GREVE: CATEGORIA PROFISSIONAL X GOVERNOS

Há uma distinção básica que deve ser feita a respeito das greves, principalmente no serviço público. Seja o governo de orientação política de direita ou de esquerda, a deflagração de uma greve nunca é de enfrentamento ao governo, mas, originariamente, ocorre em defesa dos direitos da categoria profissional.

Os docentes e técnicos administrativos da Instituições Federais de Ensino Superior – IFES estão em greve com uma extensa pauta de reivindicações em favor do bem estar da categoria e os órgãos aos quais estão vinculados. Vai desde a reposição salarial até melhorias nas condições de trabalho e suplementação de verbas para estruturação dos setores mais fragilizados dessas instituições.

A desvirtuação do propósito que gerou a greve sempre parte do governo de plantão, como espécie de barreira para avanço das negociações ou como forma de minorar as conquistas pretendidas, sempre com o discurso de que faltam recursos para as solicitações.

Repito de forma veemente, para que fique bem claro, que independente do governo, o modo de operar é quase sempre esse. Desqualificar as lutas e negar o máximo para que o mínimo oferecido seja irrisório para ambos os lados. A diferença de postura residirá em governos de extrema-direita, com orientação nazifascista, como o último que tivemos. A forma estúpida e devastadora como foram tratados os serviços públicos, com clara intenção de privatização, afetaria a maioria da população que usa esses serviços de forma gratuita e democrática, apesar de haver necessidade constante de suplementação de recursos para os benefícios oferecidos pelo Estado aos cidadãos.

A greve que enfrentamos agora é para dar um pouco mais de dignidade aos professores e técnicos tão relegados a um plano de inferioridade em relação a setores sempre privilegiados como o judiciário e o legislativo.

Certa vez, numa greve durante o governo de FHC, um grupo de professores iria visitar senadores para pedir-lhes solidariedade na luta dos servidores federais, naquele momento. O ascensorista do Senado, olhando para nós, de paletós surrados e alguns emprestados, perguntou o que iríamos fazer lá. Implicitamente, estava a reprovação pelo que pareciam ser pobres esmolambados a pedir ajuda. E um nosso camarada perguntou àquele homem com um paletó bem cortado: quanto o senhor ganha e quanto tempo trabalha por dia? E, ele, sorrindo, respondeu: trabalho quatro horas por dia. Duas pela manhã e duas pela tarde. De manhã quase não tem ninguém. E ganho…
Na época, era simplesmente o dobro do que um professor universitário federal ganhava. Perguntei-lhe quando seria o próximo concurso para ascensorista do senado. Ele riu e disse: Chegamos.

Carlos Gildemar Pontes

CARLOS GILDEMAR PONTES - Fortaleza–CE. Escritor. Professor de Literatura da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. Doutor e Mestre em Letras UERN. Graduado em Letras UFC. Membro da Academia Cajazeirense de Artes e Letras – ACAL. Foi traduzido para o espanhol e publicado em Cuba nas Revistas Bohemia e Antenas. Tem 26 livros publicados, dentre os quais Metafísica das partes, 1991 – Poesia; O olhar de Narciso. (Prêmio Ceará de Literatura), 1995 – Poesia; O silêncio, 1996. (Infantil); A miragem do espelho, 1998. (Prêmio Novos Autores Paraibanos) – Conto; Super Dicionário de Cearensês, 2000; Os gestos do amor, 2004 – Poesia (Indicado para o Prêmio Portugal Telecom, 2005); Seres ordinários: o anão e outros pobres diabos na literatura, 2014; Poesia na bagagem, 2018; Crítica da razão mestiça, 2021, dentre outros. Editor da Revista de Estudos Decoloniais da UFCG/CNPQ. Vencedor de Prêmios Literários nacionais. Contato: [email protected]

1 comentário