INSTINTO PRIMITIVO

Suspeita-se de que a felicidade é algo palpável. É um novo smartphone, férias em Paris… é um presente inesperado na vida de quem se acostuma. Sim, um presente. O indivíduo a rasgar o envelope, se lembra de que é mortal e vai acabar um dia. Melhor beber, comer e viajar, não é mesmo? Consciência coletiva.

 

Os budistas dizem que somos capazes de alcançar a felicidade. Porém, eles não definem esse “alcançar a felicidade” pela vida eterna – o não-morrer -, mas sim como um estado de entorpecimento e lucidez; como que uma anestesia do que é vão. Você, enfim, tomaria consciência de que é finito e incapaz de controlar o arredor; viveria, então, a sentir e a entender o que está sentindo. Experienciando cada momento como um momento. Nem o último e nem o único. Apenas um. E isso seria tudo.

 

Só que nós somos inseguros. Buscamos estar acima e sobre o máximo que pudermos. Não costumamos aceitar de cabeça baixa a alcunha de perdedores. Brigamos. Lutamos. Algumas vezes até somos verborrágicos. Sem perceber que, muitas vezes, não precisávamos daquilo. Não precisamos da maioria do que temos!? Mas temos. E isso diz muito sobre o que somos.

 

Em tempos pandêmicos, muito se fala sobre o depois. “Amanhã vai morrer mais gente!”, “Mais tarde teremos mais doentes!”, “O que será de nós, amanhã?”. É fisiológico. E o problema não é o que vem; é o que fazemos para e com isso. As reações são únicas e inequívocas, pertencentes a cada realidade. Julgar é egoísmo. Negar é uma parte. Aceitar é necessário. Conviver é uma dádiva. “São tuas pegadas o caminho e nada mais…”, ok?

 

Arrisco dizer que nossa felicidade é um condicionamento. Gostamos de ilusões; elas nos vestem bem e são belíssimas, à priori. O problema é o que vem depois. Mesmo assim, a felicidade me parece isso. Uma ilusão coletiva pautada em n ilusões individuais. Um estado de bem-estar mantido pelos que não pensam tanto. Porque pensar demais faz mal. Cria rugas, grisalhos e nos faz querer nos iludir menos… é um contraponto ao que aprendemos a ser. Ou não é isso que somos?

 

David Augusto

Me conheço David e me reconheço todo dia. Sou estudante universitário, me viro por opistótonos e sou leitor-todo-dia. Acredito na essência do que vem e, sobretudo, no que o tempo e eu somos capazes. Tenho na mente o sê todo em tudo e em cada e no coração um quê de eternidade. Escrevo porque é o porquê.