JÁ VOTOU?! ENTÃO TCHAU, BABY! por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

O VOTO – esta entidade milenar, bíblica

(Quando Pilatos covardemente delegou a decisão de conceder liberdade a Jesus ou a Barrabás, já ali o povo ignaro e rude dava demonstração de ser capaz de fazer a pior das escolhas: votou em quem não devia… e paga por isso desde sempre.),

que não dá sinais de envelhecimento, nem de decrepitude ou senilidade, ao contrário, sempre ressurge com ares de rejuvenescimento, de jovialidade, a envolver-nos sedutora e cativantemente, a vender-nos uma outra esperança, a fazer-nos crer que, num átimo temporal em que constitucionalmente somos elevados à condição de governantes, é-nos dado o poder democrático – e que nesta hora não nos verguemos ao apelo circunstancial do “lavar as mãos” simplesmente; convindo lembrar que a expressão “mãos limpas” remete a outra coisa bem distinta – de escolher aqueles que, no curso de um quadriênio, vão impor-nos a condição de governados;

O VOTO – esta entidade secreta, inviolável

(Há quem advirta não aceitar qualquer resultado que não lhe seja favorável, pondo em dúvida o sistema eletrônico de coleta e apuração dos sufrágios; desconfiança que já se manifestava nos idos tempos do voto em papel e da árdua tarefa confiada aos escrutinadores de então.),

que, ante a grandeza de significado que em si mesma encerra, leva-nos a, zelosa e criticamente, dar-lhe o revestimento de que a nossa responsabilidade cidadã se mostra extremamente capaz, embora, de natureza tão fluida, tão líquida e, por que não dizer, tão escorregadia, escape-nos pelo dedo afora e, sem apegos nem constrangimentos, já bem distante vá, compondo o ativo intangível de quem se nos ofereceu como lídimo executor de nossos incorrigíveis sonhos ou legítimo representante de nossos tolos anseios, de nossas vãs esperanças;

O VOTO – esta entidade efêmera, transiente, fugidia, que, de quando em vez, sobrecarrega-nos de responsabilidade cidadã, exige-nos uma consciência social bem mais apurada e assentada que vibrante e estéril e impõe-nos o cometimento de um crucial ato de delegação de poder, de largo e extenso e profundo alcance, o qual reverbera a própria essência da velha e boa democracia, ora tão desgastada e enxovalhada, mas que se mantém resiliente e insubstituível;

já mereceu – o voto – as mais variadas qualificações, das quais destacamos estas: a) Voto válido: considerado como tal no cômputo, específico ou geral, dos sufrágios de um determinado escrutínio; b) Voto inválido: considerado apenas para fins estatísticos, de totalização dos votantes; atualmente não favorece quem quer que seja, incluindo legendas; aqui se enquadram os brancos e os nulos; c) Voto de cabresto: no tempo dos “coronéis”, denominava os votos de eleitores que agiam sob o jugo deles, ante o risco de duros e desmoralizantes castigos; d) Voto útil: recurso utilizado pelo eleitor que, sufragando o nome de um candidato, pretende contribuir para a não-eleição do outro; geralmente se verificava no segundo turno de pleitos majoritários; e) Voto útil precoce: procedimento que, consoante alguns cientistas políticos, vai se manifestar pela primeira vez nas atuais eleições para a Presidência da República, fruto de duas correntes que ora se polarizam: os antibolsonaristas e os antipetistas. (Vota-se num, não porque ele mereça, mas porque não se admite o outro). Outros mais há, como é o caso do “voto envergonhado”, identificador das intenções de eleitores que já definiram sua preferência, mas que optam por não revelar, talvez por receio, por temor ou por vergonha. [E é neste bloco que vou – nada mais que um movimento em direção ao centro, eis que não me convencem as postulações dos extremos, dos polos equidistantes, desagregadores.].

Com efeito, embora o atual processo eleitoral tenha trazido novidades – algumas boas, como a sensível redução da poluição sonora e audiovisual dos espaços públicos; outras ruins, como o absurdo atentado à vida de um candidato –, as projeções atuais tendem à negação de mudanças estruturais que sugerissem um “novo porvir”. Mesmo assim, os resultados terão de ser democraticamente aceitos por todos nós.

E, então, tudo retomará o curso normal, com os cidadãos comuns já não mais dispondo do voto, esta entidade fugaz que tanta excitação – e até furor – causa nas pessoas de boa índole.

Aos vencedores, os cofres públicos! [Já não tão fartos e prodigiosos, embora neles ainda se contenha algo que valha muito mais que as machadianas batatas.].

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Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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1 comentário

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    Francisco Luciano Gonçalves Moreira

    ERRATA:
    Onde se lê “como a sensível redução da poluição sonora e audiovisual dos espaços públicos”, leia-se “como a sensível redução da poluição sonora e visual dos espaços públicos”.

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