JACKSON DO PANDEIRO ENTRE AGOSTO, COAXO DO SAPO E AGOURO DA EMA

Desde sempre, populares associam o mês de agosto a episódios negativos, mas foi no final deste mês que nasceu Jackson do Pandeiro, em 1919, no Engenho Tanques, em Alagoa Grande, na Paraíba. Não se pode dizer que José Gomes da Silva Filho (nome verdadeiro) teve as melhores chances. O fato de ser filho de uma cantadora de coco, Flora Mourão (nome artístico de Flora Maria da Conceição) e de um oleiro, também puxador de roda de coco, certamente fez a diferença. Foi um dado importante para o futuro de José Gomes que esteve, muitas vezes, segundo esses mesmos populares, entregue ao pertencimento de Deus e a própria sorte.

Jackson do Pandeiro tinha tudo para dar errado, certo? Errado. As virtualidades, os elementos de sua genética e a sua inteligência constituíram um barro humano diferenciado. Negro, afrodescendente cuja família recusou o Quilombo, preferindo as péssimas condições de trabalho, apostou na preservação do coco como a maior manifestação de seu povo. Raquítico, baixa estatura e voz anasalada, tornou-se artista de prestígio nacional em meados do século XX. O maior ritmista do país, hoje é uma lenda da música popular — posição quase impossível, devido à consolidação do ambiente globalizado, com o fim de fronteiras culturais.

Do alto da janela, o agouro da ema, no tronco do jurema, “sinal de tristeza” e “bocado de azar” não superou a alegria do sapo, “contente com o seu desafio”. Duas músicas, que poderiam ser hinos de sua existência, nem constrangeram o otimismo de um menino pobre que nunca frequentou escola mas, através da mãe, tomou gosto pelo ritmo como tocador de zabumba. Após a morte do pai, José Gomes, no início dos anos 30, principia uma carreira musical, começa a apresentar seu trabalho, visitando emissoras de rádios, feiras livres e diversos espaços populares, até se consolidar percussionista da Orquestra da Rádio Tabajara, regida pelo famoso maestro Nozinho.

O fato é que dessas constantes misturas culturais, partilhando de um cotidiano vivido entre cirandas, quadrilhas, rodas de coco, forrós pé-de-serra, rojões, gafieiras, festas em casas noturnas, disputas em rinhas de galo, fitas de bangue-bangue, cachaças, partidas de futebol e fuzuês, Jackson do Pandeiro incorpora esses registros e manifestações de sertão que já não existem com a mesma riqueza, em suas musicas. Adapta, a seu modo, as emboladas, os cocos, os maneiros paus e cantorias dos repentistas, adormecidas em seu universo infantil, onde os timbres onomatopeicos e brejeiros se mesclam e brotam nas suas letras e batuques, ganhando novas ondulações.

CASSINO ELDORADO

Em 1953, já maduro, com trinta e cinco anos, Jackson grava o seu primeiro disco, após anos de apresentações no Cassino Eldorado de Campina Grande. Em Recife, no ambiente da Rádio Comércio, conhece Almira Castilho de Albuquerque e casa-se com ela, quando essa radialista e cantora o alfabetizou, ensinando também o lado prático da vida. Em função dos negócios que entabula com o novo marido (os shows e a parceria nas composições) consolida um casamento civil e musical, casamento afetivo e de negócios que durou o mesmo tempo da dupla — doze anos.

“Forró em Limoeiro”, composta por Edmar Ferreira, e a música “Sebastiana”, sua composição com Rossil Cavalcante (da dupla que ele formou, batizada de Café com leite), fazem muito sucesso. 

O bom humor, bem representativo na sua narrativa musical, suscitava um convite à sua comadre para dançar e xaxar com ele, na Paraíba. Ela aceitou, mas curiosamente a mulher apresentava uma performance diferente das demais, pois “pulava que nem uma guariba” e já brandia, depois da marcação rítmica do a, e, i, o, u, contra o ípsilones, na prática, uma exibição inovadora na dança extravagante, devido a inserção de “barrigadas” que, a um só tempo, uniam estética, conteúdo e forma.

Segundo historiadores, no ano seguinte, em 1954, Jackson começou a ser conhecido no Norte e Nordeste. Logo se muda para o Rio de Janeiro, a convite da gravadora Copacabana. Naquele mesmo ano, lançou quatro discos e um LP, Jackson do Pandeiro com Conjunto e Coro. Em 1956, vieram outros sete discos de 78 rpm e outro LP (Forró do Jackson) e, a partir desse ano, novos convites para participar de shows e filmes.

O que entusiasmava os críticos e amantes da música popular era a facilidade de Jackson em cantar os mais diversos gêneros musicais do universo popular, executando, com extrema versatilidade, o baião, o coco, o samba, o rojão, o xaxado e as marchinhas carnavalescas. Aliás, Jackson, com Almira, participou de dezenas de filmes longa-metragem, como Tira a mão daí (com Ângela Maria, Linda e Dircinha Batista, Jorge Veiga e Virginia Lane), Aí vem a alegria e Cala a boca Etelvina (estrelada pela comediante Darcy Gonçalves), entre outras películas relacionadas com as “chanchadas”, um gênero que alinhava humor, drama, piadas escrachadas e música.

Essa facilidade com o ritmo, dança e interpretação parece proveniente dos anos em que ele se apresentou no Cassino Eldorado. Ali, com certeza, junto a músicos extraordinários, aprimorou a capacidade de improvisar, própria do jazz norte americano, e sua maneira de dividir o tempo da música, criando uma forma peculiar, própria, adotada, inclusive, pelo sofisticado João Gilberto, original intérprete da bossa nova, baiano, nordestino como Jackson do Pandeiro.

A partir dessas gravações e shows, Jackson passou a ser considerado o maior ritmista da história da Música Popular Brasileira de todos os tempos. Sua discografia compreende mais de 30 álbuns lançados no formato LP. Desde sua primeira gravação, “Forró em Limoeiro”, até o último álbum, “Isso é que é Forró!”, de 1981, foram 29 anos de carreira artística, como intérprete extraordinário, suas músicas vararam gerações, mais de 400 composições: Forró em Limoeiro, Como tem zé na Paraíba, Casaca de couro, Um a um, O puxa saco, A mulher do Aníbal, O canto da ema, Cantiga do sapo e Capoeira mata um…

Para os músicos mais exigentes, esse ultimo título (Capoeira mata um) tem um destaque especial. Jackson promove um delicioso balanço, misturando coco com samba, com gingado, um tanto minimalista, um êxito precioso do afrosamba, que seria estudado por compositores como Baden Paul. Repetiu a mesma mistura inovadora em A ordem é samba, selecionada por eles, como a melhor de seu cancioneiro, sobre a nova onda musical do Rio de Janeiro, além de Bodocongó, um baião composto especialmente para ele, com letra do talentoso cearense Humberto Teixeira,

No final dos anos 50, seu prestigio de ritmista, juntamente com a sua esposa Almira Castilho, o levou à televisão. Como a indústria nacional se ampliava, a televisão passava a se agrupar em rede nacional e a primeira delas, a TV Tupy, restou conhecida como a “casa dos artistas nordestinos”, e Jackson e sua mulher eram os anfitriões, comandando um programa musical sobre forró. Recebiam velhos e novos nomes, contando casos e reunindo artistas nordestinos, ou nortistas, como eram distinguidos na época, algo com o nome de Forró do Jackson, ou Jackson do Pandeiro na Tupy. 

TRETA COM FLAVIO CAVALCANTI

O programa Um instante, Maestro! marca o inicio da carreira do apresentador Flávio Cavalcanti, em 1957, junto à TV Tupi. Anos mais tarde, por uma abominável guerra de audiência, ele tem contra a si severa censura no Programa Flávio Cavalcanti e suspensão por 60 dias, porque apresentou a história de um homem inválido que teria emprestado a sua mulher a um vizinho, o que revela do quanto o apresentador era capaz (quando o assunto era a conquista do público não havia limites).

Jackson do Pandeiro, considerado o rei do ritmo, tinha também um programa de televisão na mesma emissora — um show dominical na  TV de Assis Chateaubriand, dedicada ao forró. Pois bem: um de seus colegas de emissora era justamente o famoso apresentador Flávio Cavalcanti, que mantinha aos sábados Um instante, maestro!, com um conteúdo de reality show que apresentava músicas e julgamentos sobre as mesmas por um corpo de especialistas, produtores e representantes de diversas áreas de comunicação da época. 

Na atração maior, guiado por um critério pessoal e subjetivo, Flávio tinha o hábito de quebrar discos interpretados por artistas populares que contivessem músicas que não o agradassem, levando-os à humilhação. Um dia, ele quebrou um disco que continha o baião “Hotel do Zeferino” (chamando a atenção do público, classificando a canção de “cretina”), que Jackson na verdade sequer havia gravado. 

No dia seguinte, em seu espaço dominical, Jackson do Pandeiro não contou duas vezes. Repreendeu Flávio Cavalcanti ao vivo, por ter enganado os telespectadores com um disco falso, disparando que “cretino era ele e sua mãe”. Desse episódio, o artista paraibano acabou suspenso pela emissora. Não houve alternativa, senão rescindir o contrato com a Tupy, passando a trabalhar com exclusividade na Rádio Nacional.

CHICLETE(S) COM BANANA

Gravada pela cantora Odete Amaral (1956), essa icônica música constitui uma mistura bem sucedida entre o forró nordestino urbano — conhecido também como samba de latadas, ou ritmo de gafieira — com o bebop, um segmento do jazz norte-americano. O Brasil passava por intensas transformações e ingressava no período industrial, marcando também o momento em que a influência das músicas estrangeiras invadia o país.

Aí, o talentoso compositor baiano Gordurinha (Waldeck Arthur de Macedo), que criou a letra, sentiu que essa invasão poderia ser interessante. Ofereceu a composição a Jackson do Pandeiro, em segunda mão (depois de Odete): algo que permanecia realmente inovador pois propunha novidades que permeavam o nosso convívio, o grande tecido social, o gosto por novos ritmos e, assim, foi gravada com essa obtemperação entre diferentes estilos, acrescida com inesquecível interpretação e acompanhamento do ritmista.

Decorridos muitos anos, a música permanece atual até hoje, e por isso foi regravada por vários artistas da nova geração. Inspirou um espetáculo teatral de Augusto Boal (Chiclete com banana); com esse nome foi batizado uma banda baiana de muito sucesso, especializada em axé music, sendo também conhecidas, com essa expressão, as tiras de quadrinhos do cartunista Angeli. Jackson do Pandeiro passa a ser referência cultural em diferentes setores, ultrapassando sua música popular.

CULTURA INSUBMISSA

Em 1972, então esquecida, a composição Chiclete com banana foi gravada pelo baiano Gilberto Gil, incluída no álbum que marcou o seu retorno do exílio londrino (Expresso 222). Composta por Gordurinha, em algumas gravações consta nos créditos o nome de Jose Gomes (Jackson do Pandeiro) como parceiro e em outras com a coautoria de Almira Castilho, esposa de Jackson. As circunstâncias dessa autoria foram bem esclarecidas à época, o certo é que a composição volta a fazer sucesso, mas junto a um público mais seleto e exigente.

A gravação de 1958 caiu como uma luva ao ritmista, uma mistura dos fragmentos da vida cotidiana (samba), saudades dos sons das feiras, agora impregnada por novos modismos, restando uma maravilhosa fusão, mas, de forma bem humorada, tornava a rivalidade entre os puristas da nossa música com os estrangeiros objeto de pura gozação. Isso lhe garantiu, além de simpatia, os créditos de inventor do “samba rock”, porque a letra aduz claramente a essa manifestação hibrida.

É interessante observar que essas relações de disputas por contextos culturais da indústria fonográfica, a divisão entre polos nacional e estrangeiro (que a música tematiza, tanto no título, como no conteúdo da letra, também na melodia , especialmente no ponto alto do refrão) sugerem em primeira linha uma confusão perturbadora, mas, lá na frente, se amalgama numa verdadeira integração da letra com a música e contexto social, sem se deixar, em nenhum momento, cair na rendição, na subserviência cultural. Ao contrário, a proposta é que, democraticamente, o Tio Sam entre na batucada, porque senão não vai rolar o ritmo alienígena.

A propósito, naquela época, Gilberto Gil, ao cantar Chiclete com banana para os estudantes universitários da USP, comentou a questão mais importante do sentido da letra. Foi certeiro: “esse samba é engraçado, esse samba que cantei. Tem cheiro de colonialismo às avessas, né? É aquela coisa ressentida e nostálgica: ainda faço aquele desgraçado tocar tamborim”.

LEGADO

Nos anos 70, o cantor e compositor entra em decadência, no relativo esquecimento. Entretanto, depois da regravação de Chicletes com banana, Jackson foi convidado para defender Papagaio do Futuro no 7º Festival Internacional da Canção, realizado pela TV Globo, cantando ao lado da nova rapaziada de artistas nordestinos, como Alceu Valença, Geraldo Azevedo e o Conjunto Borborema (com Bezerra da Silva na zabumba). Estrelou ainda, junto com João do Vale e Carmem Costa, o show Chicletes com Banana, no Teatro Opinião. E não parou mais de ser convidado para outros projetos de apresentação musical.

O certo é que Jackson do Pandeiro parecia retornar à cena musical, não exatamente como ele esperava, semelhante em prestigio e apoio como protagonista das décadas anteriores. Assim, os novos artistas estavam diante de um músico veterano, um ritmista que deveria estar presente em várias paradas, emprestando a sua experiência de músico obtida nas orquestras em que trabalhou no começo de sua carreira, uma percussão que não poderia faltar em trabalhos de Clara Nunes, Raul Seixas, Hermeto Pascoal e Gilberto Gil, com quem se apresentou pela primeira vez, por sinal, em 1976, formando um duelo no teatro Gláucio Gil, com direito a cantar sua música Sebastiana, seguida de um solo de pandeiro que ele dedicou para Aquele abraço, grande hit do compositor baiano. 

Gal Costa grava Sebastiana em seu primeiro Lp e Jackson do Pandeiro agora está ao lado dos melhores e mais prestigiados compoositores da MPB. No início dos anos 1980 participa, ao lado de Alceu Valença, do Projeto Pixinguinha, percorrendo Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte e Brasília. Como instrumentista, gravou o primeiro disco de Elba Ramalho (Ave de Prata). Compôs Xodó no Forró, em homenagem a Dominguinhos. Dividiu os palcos com Fagner, Moraes Moreira, Zé Ramalho, Hermeto Pascoal, entre outros. 

Participou do disco em homenagem a João do Vale, com direção e produção de Chico Buarque, Fagner e Fernando Faro, gravando, em dueto com o autor homenageado, O Canto da Ema.

A importância de Jackson do Pandeiro é inestimável, a começar pela difusão e nacionalização da música nordestina, tanto em nível de Brasil, como em escala internacional. Definitivamente, ao lado de Luiz Gonzaga, foi um dos maiores responsáveis pela divulgação de canções nascidas entre o povo daqui, um artista inconfundível, popular, cujos créditos constam como um dos aperfeiçoadores do samba afro, como um dos inventores do samba rock, ao lado de artistas como Jorge Ben, Ed Lincon, Wilson Simonal e Erasmo Carlos, entre outros nomes do sambalanço.

Além dessa criação bem articulada, como contributo, muitos pesquisadores afirmam que o rei do ritmo acelerou o frevo pernambucano. Noutras palavras: o frevo como era conhecido em Pernambuco, mas tocado por Jackson do Pandeiro nunca mais seria o mesmo!

RETORNO À ROÇA

Talvez uma das maiores composições de Jackson do Pandeiro, gravada nos anos 70, segundo minha preferência, seja Morena bela, uma música suave, comovente pela simplicidade de seus versos, nostálgica, mesmo como variante do alegre forró, algo conhecido como “caminho da roça”, ou “os arrastados”, “os rojões” nas danças em festas juninas, impregnadas de lembranças de modinhas portuguesas, porém, bem adaptadas, do tipo: “no jardim da minha casa/ eu vou guardar uma rosa/ parecida com você/ só pra matar a saudade/ no dia em que não lhe ver, tá?”.

Apenas para destaque, ano antes, Luiz Gonzaga gravava uma belíssima música de outro genial compositor: Luiz Bandeira, que constitui a mesmo gênero musical do caminha da roça. Trata-se de Romance matuto, que, da mesma forma, sinto marcada pela beleza e simplicidade de Morena bela: “morena você vai ouvir/palavras lindas de amor/que vêm do coração menino/ meigo, nordestino, deste cantador” .

Jackson do Pandeiro, nascido entre agosto, coaxo do sapo e agoura da ema, morreu aos 62 anos, em 10 de julho de 1982, na cidade de Brasília, em decorrência de complicações de embolia pulmonar e cerebral, motivadas pela diabete. Foi enterrado em 11 de julho de 1982 no Cemitério do Caju, na cidade do Rio de Janeiro, com a presença de músicos e compositores populares. Seus restos mortais se encontram hoje em memorial que o povo alagoa-grandense ofereceu em sua homenagem.

Durval Aires Filho

Durval Aires Filho é Desembargador do Tribunal de Justiça do Ceará, professor universitário e mestre em Políticas Públicas. É membro da Academia Cearense de Letras, tendo publicado os seguintes livros: “As 10 faces do mandado de segurança“ (Brasília Jurídica) e “Direito público em seis tempos. Autores relevantes e atuais” (Fundação Boitreaux). Antes da pandemia foi vencedor do Prêmio Nacional de Literatura para Magistrados, com a ficção “Naus Frágeis”.

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