Família, família, Por Emanuel Freitas

O exercício de pôr-se de frente à TV para acompanhar as plataformas dos postulantes à Assembleia Legislativa do Ceará, ou à Câmara Federal por nosso estado, conduz-nos à uma quase certeza: acabaram-se os problemas com infraestrutura nas cidades, problemas com os índices de educação básica, com a questão da seca, problemas em torno da segurança pública ou em torno de todas aquelas questões pelas quais, espera-se, um parlamentar eleito pelo povo cearense deve modular sua atuação. Não, nada disso existe mais. Ao menos, para alguns (muitos) postulantes.

Explico-me: é que a tal “defesa da família”, a oposição ao “feminismo”, o posicionar-se contra a “ideologia de gênero” e outras bandeiras semelhantes têm sido elencadas como razões mais do que suficientes para o voto em alguns (muitos) candidatos. Numa manipulação mesquinha de assuntos que (mesquinhamente) têm pautado parte da agenda política brasileira nos últimos anos, tais candidatos apostam suas fichas na desinformação da população acerca desses elementos e, a partir do pânico moral em torno deles, buscam legitimar-se como autênticos defensores da “família”. A “defesa da família”, assim, não passa mais pela defesa por programas habitacionais, saneamento básico, mais investimentos em saúde, em educação, melhoria na infraestrutura das cidades; nada disso. Dizer-se “contra o aborto” e “contra a ideologia de gênero” é o suficiente. Os problemas “da família”, assim, não são aqueles do mundo real (do mundo de “César”, como nos fala a narrativa do Evangelho), mas tão somente aqueles problemas que tais candidatos-parlamentares manipulam tão bem para saírem-se “vitoriosos” e sem os quais esvaziam-se seus mandatos ou suas promessas de campanha, o que mostra o quão “vazias” são. Na verdade, um casal de candidatos mostra, tão bem, de que “família” estão propondo a “defesa”, ao formarem uma “dobradinha” de candidaturas: a sua mesma!

Há até um candidato a deputado estadual que, inacreditavelmente, elenca entre as razões pelas quais diz-se digno do voto do eleitor cearense o fato de ter sido o responsável “pela vinda de várias atrações do mundo gospel” ao Ceará. Sua promessa de campanha? Fazer, no Ceará, “uma grande cruzada para Cristo”, “incendiando o Estado com Cristo”. A quem conhece a história ocidental, “cruzada” não sugere uma política das melhores. Também candidatos ao Senado tem insistido na oposição à “ideologia de gênero” e à descriminalização do aborto, o que nos mostra o quão operoso tornaram-se esses termos que, a não ser para quem os enuncia, nada dizem de efetivo (a não ser reproduzir a utilização grosseira e o debate evasivo que a utilização deles demonstrou/demostra).

Se, antes, víamos promessas evasivas de candidatos “por mais saúde, mais emprego, mais segurança mais educação” e “contra a corrupção”, agora o vazio aprofundou-se com o “contra o feminismo, o aborto e a ideologia de gênero”. Assim sendo, fica a pergunta: quem defende os interesses reais das famílias do Ceará? Quem prometerá dar a César o que é de César?

Dr. Emanuel Freitas

Prof. Teoria Política (UECE/FACEDI)

emanuel.freitas@uece.br

 

Emanuel Freitas

Emanuel Freitas

Professor Assistente de Teoria Política Coordenador do Curso de Ciências Sociais FACEDI/UECE Pesquisador do NERPO (Núcleo de Estudos em Religião e Política)-UFC e do LEPEM (Labortatório de Estudos de Processos Eleitorais e Mídia)

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1 comentário

  1. Katamara

    Um escrito cuja fundamentação está imersa na realidade, rompendo e alertando para o perigo dos falsos moralismos, “profundamente vazios” destes candidatos que proferem discursos hipócritas! Parabéns, Dr. Emanuel.

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