Velhos fascismos e novos perigos, por Heliana Querino

Muitos consideram Bolsonaro como um fascista. Muitos norte-americanos chamam Donald Trump de fascista. Na Europa, as políticas dos atuais governantes, por exemplo Itália ou Hungria, são frequentemente qualificadas como fascistas, assim como os partidos políticos Fronte Nacional, na França, ou a Alternativa para a Alemanha, na Alemanha. Quem não concorda com essas avaliações é frequentemente suspeito de subestimar o perigo ou de ter simpatias secretas por estas políticas.

Na verdade, o problema é que tais artifícios representam um tipo novo de política, e, por vezes, não é menos perigoso do que o fascismo, mas é diferente. Quem procura os paralelos com o fascismo clássico, principalmente dos anos 1920-1930, corre o risco de não compreender os rasgos caraterísticos da extrema-direita de hoje e de combater um fantasma.

Quando Hitler foi nomeado chanceler da Alemanha em 1933, passados alguns meses, todos os partidos políticos e sindicatos foram impedidos, proibidos, até o Parlamento deixou de existir, por meio de uma lei especial, todos os poderes foram transferidos ao governo. Todos os adversários políticos foram para a prisão, exilados ou até mortos. Não havia nenhuma liberdade de opinião, por menor que fosse, nem uma justiça independente. A exemplo de Hitler, Mussolini fez o mesmo, um pouco mais lentamente, nos anos 20.

Era o totalitarismo clássico: um Estado que controla cada aspeto da vida da sociedade e não tolera oposição, nem divergência.

Os fascistas de hoje não são “menos maldosos” quanto os fascistas do passado. Mas o capitalismo agora está em crise, e a possibilidade de o Estado controlar a toda a sociedade é quase nula. Estamos diante de um fascismo pós-moderno. Ele quer acima de tudo governar o caos, visto que não consegue mais criar uma sociedade estável. Quer combater a imigração e a criminalidade, quer restabelecer “valores morais”, dar aos cidadãos a ilusão de que podem resistir ao poder da globalização econômica e financeira. O desenho é de um tipo de fascismo onde se tenta criar bodes expiatórios. Pretende proteger o “cidadão comum, o homem simples, a população” contra o grande capital; quando na verdade, está completamente submetido ao mesmo.

Mas o fato destes populismos de extrema direita normalmente não organizarem um Estado Total, como fizeram Hitler, Mussolini ou Franco não significa a ausência de um mal. O perigo atual é que governam suscitando permanentemente ressentimento e incitam a população a descarregar as frustrações com violência contra as partes mais “fracas” da sociedade: negros, pobres, mulheres, LGBTs, imigrantes …

Talvez estes novos regimes políticos sejam amenizados pela mídia, os juízes, as relações internacionais, e até os mercados financeiros. Talvez a eleição deles não seja a última eleição antes de uma ditadura aberta. Mas podem contribuir com um estado de barbárie – criam a atrocidade, precisam do caótico para governar (assim, necessitam da criminalidade para dizer que pretendem combatê-la), governam com a barbárie.

Os programas destes movimentos e seus governos pós-fascistas variam bastante. Na política econômica, tanto têm elementos de ultraliberalismo, como também de assistencialismo. Mas, uma constante é o ódio às “diferenças”. Outra constante, menos notada, é a indiferença total com os problemas do meio ambiente e das mudanças climáticas. Tem pós-fascistas, como Bolsonaro, que são machistas e “anti-gay”, enquanto outros são mais pós-modernos: muitas mulheres nos movimentos de extrema direita, e até LGBTS. Uma das líderes da Alternativa para a Alemanha, partido anti-imigrantes, é uma lésbica declarada. Isso nos faz compreender quanto o fascismo de hoje pode ser diferente do fascismo do passado – porém, não é menos perigoso para as liberdades.

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - jornalista, pesquisadora, Pós- graduanda em Escrita Literária educomunicadora e colunista do Segunda Opinião.

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