Gato – Adorável insubmissão, por Heliana Querino

Eu não sei se o futuro presidente do Brasil tem animais domésticos. Ficaria surpresa se ele tivesse um gato em casa. O mesmo espanto eu teria se soubesse que Donald Trump ama os gatos. Por que?

A história mostra que os autoritários, as pessoas que gostam de mandar, normalmente não amam os gatos. Preferem os cães.

Adolf Hitler amava sua cadela “Blondi” (“a loura”). Onde quer que fosse, ia sempre com ela a seu lado, a todos os lugares, até o fim – pouco antes de cometer o suicídio, em 30 de abril de 1945, com a amante/esposa Eva Braun. Hitler ordenou que o médico Werner Hasse fizesse a cadela Blondi tomar cianureto, para testar se era verdadeiro. Segundo testemunhas, ele amava demais a pastora alemã, e muitas fotografias distribuídas ao público mostram Hitler com ela. No Wikipédia há páginas em 32 idiomas sobre a cadela Blondi!

Por que a amava tanto? Possivelmente porque os cães podem obedecer cegamente aos donos. Henry Picker, jurista que entre 1941 e 1942 tinha como tarefa acompanhar e historiar as conversas de Hitler, escreveu que Adolf não se relacionava com Blondi como um animal, mas como uma máquina. O adestramento da cadela serviu para aniquilar a vontade própria do animal. Hitler não suportava nenhuma autonomia nos outros seres vivos.

O fundador do fascismo na Itália, Benito Mussolini, também tinha preferência pelos cães. Existem inúmeras fotos dele com cães.

O cão é um animal maravilhoso, “o melhor amigo do homem”, como diz um provérbio. E, definitivamente, os cães não têm culpa do carinho que fascistas e nazistas têm por eles. Mas é verdade que o espirito social do cão, o espirito da matilha, a obediência ao “animal alfa”, o respeito à hierarquia, tudo isso faz com que os autoritários amem estar com eles: é fácil fazer um cão obedecer, e obter assim um sentido de poder, de força. Os cães – e principalmente os pastores alemães, mesma raça da cadela de Adolf Hitler – acompanham a polícia do mundo inteiro, vigiam os campos de prisioneiros, defendem a “propriedade privada”. As grandes qualidades de um cão, o animal doméstico mais antigo, infelizmente podem ser utilizadas para exercer a violência do homem sobre o homem, ou para satisfazer desejos individuais de controle total.

Nada disso é possível com os gatos. Eles fazem o que querem, não obedecem, não atacam outros seres vivos por ordem do homem, não se deixam adestrar. Só é possível amá-los, unicamente pelo que são. Não por acaso, foram escritores e artistas como Baudelaire e Colette que escreveram elogios aos gatos. Escritores como o romântico alemão E. T. A. Hoffman ou o japonês Sozeki, usando a figura do gato, fizeram descrições satíricas da sociedade – o gato não se identifica com os homens, mas os olha com ironia e distância. No ensaio “Introdução ao Narcisismo”, Freud disse que amamos os gatos por causa do narcisismo dos felinos, da inacessibilidade deles, como nas crianças.

Nem cães nem gatos amam os fascistas. Mas os fascistas, (in) felizmente, podem amar os cães.

 

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - canivete suíço, jornalista, pesquisadora, educomunicadora, coordenadora de Cultura e colunista no SegundaOpinião.jor

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