INGERÊNCIA ESTRANGEIRA, por Rui Martinho

A paz de Vestfália (1648) encerrou a Guerra dos Trinta Anos e possibilitou século e meio de paz à Europa, período em que as pequenas guerras não se generalizaram pelo continente. Outros fatores além do referido tratado preservaram a paz. Um deles foi o princípio da não ingerência nos assuntos internos dos estados soberanos, acostado aos acordos de Vestfália. O ciclo de guerras da Santa Aliança contra a França teve início com o abandono deste princípio, quando Áustria, Prússia e Rússia se imiscuiram nos assuntos internos da França.

A coerência política pode ser penosa. Ela afasta o oportunismo. A facilidade com que tradições políticas adotam práticas contraditórias sem nenhum rubor na face é amparada pela ética teleológica, que não é etica nenhuma, é oportunismo.

A intervenção nos assuntos internos de um Estado soberano foi acaloradamente defendida por muitos políticos brasileiros, quando a nossa embaixada em Hunduras foi transformada em gabinete político do ex-presidente daquele país, José Manuel Zelaya Rosales, em grosseira ingerência nos assuntos internos daquele país. A entrega de boxeadores cubanos ao governo castrista foi considerada legítima pelos mesmos que se colocaram contra a extradição do italiano Cesare Battisti.

Internacionalistas, sem a menor cerimônia, exploram o nacionalismo quando convém ao jogo de poder. O anticlericalismo “progressista” não hesita em se aliar aos teólogos secularizantes para explorar a fé dos que não sabem distinguir entre a tradição religiosa que professam e as doutrinas políticas.

A categoria classe social e econômica, usada como unidade fundamental de análise dos fenômenos históricos, pode ser trocada rapidamente por categórias como etnia, gênero ou grupos de comportamento. A tese segundo a qual a experiência humana é uma marcha triunfal (sem retrocesso) para o aperfeiçoamento do homem pelo aperfeiçoamento da sociedade, foi rapidamente modificada, admitindo retrocessos – ou até negada – mas sem que os seus seguidores deixam de se apresentar como arautos do “progresso”. Jacques Le Goff (1924 – 2014) é um dos que circunscrevem o progresso ao campo da ciência, da técnica e da organização social, sem admitir, todavia, o aperfeiçoamento do homem como parte desta marcha.
A ideia de que a organização das forças produtivas é a infraestrutura de todos os fenômenos sociais pode ser trocada rapidamente pelo domínio da cultura neste mesmo papel, como diria Antonio Gramsci (1891 – 1937), na obra “Os intelectuais e a organização da cultura”.
A identidade de uma tradição pode ser a proposta de estatização dos meios de produção, como no caso do socialismo. Subitamente, porém, pode admitir a aliança com o grande capital privado para usar a sua eficiência produtiva para se manter no poder ou conquistá-lo. A China é um caso exemplar da metamorfose de conveniência das ideologias. Cotradições não constrangem os intelectuais ungidos (Thomas Sowell, 1930 – vivo). A intelectualidade brasileira, em geral, era positivista até o intervalo entre as duas guerras mundiais. Subitamente converteu-se ao materialismo histórico. Inteligentes e criativos, têm sofismas para tudo “fundamentar”.

Discute-se a ingerência nos assuntos internos da Venezuela. Quem defendia a ingerência em Hunduras se opõe ao mesmo procedimento relativamente a Venezuela. Muitos não percebem a incoerência, seja por desatenção, ética teleológica ou imunização cognitiva dos prisioneiros dos paradigmas (Thomas Samuel Kuhn, 1922 – 1996).

Rui Martinho

Rui Martinho

Doutor em História, mestre em Sociologia, professor e advogado.

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