrujada, feia, de ter uma coisa e não precisar de mostrar para o mundo que é o mais sofisticado, o último modelo. É o mais simples que tem e eu que me satisfaz completamente.

A coisa mais importante que eu fiz na minha vida foi reproduzir, ajudar a criar um ser humano do zero, desde o nascimento, que foi a minha filha Emília. É uma história de dedicação profunda, é uma história de aprendizado, de estudo de livros para aprender como tentar fazer o melhor trabalho possível de criação humana. Prejudicou minha carreira? Prejudicou. Trabalhei menos para o comércio e para a indústria? Sim. Ganhei menos dinheiro? Sim. Outras pessoas se destacaram, passaram na minha frente? Sim, porque eu estava ocupado com essa criação, com esse ser humano. Eu tinha um emprego de tempo integral numa agência de propaganda e quando Emília nasceu, eu cheguei para o patrão e disse: – olha, eu não venho trabalhar pelas manhãs, eu quero ficar em casa ajudando minha mulher, cuidar da nossa filha, fazendo a comida, arrumando, balançando ela para dormir. A partir de amanhã, a parte da manhã é para minha vida, de hoje em diante eu vou trabalhar só à tarde. E assim eu fiz,  e ele, o patrão, aceitou.  Quero deixar registrado que essa foi a coisa mais importante que eu fiz na minha vida, e como resultado desta dedicação, é ela a melhor pessoa que eu conheço no mundo.




… Zé Albano é o vento no cabelo da estudante em Bruxelas, os chapéus das moças de Toledo, é a emoção nos velhinhos perfumados num banco de praça em Barcelona, é o prazer da construção e a casa de taipa; é o brilho da água em Veneza e o instante decisivo de Cartier Bresson; as folhas das árvores refletidas no espelho da sensual Honda 125,  o símbolo do infinito no asfalto do Alto Paraíso de Goiás; é a percepção e o infinito,  a consciência do outro, do mundo e de si.  É flor e verde das serras, é campo, dunas, rios e praia de Sabiaguaba.

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - canivete suíço, jornalista, pesquisadora, educomunicadora, coordenadora de Cultura e colunista no SegundaOpinião.jor

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