Férias escolares

Temos pouco tempo. Os prazos mais longos são uma prova disso das mais eloquentes. Haveria uma eloquência no tempo? O tempo em si, a passagem cronológica e absurda de cada fragmento mencionável e a sua contagem, regressiva ou não, em si mesmo não quer dizer muita coisa, aliás, não quer dizer, não precisa dizer e não diz. É impossível que o próprio tempo envelheça. Pois sim. Estive na praia dois dias atrás, na companhia sagrada de amigos; bebi, cantei, dancei até. Não estava feliz, mas ri bastante; ainda não era aquele riso insano dos desesperados, apenas um alívio, não sei até que ponto cômico. Pois sim. A longa noite continuou num longo dia. Bebemos, fumamos, conversamos coisas muito inteligente de que mal me lembro. Já nem sei ao certo, aliás, quem esteve comigo. Amigos, sei, mas já não me recorda ao certo quais nem quantos. Quase do mesmo modo tenho esquecido o nome simples de coisas simples e não sei onde estão objetos que trago na mão ou nos bolsos. E as coisas mais dolorosas eu não esqueço nunca. Posso mesmo dizer isso? Não posso esquecer ao ponto de nem perceber que esqueci? Enfim. Os joelhos doem, inchados, as pernas doem e quase me desconhecem. Para onde ainda ir? Por quê? Levo a bolsa, levo comigo sempre a mesma mochila preta que a minha irmã diz que comprei por engano, porque o modelo é discretamente feminino. Ou foi minha mãe que isso me disse? Soubessem que minha intenção era comprar uma mochila cheia de cores e brilhos e imagens de bichos coloridos com gente colorida. Eu que sou tão cinza. Mesmo alcoolizado e dançando e cantando na praia. Mesmo sendo um leitor e carregando numa mochila discretamente feminina livros. Mesmo fazendo uma coleção de fotografias com as várias edições do livro de Joyce. O que não me torna um melhor leitor, apesar de estar na quarta leitura do volume inabarcável, mas sim bastante exibido. Deixa, vai. É um exibicionismo sincero. Não há nas fotografias com o livro nenhum grito secreto de socorro, apenas uma gratidão incontida e uma estranha inveja grata: quem me dera a força e o fôlego de escrever um livro como o livro de Joyce. Paciência. Por enquanto a minha questão são os meus fígados, o do corpo, o da alma, o da mente. O do corpo posso precisar que um médico me diga em que estado se encontra. Os dois outros, ainda que não tenha as palavras certas que falam sobre isso, eu imagino mais ou menos como estão. Quero imaginar que sei o que precisam todo dia filtrar. E insisto em doses repetidas das sempre mesmas coisas. Como nos últimos meses na releitura do mesmo livro. Imagino, porque às vezes preciso de uma visão material das coisas sem matéria para meio compreender, um coração sentimental em forma de glândula adiposa, de gordura mesmo, pesado, mole, disforme, lustroso, um pesadelo biológico e anatômico. E depois eu digo que não faço drama. Mas não, não se trata de um drama. Apenas de, mais uma vez, alívio cômico. Pois penso no órgão vendido na feira, sob moscas verdes, tateantes, por alguma razão entre peixes de escamas vermelhas. Prestes a ser embrulhado numa folha de um jornal se eu tiver sorte de ontem. Pensei. Duas noites atrás eu estava na praia. Sorri e ri, apesar de não estar propriamente feliz. Cantei e dancei, apesar das ausências e de uma certa solidão. Me exibi em fotografia com o livro que leio, o que me deu certa alegria e uma aparência de jocosidade. O que eu faria se pudesse tomar de volta esse tempo passado e outros, se pudesse desfazer determinadas coisas que me machucaram e machucaram também gente inocente, que apenas aguardava notícias? Não sei. Só tenho a certeza de sempre, de que preciso de férias para as férias. E de repente as costas começam a doer. E o mar me desperta saudades.

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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