Hoʻoponopono – por JESSIKA THAÍS

Conversando com Heliana sobre o que falaríamos nesta semana, acertamos que o tema seria cultura/educação. Lembrei que fui ao Musée de L’homme em Paris e ela me contou que foi a uma exposição no Centro Cultural Dragão do Mar. Imediatamente lembrei da biblioteca ali do lado do Dragão, que hoje encontra-se fechada e em reforma (há anos). Lá era meu templo de concentração. Então pensei em como seria bom unir as histórias e ter as duas visões. Uma de perto e uma de lembrança e REdescoberta.

Estudar e cuidar dessa cabeça desgraçada pela vida tem sido minha prioridade nesse meu tempo na Bélgica. Vim a convite de uma amiga porque não estava bem e aproveitei o desemprego, o resto do dinheiro guardado e a vontade de viajar para me cuidar. Fiz o caminho contrário que os europeus faziam no século passado – eles iam para lugares quentes curar seu corpo e mente – eu vim para um lugar frio esfriar a cabeça (perdoem o trocadilho pobre, mas necessário). Nesse trabalho de autocuidado está o estudar e voltar e ter um bom ritmo de leitura.

Lembro que quando mais nova adorava ir à biblioteca pública Governador Menezes Pimentel para estudar, ler, aproveitar o fim de tarde e caminhar até à ponte metálica passando pelo Centro Dragão do Mar. Com o tempo a internet tinha tudo e eu não precisava mais das enciclopédias da biblioteca (sim, eu vivi isso!). Com a pesquisa e o conhecimento mais fácil, tudo ficou dentro de casa, o estudo, a dormida, a comida e a leitura, e também com a internet meu foco ficou prejudicado.

Tentei ainda ler em praças, visitar a biblioteca municipal Dolor Barreira, que não é tão boa quanto a estadual, e tudo mais, mas sentia falta daquele espaço da adolescência. Não só saudosismo, talvez me faltasse disciplina (sim, ainda falta) mas eu sentia falta da estrutura. Foi lá que aprendi a ter concentração e estar naquelas condições me ajudava muito. Como não era possível, fui fazendo o que dava.

Os anos se passaram e trabalhei em uma rádio. Lá atendia telefone, entrava no ar, mexia nas mesas de som, editava entrevista, escrevia matérias e fazia flashs nacionais e aos poucos aderi para mim mesma que o estresse, a tensão e a necessidade de fazer tudo na zuada (barulho, para quem não sabe) era normal. Necessário se eu quisesse ser bem-sucedida ou coisa assim.

Aceitando a normalidade da vida minha concentração e foco nunca mais foram os mesmos. Mas você pode estar se perguntando pra quê tanto arrudêio (voltas na conversa)? Pra dizer que reencontrei meu foco. Que ele estava ali sentado em uma biblioteca. Estudar na casa que moro é sim possível, mas nada como ir à um lugar aonde todos estão lendo, vendo vídeos com seus fones, estudando ou escrevendo.

Em um sábado desses decidi conhecer a Provincial Library Limburg. Como sou turista, imaginei que não poderia estar ali, mas fui. Cheguei 20 minutos antes de ela abrir e aos poucos muitas pessoas chegavam também. Havia uma fila, não organizada, pois não era necessário, mas as pessoas foram entrando, buscando os jornais do dia, devolvendo livros, sentando em mesas de estudos e eu fui muito bem atendida na recepção quando perguntei se sendo turista eu poderia estudar ali. Recebi um sorriso, as informações em um inglês muito bem explicado e fui para uma sala com mesas de estudo individuais. Liguei meu notebook, consegui acessar a internet, finalizei um texto e fui ver vídeo aulas, fazer anotações e no final de três horas ouvi o Leandro Karnal falar sobre ego.

Eu praticamente não lembrei das redes sociais ou quis fazer selfies e nem tirar fotos. Fiz um vídeo curto e pus no Instagram para registrar para mim no futuro. Sentia que ali é como um templo e que tenho grande respeito. Lugar onde se faz silêncio. Onde se tem muita história e estória. Onde pessoas se informam, saem mais sabidas e com mais dúvidas e voltam para sanar suas dúvidas ou até mesmo conseguir mais.

É bom perceber que algo positivo da minha juventude construiu um bom pilar em mim e se mantém como um bem querer. E para as queridas e queridos que chegaram até aqui gostaria de deixar uma sugestão – encontrem seus templos e que eles te tragam dúvidas, te façam questionar e um querer estar presente. Seja no museu, na biblioteca, na praia… mas algum lugar que te faça estar consigo e te faça querer ser melhor do que é hoje.

(*Hoʻoponopono (ho-o-pono-pono) é uma prática havaiana antiga, com vista à reconciliação e ao perdão. Práticas semelhantes de perdão eram feitas em diversas ilhas do Sul do Pacífico, incluindo Samoa, Taiti e Nova Zelândia. A prática do ho’oponopono não requer muitos ensinamentos, mas serve para purificar o próprio corpo e se livrar de memórias ou sentimentos ruins, que prendem a mente em uma sintonia negativa. Por trás de toda situação, todo acontecimento e todo encontro que ocorre na vida, uma memória é guardada. A finalidade do Ho’oponopono é liberar as memórias que possam impor obstáculos na vida da pessoa ou ser fonte de dor, pesar ou sofrimento. A prática moderna do ho’oponopono é composta por quatro frases principais:

Sinto muito;

Me perdoe;

Eu te amo;

Sou grato.)

Wikipedia

Jessika Sampaio

Jessika Sampaio

Feminista, jornalista, pós-graduanda em gestão ambiental, sonhadora, acredita em signos, no budismo e na apatia da natureza. Contraditória como todo bicho gente, curiosa e colunista do Segunda Opinião.

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