Feliz Brasil, outra vez!

Ufa! Eis que terminou o que parecia sem fim. Que se vá (e nunca volte) o Bicho-Doido, o Sem-Fronteiras, o Arrenegado, o Belzebu, o Jurupari, o Príncipe das Trevas, o Tendeiro, o Maligno, o Lúcifer, o Satã, o Cão, o Desavergonhado, o Possuído, o Cramulhão, o Indivíduo, o Desalmado, o Perverso, o Galhardo, o Sujo, o Pé-de-Pato, o Homem, o Tisnado, o Chifrudo, o Coxo, o Temba, o Azarape, o Coisa-Ruim, o Mafarro, o Pé-Preto, o Canho, o Duba Dubá, o Rapaz, o Tristonho, o Não-sei-que-diga, O-que-nunca-se-ri, o Sem-Gracejos… Que se vá, e nunca mais volte, o Monstro.

Viramos a página. Fica para trás um rastro de destruição e miséria, mas o Brasil respira e sua recuperação há de acontecer antes do que se imagina. Foi assim, será sempre assim: depois das trevas, a claridade; depois da tempestade vem a bonança. A democracia venceu, e, daqui a poucas horas, o país estará de novo em boas mãos, mãos que já cuidaram dele com carinho e o farão de novo, tenho certeza disso.

2022 foi um ano impiedoso. Perdemos alguns de nossos valores mais admirados. Demos adeus a Elza Soares, Gal Costa e Erasmo Carlos. A literatura brasileira não conta mais com Nélida Piñon. Deixou-nos Isabel, nossa rainha do vôlei. A tevê e os palcos não terão mais Jô Soares. Morreu Edson Arantes do Nascimento, o Rei, o mais reverenciado brasileiro de todos os tempos, aqui e além.

Mas viramos a página, mesmo que ainda continue sem resposta a pergunta que não se pode calar: como fomos capazes de colocar no mais alto posto da política nacional um fascista indisfarçável? Pior que isso, como este país adoecido quase o reelege, em que pesem os mais de 200 mil mortos que poderiam estar vivos, aos quais negou a vacina salvadora, e dos quais ridicularizou a morte por falta de ar nos pulmões.

Ainda assim, viramos a página. Em que pesem os alucinados à frente dos quartéis, viramos a página e um novo tempo começará daqui a poucas horas. Em que pesem os Paulos Sérgios, os Augustos Helenos e outros generais, viramos a página. A democracia venceu. Os humilhados, os que passam fome, os ofendidos do Nordeste deram o bom recado, e viramos a página.

Perdemos a Copa, mas ganhamos de volta, desfraldada nos braços da multidão, a bandeira nacional — e a posse intransferível de nossos símbolos mais representativos. Nenhuma outra passagem de ano foi tão aguardada. Nós viramos a página, e a democracia venceu.

O ano termina com atos de vandalismo que julgávamos afastados do nosso horizonte político. Mas a democracia venceu. O plano criminoso de disseminar o medo e promover o caos a fim de desencadear o golpe, fracassou, e a voz altiva das instituições brasileiras se fez ouvir outra vez, para conter os inimigos da liberdade e o oportunismo dos endinheirados… A desfaçatez delirante. Viramos a página, e a democracia venceu.

Depois de anos de ameaças de golpe, da apologia aos tiranos e aos torturadores; da manipulação da fé; depois do vandalismo nas cidades e nas rodovias, do rugido encatarroado dos Helenos (é preciso repetir seu nome!) e outros apaniguados do mito, eis que viramos a página.

Daqui a poucas horas, o Brasil terá um novo presidente. Que Bozo e bolsominions paguem pelo que fizeram de ruim a este país; pelas mortes que causaram, pelo que destruíram na saúde, na educação, na cultura e no meio ambiente. Que os militares se recolham às casernas de onde nunca deveriam ter saído. Que volte de uma vez por todas a Paz e morra para sempre a intolerância. Que o sol, amanhã, brilhe intensamente, dissipando a escuridão — e que a sua luz traga o doce calor da Aurora. Viramos a página. A democracia venceu.

Feliz Brasil! Outra vez!

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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