O Rio de Janeiro elegeu o Crivella. Contra ele uniram-se os partidos libertários, a Globo, os formadores de opinião, gato e cachorro. A falácia do povo como rebanho dócil, manipulado, ficou sem narrativa. Os candidatos a reis filósofos procuram outro motivo para desqualificar a vontade popular.
Marcelo Crivella não era o candidato da “burguesia”. Teve contra ele a Globo e os votos dos “bairros burgueses”. O outro Marcelo, o Freixo, se apresenta como popular, foi votado pela burguesia e apoiado pela “imprensa burguesa”. A “verdadeira consciência popular”, sem a Globo para culpar, precisa de outra desculpa. A Igreja Universal é a substituta da Globo e da “grande imprensa”? É tão influente?
A Igreja Católica também apoiou o Crivella. Lideranças populistas emergentes, como a família Bolsonaro, católica, o apoiou. Evangélicos e protestantes também o apoiaram? Nem todos. Estes rótulos designam uma vasta diversidade de tendências no plano teológico e na política.
Não houve uma clivagem confessional. Caso houvesse o sobrinho do Edir Macedo não teria sido eleito. Houve uma resposta ao desastre em que “esclarecidos” meteram o Brasil, o escárnio para com a probidade administrativa e a lei, o acirramento dos ressentimentos, agudizando conflitos para fins de exploração política. Foram desmascarados os santarrões “politicamente corretos”.
A crise moral e econômica ensejou a eleição de uma figura deplorável algo assemelhada ao caso Berlusconi. Parece ter sido a opção pelo mal menor. O mal maior é o fundamentalismo secular, dos que se acham em contato direto com a “verdadeira consciência popular” guindada a divindade. Fundamentalista é quem se acha em contato direto com a deidade. A religião secular, civil ou política, havida por Raymond Aron como ópio dos intelectuais, é fundamentalista. No embate entre os fundamentalismos a versão secular perdeu porque ficou sem narrativa diante dos fatos. O povo acordou.
A burguesia votou no fundamentalismo que milita contra ela. Acredita que a serpente está sem veneno. Preocupa-se mais com o hedonismo e a permissividade que outro farisaísmo condena.
Falta ao fundamentalismo secular a competência para fazer a crítica lúcida do capitalismo, que promove a riqueza, democratiza o desfrute de bens e serviços, torna a vida cômoda e dessacraliza o mundo e a vida, afastando o espírito de ascese, responsabilidade e esforço. A riqueza enfraquece o caráter, leva à anomia e à decadência. A prosperidade e o sucesso econômico ameaçam o capitalismo. Conversões em massa ao islã, na próspera Europa, ou Marcelo Crivella no Rio de Janeiro revelam que o povo simples está percebendo isso, ainda que inconscientemente. Quem é manipulado são os letrados, tontos que ficam pela leitura dos sofismas dos grandes pensadores.
O ópio dos intelectuais fez a crítica errada, desmentida pelos fatos: acusou o capitalismo de empobrecer. Queria explorar politicamente os pobres. Os fatos desmentiram tal crítica. Agora provocam conflitos entre fenótipos, gerações, gêneros e o que mais houver, explorando os ressentidos.
O povo disse não.