Feijão, sim; fuzil, não

Chamei a atenção, na última vez em que escrevi neste espaço, sobre o espectro da desgraça política a rondar o mês de agosto no Brasil, mês historicamente marcado por suicídio e renúncia, morte e instabilidade. De tudo, resultando consequências danosas para a evolução da institucionalidade e rarefação do princípio-esperança de uma sociedade justa, desenvolvida e democrática.
A seu tempo, este mês de agosto foi marcado por dois episódios, com componente ao mesmo tempo tosco, patético e macabro: um foi o desfile de tanques fumarentos na Praça dos Três Poderes, no dia em que a Câmara dos Deputados votava a proposição do voto impresso, tão caro ao comandante supremo das Forças Armadas; o outro foi a reposição, por parte do presidente da República, do “trade off” produzir “armas” ou produzir “manteiga”, referido pelo economista Paul Samuelson, no comprar “fuzil” ou comprar “feijão”, considerando “idiota” o que, no seu cálculo individual, decide comprar feijão.

Nesse ínterim, os jornais lembraram que foi num 18 de agosto que, nos versos do brasileiro Vinicius de Moraes, “um grupo de soldados/[…] pela estrada marchava/Trazendo fuzis ao ombro/E impiedade na cara”, e, nos versos do espanhol Antonio Machado, “ele foi visto, caminhando entre fuzis,/por uma rua larga/sair ao campo frio,/ainda com estrelas da madrugada”. Ao fim e ao cabo, “mataram Federico/quando a luz assomava”, Federico García Lorca, o espanhol que, de 1918 (quando publicou Impressões e paisagens) até 1936 (quando publicou A casa de Bernarda Alba), encantou o mundo com a sua poesia e o seu teatro e o comoveu com a sua tragédia, aos 38 anos de idade. No dizer Yan Gibson, um dos seus biógrafos, “é difícil não encontrar em Lorca o símbolo máximo da tragédia da Guerra Civil e suas sequelas”, enfim, o que perdeu a Espanha e o mundo na esteira da sublevação criminosa de 1936.

Na verdade, Lorca foi a vítima dos fuzis que, com estilo, inaugurou a dialética da violência que ensanguentou a Espanha por três anos de guerra civil e, em seguida, continuou ensanguentando por meio de uma ditadura de cerca de quarenta anos. No contexto de uma dramática polarização política, em que se assentava uma extrema-direita – afinal vitoriosa – afeita ao culto e à prática da violência explícita e à pulsão e à concupiscência da morte (p. ex., dois hinos marciais do período eram hinos à morte, o da Falange Espanhola e o da Legião, este com o subtítulo “o namorado da morte”, e a proclamação “abaixo a inteligência, viva a morte” de um dos generais).

Perpetrado pela Falange Espanhola, a organização de extrema-direita e de inspiração fascista fundada por José Antonio Primo de Rivera, o assassinato cercou-se de mistério e polêmica. Aspectos da vida pessoal e política de Lorca, a sua homossexualidade e a sua simpatia pela Frente Popular, compõem o caldeirão de explicações e especulações, true news e fake news, verdades e dissimulações. Os restos mortais nunca foram encontrados, a ditadura de Francisco Franco guardou o assunto como um dos seus segredos mais invioláveis, a documentação oficial deixou de existir, a correspondência familiar e literária foi em boa parte destruída ou escondida, o silencio dos contemporâneos foi ensurdecedor… De todo modo, nas próprias palavras de Lorca, a inclinação “à compreensão simpática dos perseguidos”, a saber, do cigano e do negro, do judeu e do mourisco, além da afirmação da própria homoafetividade, talvez constitua o fator principal que ceifou a vida de um dos literatos mais importantes do século XX. Do que é capaz o fuzil! Do que é capaz a cultura da morte, da intolerância, da ojeriza à diferença! .

Mudam-se os tempos e os lugares, mudam-se as circunstâncias e as vontades. Com certeza, o Brasil dos anos 2020 não é a Espanha dos anos 1930. No entanto, as manifestações da vontade de constituição de uma república miliciana – a naturalizar a violência cotidiana das facções, das milicias, das forças da ordem desvirtuadas -, expressa recorrentemente no discurso do primeiro mandatário é preocupante, cumprindo que sejam tomados os cuidados devidos para inibir politicamente tal vontade e, em seu lugar, fazer florescer a vocação da democracia, da república e do Estado de Direito.
Talvez o Brasil de hoje possa ser definido pelos versos de um colega do poeta do andaluz rio “Guadalquivir das estrelas”. No caso, o violeiro Elomar, criador de odes e bodes às margens do baiano Rio Gavião: “[…] essa terra pecadora/’Marguiada’ em transgressão/[…] cheia de violência/De rapina, de mentira e de ladrão”. Por tudo, é sensato proclamar e tentar realizar a política do “feijão, sim; fuzil, não”.

Filomeno Moraes

Cientista Político. Doutor em Direito (USP). Livre-Docente em Ciência Política (UECE). Pós-Doutor pela Universidade de Valência (Espanha).

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