GALOS, TARDES E QUINTAIS…QUANDO HAVIA, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

“Apontei o estilingue. Disparei. A pedra fez a curva. E o impossível aconteceu: acertou. […] Eu estava só brincando de caçador.”

[Rubem Alves, em O VELHO QUE ACORDOU MENINO. São Paulo: Planeta, 2015. Matei uma rolinha, pág. 220].

1984. Férias do meio do ano. Finalzinho da tarde de uma proveitosa sexta-feira. O sol, preguiçosamente, ia se despedindo daquelas paragens. Clima ameno. O vento, vindo do mar, fazia balançar não apenas as palhas dos coqueiros, mas as folhas e galhos de mangueiras, cajueiros e goiabeiras.

Galos, galinhas, frangos, frangas e pintos. Pato, patas e patinhos. Capote e capotas, com seu canto inalterável e mentiroso: Tô fraco! Tô fraco! Todos já se aninhando em poleiros, em galhos de árvores, em ninhos construídos sob a proteção do telhado do velho galinheiro. Coelhos de vários tamanhos e cores correm, pulam, disputam espaços, cavam buracos, arrancam raízes e tubérculos do chão arenoso com que se alimentam. Carneiros, ovelhas e borregos ocupam uma grande área cercada com estacas de cimento e arame farpado. Na pocilga, num canto mais afastado, um porco de engorda, comprado ainda bacorinho e a ser abatido na próxima festa de aniversário.

Estamos no Cantinho Maluju, um modesto sítio de um pouco mais de meio hectare, incrustado no loteamento Chácaras do Icaraí, entre a sede do município de Caucaia e o mar, tendo o Camurupim de um lado e o Guajiru do outro, com acesso pela Estrada Velha do Icaraí.

Sentados na calçada de uma das laterais da casa, o meu sogro, eu, a minha eterna parceira e a minha sogra preenchíamos o tempo ora jogando conversa fora, ora elaborando pequenos planos para execução em futuro quase imediato, ora falando da vida alheia. A nossa filha mais velha, perto de completar seus oito aninhos, e três coleguinhas de escola iniciavam mais uma etapa diária de banhos de piscina, ali, bem à nossa vista. A mais nova, em rede de varandas armada no alpendre, dormia o sono do descanso de um dia bem movimentado, incluindo caminhadas e brincadeiras na areia da praia.

Um jovem de vinte e poucos anos, meu cunhado, aproximou-se de nós, indo sentar-se ao lado da mãe. Empunhava uma espingarda de pressão, portando, na mão esquerda, uma latinha contendo minúsculos projéteis de chumbo, com os quais ia munindo a arma na sua pouca produtiva – embora divertida, para ele – caçada aos pardais, cuja abundância nos causava alguns transtornos.

De repente, chama-nos a atenção uma incrível imagem em movimento que vai surgindo lentamente de trás de uma espaçosa palmeira cyca revoluta ou sagu, plantada nas proximidades de um dos cantos da quadrilátera área de entorno da piscina circular, de pouca profundidade, onde as meninas se divertiam. Entretém-nos, agora, o garboso desfile de uma dúzia de galos de briga, de raça indiana pura, enfileirados, um após outro, pescoços, peitos e coxas desnudos, pele enrugada da cor de vinho tinto contrastando com o negro e vermelho das penas que encobriam as outras partes do corpo, basicamente asas, dorso e sobrecoxas; longa, curva e vistosa cauda, de penas de tamanhos diversos e cores também, que quase tocavam o chão.

Os olhos do criador e treinador brilharam de contentamento. Seus pupilos agiam com a naturalidade de quem recebera o melhor dos treinamentos. Compunham um estoque de alto nível, capaz de satisfazer uma demanda sempre muito exigente, mas disposta a pagar um bom preço.

Abre parêntese.

Estimulado por um amigo, comerciante e dono de rinha de boa estrutura, ali nas proximidades de sua residência, no bairro Cigana, meu sogro apostou em investimento de baixos custo e risco, mas que exigia paciência e persistência. Passou a criar e formar galos de raça pura, que se destinariam exclusivamente às rinhas. Adquiridas as matrizes, todas com histórico adequado ao projeto, iniciou sua execução tendo como reprodutor um galo vencedor, que lhe pertencia desde os primeiros passos de brigador imbatível.

Com poucos meses de nascidos, os pintinhos passavam por processo seletivo, com os machos sendo trancados em gaiolas. Ao atingir o primeiro ano de vida, ingressavam na fase de treinamento, com uma única refeição diária, balanceada, e banhos a cada dois dias, com escova e sabão de coco, para dar maior resistência à pele. Privados de vida sexual, os agora frangos perdiam as penas do pescoço, das coxas e peito, e eram submetidos a exercícios específicos, repetidos à exaustão. Nos treinos entre eles, aplicavam-se-lhes, à base de esparadrapo, protetores de plástico no bico e espora, com que se evitavam acidentes. A partir dessa fase, mantinham-nos em “apartamentos” de baixa claridade, pouco espaço, ventilação natural. Raramente lhes permitiam momentos de liberdade.

Meu sogro sempre se mostrou muito dedicado e envolvido com o que fazia. E fazia sempre no extremo.

Fecha parêntese.

O jovem apontou a espingarda de pressão em direção ao inusitado desfile. Quando ainda ajustava a posição do corpo, procurando o melhor ângulo para um eventual tiro, ouviu a voz do pai que, certamente, não lhe creditava competência para acertar, com aquele arremedo de arma de caça, um alvo em movimento a cerca de trinta metros:

– Se matar, a gente come.

Um estampido seco, de som quase inaudível, os nossos ouvidos captaram. De imediato, o penúltimo dos garbosos galos esticou para cima o longo pescoço, abriu o bico como se lhe faltasse ar, girou o corpo sobre uma das pernas enquanto dobrava a outra em direção ao corpo e… e deitou-se no chão se debatendo.

– Rapaz, você matou meu galo! – A voz do pai agora soou carregada de perplexidade.

– Mas pai…

– Você não tem a mínima noção de quanto me custa um único exemplar dessas criaturas. Você não tem ideia do prejuízo…

Eu intervim:

– Enquanto vocês conversam, eu socorro a vítima.

Os outros galos se dispersaram, tão logo eu me aproximei daquele que ainda agonizava. Um filete de sangue escorria de um dos ouvidos da ave. Nada mais podia ser feito. Dei-lhe o tiro de misericórdia, ou seja, uma forte pancada na parte alta da cabeça. Ele já era.

Minha eterna parceira, juntamente com sua mãe, já tinha se encaminhado para a cozinha, onde cuidariam dos rituais que transformariam um extinto jovem galo de briga, de futuro promissor, em mais uma opção para o jantar em família: um saboroso guisado de frango.

A conversa entre pai e filho continuou até que a escuridão da noite baixou sobre todos nós, com a iluminação artificial reduzindo os seus efeitos.

Posta a mesa, os comensais se dispuseram a degustar, em silêncio, o tão inesperado prato. Lá pelas tantas, alguém se arriscou:

– Uma delícia!

E o velho criador não se conteve:

– Mas que jantarzinho caro!

E todos riram. Ele também.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

2 comentários

  1. JESSYCA DOROTEU

    Quase é possível sentir a brisa e o cheiro da grama, de tão fiel e delicada que é descrição. Seus textos, como sempre, são um deleite.

  2. Francisco Luciano Gonçalves Moreira

    A QUEM INTERESSAR POSSA

    1. Seu Antônio, meu sogro, abandonou completamente o projeto poucos meses depois, acometido de graves problemas de saúde, compondo um quadro clínico cuja evolução levou-o ao infarto e à UTI do Hospital Antônio Prudente, onde permaneceu por mais de 40 dias. Ao receber alta, reconheceu haver perdido boa parte da vitalidade que o mantivera sempre disposto no enfrentamento cotidiano das exigências e experiências da Vida.

    2. A partir do desastrado governo de Jânio Quadros, o da vassoura, no início da década de sessenta, a prática – atualmente conhecida como “galismo” – de promover brigas de galo e até mesmo de criar e formar galos de briga (hoje, denominados “galos combatentes”) tornou-se por demais polêmica. A vedação legal de difícil aplicação prática acabou gerando abusos de autoridade e atos de extrema violência. A presença de autoridades – magistrados até! – entre os admiradores das rinhas deu contornos ainda mais controversos à questão. Assisti, numa única vez, a evento organizado pelo amigo do meu sogro. Embora não tenha despertado em mim o mais mínimo dos interesses, nada ali me convenceu a considerar exageros, maus tratos, violência contra os animais. Talvez porque eu já houvera assistido a cenas bem mais chocantes: castração de bovinos (o boi seria um touro se não o houvessem castrado), suínos e caprinos destinados à engorda; amansamento de bois, cavalos e burros; domesticação de cães; caça às aves de arribação ou aos tatus ou pebas. Conheci em Baturité uma senhora que era exímia castradora de galos, cujo órgão reprodutor é interno. O homem e suas circunstâncias. O homem e suas incoerências.