FABRICANTES DE MENTIRAS II

Na abertura do romance  ‘A insustentável leveza do ser’, de Milan Kundera,  há uma escolha filosófica: o peso ou a leveza? Nessa seleção, o leve seria positivo e o pesado negativo. Mas a contradição pesado-leve é a mais misteriosa e ambígua das contradições, diz o romancista. Será mesmo? Indago. E o que dizer sobre a verdade e a mentira? Estariam no mesmo patamar?

Logo de saída, a verdade é alicerce, prima facie é construção, ninguém vive sem a realidade por uma razão simples e fundante: não existe a possibilidade de experimentarmos a ilusão. Parece ser uma das características mais presentes do ser humano desde o seu nascimento a busca permanentemente da verdade. O desejo de comprovar os fatos e o distinguir o que realmente importa. Aliás, as pessoas moralmente responsáveis podem não chegar a ela, mas a buscam, e daí essa responsabilidade busca também a razão, coerência e a integração.

Não é uma obsessão humana essa busca em saber o que é verdadeiro ou falso, mas é um traço de nosso perfil para continuarmos vivendo o real e não o ilusório. Essa procura, vale mencionar, surge logo na infância, e ao longo da vida estamos sempre questionando, procurando a verdade como porto seguro para as nossas inquietações, nossos especulações em diversos planos da vida.

Nessa trajetória vital, a verdade deve ser nosso guia constante e fonte de inspiração em todos os setores, seja no âmbito profissional, seja no cotidiano. Não se trata de roupa de gala, reservada apenas para ocasiões especiais, mas da roupa que vestimos no dia-a-dia, feita de tecido caseiro, resistente e durável, porque a verdade é a linha reta dos princípios morais, a distancia mais curta entre um fato e a sua manifestação ( William George Jordan, O poder da verdade, principis, 2021, p.15).

Os teóricos da comunicação, no entanto, têm observado que a verdade tem passado por um redimensionamento em sua intensidade. Em qualquer nível de impacto, a verdade, antes de não ser uma boa camarada, não tem um bom visual. O fato é que a palavra real nunca é suave porque não há, e nem pode haver, piedade em seu conteúdo. Ela existe, ou não. Também não é patrimônio de ninguém, embora tenha um tempo próprio, um lugar e um depositário.

Este trabalho pretende inicialmente abordar as linhas de atuação midiática antes do fenômeno das redes sociais. Ou seja: pretende demarcar as décadas que se iniciam com as novas mídias, consagradas com o advento da televisão, construtora de uma “civilização da imagem” que derroga nas primeiras décadas de sua implantação a popularidade do rádio e dos jornais impressos.

Parece importante destacar que em uma sociedade pluralista, assimétrica e desigual, na qual a competição pelo mercado se instalou desde sempre em todos os tipos de organização, a estratégia do
marketing e de uma boa comunicação são essenciais. E, nesse jogo de vale-tudo, deixar de ser visto nesse meio concorrencial é ser condenado ao desaparecimento.

1.ÉPOCA VERDADEIRA

A adoção da verdade é muito antiga e imemorial, mas foi  no Iluminismo
que ela foi mais evidente, como chave para decifrar todos os problemas
da humanidade, utilizando o racionalismo, dispensando a tradição e o pensamento religioso. Nesse patamar, a razão iluminista era o caminho para as pessoas vencerem suas ignorâncias e medos e construírem um mundo baseado na verdade, no progresso e na ação liberatória. Só assim a razão permitiria alcançar a universalidade, a individualidade e a
autonomia dos homens dentro do processo civilizatório.

Nos anos 60, começaram uma virada nessa compreensão em torno da
relativização da verdade. Como ela não é autoexplicativa passou a entender que seria possível a sua construção, ainda que não fosse admissível sob o ponto de vista ético, pelo menos naquela época, se
conceberem “rituais de produção da verdade”, noutras palavras: a
possibilidade de um processo construído, uma seleção que vai colocar a verdade como algo relativo, parcial, capaz de ser contido. Muitas décadas atrás, o jornalista Gustav Janouch perguntou certa vez a Franz Kafka se a imprensa não estava a serviço da verdade. Cético em matérias de jornais, e para quem a expressão “estar enterrado em um jornal” correspondia à realidade, respondeu o autor de O processo: “ a verdade faz parte de algumas coisas verdadeiramente grandes e raras desta vida que não se pode comprar. É doada ao homem, assim como o amor e a beleza. Mas um jornal é uma mercadoria com que se faz comércio”

Joseph Pulitzer, criador da primeira escola de jornalismo nos Estados
Unidos (Universidade de Columbia) achava que o jornal deve ser uma
instituição que lute sempre pelo progresso e pela reforma; que nunca
tolere a injustiça e a corrupção; que combata sempre os demagogos
(mentirosos); que não pertença a ninguém; que seja oposto às classes
privilegiadas e a todos os exploradores públicos, com simpatias aos
menos favorecidos, o que resultou em comentários polêmicos.

Segundo informa Luiz Amaral, esta profissão de fé não livrou Pulitzer
do comentário cruel de William Randolph Hearst, seu grande concorrente nova-iorquino, que o causou de ser “um jornalista que estimula os gostos mais vis do publico, que se enriquece fabricando noticias, que seduz os maodores de sangue e de estupro, que finge se interessar pelo
povo e socorrê-lo a fim de cuidar de sua própria publicidade” (Jornalismo, matéria de primeira página, tempo brasileiro, 1978, p. 25).

É visível que o nível do debate não tinha nada de nobre e Joseph voltou ao mesmo tom, conforme ainda Luiz Amaral, afirmando que “nunca
uma imprensa chegou ao calcanhar da de Hearst no absurdo, no ignóbil,
na incitação da histeria coletiva”. Aliás, seu raciocínio era de que “o público prefere ser divertido a ser informado”. Esse já era o padrão midiático dos anos 60, acrescento.

Ou seja, a sociedade já era
a marca do espetáculo.

Hearst costumava dizer a seus colaboradores: “Suspenda a respiração do leitor. Que ele tenha pelo menos um motivo diário para gritar: “Ah…
então! Do contrário, que leia o catálogo telefônico”. A propósito, este leitor, do começo do século XX, é a massa que o jornal queria atingir comercialmente, como de fato alcançou em larga escala, na concepção da época, o  “homem inferior”, o “cidadão normal”, o eleitor
“típico de uma sociedade democrática”.

Acrescenta H.L Mencken que este homem, “apesar de ter uma aparência
superficial de inteligência, é, na realidade, incapaz de qualquer
coisa que possa ser descrita
com raciocínio”, de tal modo que, como os mamíferos superiores, “as ideias que lhe entopem a cabeça são
formuladas por um processo de mera emoção”, agradando-lhe, no nível
das ideias (o que tende a aceitar como verdade), “é apenas o que
satisfaz os seus anseios”, isto é, “anseios por segurança física”,
finalmente, “que o deixem livre da dúvida e do perigo e daquilo que
Nietzsche chamou de os acasos do labirinto” ( O livro dos insultos, de Mencken, tradução de Ruy Castro, Companhia das Letras, 1988,  p. 117).

Evidente que se tentou superar essa definição do homem de massa, com
os avanços educacionais e estímulos da cultura. No entanto, a grande
discussão dos anos 80 e 90 é o fato de que parece haver mais liberdade
de empresa do que liberdade de imprensa. Os donos dos meios de
comunicação são livres para veicular, “mas os jornalistas que trabalham
nesses veículos têm uma liberdade incomparavelmente menor” (Clóvis
Rossi, O que é Jornalismo, editora brasiliense, 2007, p 60).

Apenas confirmaram boa parte do pensamento da Escola de Frankfurt,
no momento em que grandes filósofos de viés marxistas já haviam debatido
esse tema capitalista do controle da comunicação, considerando que os países desenvolvidos controlam praticamente todo circuito mundial de
noticias, distribuído entre apenas sete agencias (UPI – United
Press International; AFP – Agence France Presse; Reuters; AP –
Associated Press; a italiana ANSA e alemã DPA).

Essas discussões foram travadas entre o público e o privado (Corrida,
p. 60) com abandono de matrizes analógicas e face a face, que quedaram-se prejudicadas e tiveram que se adaptar aos novos tempo de
comunicação visual. No mundo politico, os partidos, enquanto birôs ou
instituições de índole notarial, perderam sua razão de ser, do mesmo
jeito que os políticos tiveram que mudar sua forma de publicidade na
era da comunicação.

Depois vieram as novidades tecnológicas, que deram um salto rumo a uma outra dimensão nos conceitos básicos do tempo e espaço. E o mundo
mudou de padrão. Simplificadamente, podemos dizer que ele ficou maior,
mais rapidamente conectado, de sorte que as fronteiras das
organizações se expandiram e a sua interação com o mercado e sociedade
ocorreu de forma vertiginosa. Num certo sentido, pode ser mais fácil
se comunicar com pessoas que estão a milhares de quilômetros de
distancia do que bater um papo com o vizinho que mora ao lado (Wilson
da Costa Bueno, Comunicação e gestão empresarial: cenários
contemporâneos, in Communicare, vol. II, n° 01, Paulus, 2002,   p.86).

As redes sociais se tornaram realidade e deram mais velocidade
comunicacional com novas plataformas… e, juntamente com os novos mercados, se instala uma sociedade “informacionalmente” igualitária no sentido de quem poderia pagar por ela e que transformaria a vida das pessoas como dependentes dessas tecnologias….

Só que há um avanço impressionante, ao mesmo tempo em que inauguramos
um retorno a uma etapa que havíamos superado, quando os novos
teóricos da comunicação pleiteiam uma superação da idade mídia e o
retorno ao iluminismo, a volta a idade da razão, que, no atual
estágio, parece imprescindível.

2.O TRIQUETE DO FUNCIONAMENTO MIDIÁTICO

A partir dos anos 60 se instaura em todo mundo a chamada “sociedade da
comunicação”. Os jornais e as emissoras de rádio passam a dividir
espaço com a televisão. Inserida no contexto da massificação e do
consumo, a mídia – compreendida aqui como um conjunto de meios para a
mediação da noticia ou de um informe – passa a ser revelada como
importante setor para a “fabricação do processo decisivo”.

A sociedade da imagem marca o fim das lutas de classe, o declínio das
grandes ideologias, em que, dentre outras perdas, está o poder de
radicalidade, a pouca ofensividade de setores populares, o
rebaixamento dos partidos políticos, já no final daqueles anos, com
funções meramente formais e burocráticas, registrando-se o fim das
utopias, das grandes narrativas, a morte dos heróis, o que
representou, como ainda frutifica, imobilidade, fragmentação,
“desidentidade” e “descidadanização” das massas.

Na altura daqueles anos, os cientistas sociais começaram a sentir
mutações significativas no mundo social e político, decorrente do
ingresso desses novos meios, que também passaram a gerar profundas
mudanças ao fazer circular imagens, admitidas como efeito da
“radicalização da modernidade”, de tal modo as mercadorias
acrescentaram novas extensões no sentido de que tudo passou a ser
reproduzível pela imagem.

O fato é que essa radicalização da modernidade nada mais é senão a
lógica cultural do capitalismo avançado, implicando não somente
descontinuidades, rupturas, mudanças de estilos, e novas formas de
percepção, mas promovendo uma fusão entre mercadorias. Assim,
mercadorias objetos passam ao mesmo tempo a ser mercadorias culturais,
algo além do mero desejo, pois antes de  desejarmos algum desses
produtos, precisamos ser também novos, atuais, pós-modernos, em
confronto com o tradicional.

O mundo que se tornou uma aldeia global constituiu verdadeiro laboratório
de mudança na politica. Vejam o que está acontecendo com as
agremiações partidárias. Tomemos como exemplo o slogan da disputa
eleitoral alemã no final dos anos 80, lançada pelo SPD (Partido Social
Democrata): “reconciliar ao invés de dividir”. Assim lançada a
propaganda, apenas por dois modos, um desempregado poderia dar seu
voto: reconciliar com o empregador ou reconciliar com a sua situação
de desempregado. O problema é quando existem coligações, tipo:
sindicalistas ser alinhados aos conservadores, ou seja a possibilidade
dos partidos de trabalhadores apoiarem partidos do patronato (nossa
Corrida Eleitoral, limites atuais da propaganda,
Contemporanea/Premius, 2004, p.44).

A morte das grandes narrativas significa
essencialmente o advento da
“civilização da imagem” representada pela televisão, classificada como
um “meio frio”, porque oferecia ao receptor (telespectador) imagens
prontas, sem possibilitar qualquer tipo de interferência pessoal. Pelo
menos foi assim nas primeiras décadas de sua instalação: uma
passividade, responsável pelo abandono do “discurso falado em publico”
e o aparecimento da ditadura da imagem. Aliás, críticos mais severos
aludem à desvalorização, humilhação e ódio a palavra (Jacques Ellul
apud   Leonildo Silveira Campos, Teatro, templo e mercado,
Unesp/Vozes, 1997,  p. 280).

Não existe aqui saudosismo com relação à cultura da escrita, mas foi
preciso aceitar a hegemonia da televisão, como meio de comunicação de massa. Ainda que exista esse esvaziamento do discurso falado e a
vitória da civilização da imagem não é possível ignorar as consequências dessa realidade. Ellul dimensionou o conflito que esperou uma reconciliação proposta no “reencontro do ícone” e na
retomada do movimento dialético entre a verdade e a falsidade”. Mas é
fato: a televisão trouxe profundas modificações para a convivência das
pessoas.

Daniel Bougnoux falava no peso das palavras, o choque das fotos e
imagens da cultura de massa, que, segundo avisava, chocavam,
encantavam e enganavam, mas careciam de maturidade. Havia cortes,
manipulação, edição, ao concluir que “a transmissão ao vivo nos trata
como se fossemos crianças” (Introdução a ciência da informação e
comunicação, Vozes, 1994, p.164).

O funcionamento da mídia passa por uma comunicação desideológica pelo consenso, cumplicidade da rede de recepção e verdade relativa,
com evidente dano à esfera pública

2. 1. COMUNICAÇÃO DESIDEOLÓGICA

Segundo os especialistas, a primeira e a mais distante forma de
circulação de mensagens se deveu às garrafas contendo escritas,
lançadas ao mar contra o horizonte. Desconfia-se que o homem que
inventou a roda, pensando em comunicação física, imaginou rodar o
mundo. A globalização do passado era o expansionismo dos mercados
comerciais. O colonialismo apenas principiava loteando as águas
marítimas. Depois veio a imprensa e fez os homens acumularem e
registarem suas aventuras além da existência. Com ela, as marcas da
oralidade sofrem o grande impacto com a perenização da palavra
escrita. Houve um repúdio com o advento da imprensa de Gutemberg. Mais tarde, a oralidade volta com a difusão do som.

Com chegada da televisão, o rádio, os jornais impressos pareciam tender a desaparecer. Muito estudiosos  decretam o fim
dessas mídias de uma forma muito precipitada. Os rádios não
desapareceram, nem as televisões e jornais, mas se adaptaram aos novos
tempos que se seguiram na tecnologia eletrônica.

O certo é que a imagem invadiu todos os espaços inimagináveis e o
mundo transforma-se, segundo MacLuhan, numa “aldeia global”, período em que houve importantes evoluções nos meios de comunicação –
principalmente com as transmissões via satélite e a popularização dos
aparelhos de TV – e essa nova tecnologia permitiu cenas de
americanos mortos no Vietnã, afetando a opinião pública sobre o
conflito. Também permitiu que pessoas no mundo todo assistissem à
chegada do homem na lua. Daí o filósofo canadense teorizou que o tempo
e o espaço estavam sendo relativizados, uma vez que seria cada vez
mais possível estar em contato com pessoas a milhares de quilômetros
de distância, em poucos segundos.

Esta primeira série de imagens mostra que a comunicação passa a ser
antes de tudo consensual, no sentido de que todos estão de acordo com
ela  e, mais ainda, não devem ocorrer ruídos. Firma-se como a última e
a melhor ideologia com rosto humano: a ideologia sem adversários, uma
apropriada ideologia que preconiza o fim das ideologias, uma ideia de
fim que tem um substituto nas representações coletivas, a partir do
slogan “aldeia global”, isto é, a “civilização da imagem” que
acompanhará cada apocalipse mundial, cada mundovisão, cada crise,
cada guerra, cada desastre ecológico.

2.1.1.Busca pelo Consenso

A questão consensual é típica da civilização da imagem. A máxima em
que todos devem estar de acordo só será possível com a intervenção
dos apelos publicitários. Portanto, a propaganda é decisiva para
resolver esse problema que busca unanimidade, necessária porque se o produto, sejam mercadorias ou postulações, produz ruído, não logra êxito.

A fabricação do processo decisivo, e/ou a busca pelo consenso, só são
possíveis através de instituições que, nas sociedades complexas, são
capazes de  gerenciar linhagens ideológicas, ao publicizarem noticias
com uma aparência universalmente coletiva. Embora seja polêmica, acaba
sendo um instrumento de manipulação e de intervenção da vida social,
mesclando, ao mesmo tempo, público e privado, direitos do cidadão e
direitos do jornal, concebidos, assim,  como aparelhos privados de
hegemonia, enquanto formadores de opinião, em alto padrão
profissional, sem incorrer em automatismo ou posições reducionistas

Se há um consenso sobre determinado paciente terminal (nos países que
adotam a eutanásia) sobre sua morte, depois de um processo em que se
ouviu toda cúpula média, tudo não passa de um método que é também uma
forma de se chegar a uma verdade.

Na sociedade do consumo, é curioso observar que não há mais
antagonismos, pelo menos aparentes, e, bem assim, poucas variáveis. Ou
se ganham espaços, encurtando distâncias, ou reforçam-se imagens (e
aqui tudo se faz no sentido de evitar ruídos e desconfigurações).

Nessa falta de confronto direto é que, provavelmente, se instaura um
modelo de “ideologia retroalimentativa”, a partir dela mesmo, por
conseguinte, soterrando a própria questão binária.

2. 2. CUMPLICIDADE DA REDE DE RECEPÇÃO

A mensagem circula um tanto maleável quando transforma o destinatário
em co-partícipe do empreendimento comunicacional, forma uma espécie de
cumplice, contextualizado como um sujeito que tem um papel ativo na
construção do sentido ou na decifração do conteúdo enviado, porque sem
essa cumplicidade não há uma mediação eficiente que garanta aceitação.

O rádio, por exemplo, sempre foi direcionado a selecionar o ouvinte
carente, especialmente o homem urbano, tendo  o condão de acionar a
sua imaginação e gerar em seu cérebro, da forma como deseja, suas
próprias imagens mentais, seus formatos imaginados. E mais: nesse
processo o destinatário se torna um cumplice a medida que preenche,
com suas fantasias e desejos, os claros discursos e da linguagem
falada (CAMPOS, Leonildo Silveira, ob cit p.79).

Esse imaginário, apenas para reforçar desejos e fantasia,  é o
pensamento que exclui o real, seja no amor, no sonho, na poesia, ou,
ainda, na mera sugestão que parece menos hipnótica, mas muito
compartilhada. É aquilo que permite escapar da realidade e que,
fundamentalmente, nos concede prazer.  Noutras palavras: para além do
prazer do objeto e conteúdo, essa posição imaginária, agrada pelas
suas formas; e essas formas seria a perda das relações normais com o
real, a escapadela para fora do espaço e do tempo.

A mensagem precisa de cumplicidade e sedução, pois nenhum ato
comunicacional poderá ter êxito sem o envolvimento do destinatário
(receptor). Este envolvimento depende de vários fatores. Começamos com
a motivação do destinatário. E essa motivação pode ser despertada de
várias maneiras: corresponder mensagem às suas expectativas; ir ao
encontro dos valores, propósitos e aspirações.  Sendo certo que quando
a motivação para a comunicação não existe ou é de fraca intensidade, o
destinatário pode não se envolver decisivamente no ato comunicativo.
E, aí, por essa falta, a comunicação pode frustrar-se, sem cumprir
seus objetivos.

Nessa linha, verifica-se que o enunciado com maior chance de ser
recebido sem reservas é aquele que, ao buscar a cumplicidade,
massageia o ego dos destinatários. Todos candidatos precisam, por
exemplo, apresentar discursos otimistas, sob pena de ver seus sonhos
naufragarem. “De fato, o candidato mais pessimista desperta menos
esperança no eleitor”, diz Victor Paolozzi, baseado em Seligman. “Se o
eleitor quiser um presidente que vá fazer todos acreditarem que pode
solucionar os problemas do país, ele vai escolher o mais otimista”
(Murro na cara, Objetiva, 1996, p. 53)

2. 3.VERDADE RELATIVA

Para que uma mensagem possa circular com sucesso é necessário que, havendo
houver um traço negativo, que se redimensione a intensidade do
verdadeiro. Em qualquer nível de impacto, a verdade, antes de mais
nada, não tem um bom visual. A palavra real nunca é suave porque não
há, e nem pode haver, piedade em seu conteúdo.

Embora esse relativismo se oponha diretamente ao absolutismo verdade,
a maior motivação relativista geralmente vem de sua vontade em se opor
à verdade singular. Por quê? Porque o singularismo sobre a verdade
parece, conforme o relativismo, implicar em intolerância. Então, em
primeira linha, se devemos ser tolerantes, isso significa dizer que a
verdade não é única (MACHADO, Alexandre, Problemas filosóficos,
acessível em http://problemasfilosoficos.blogspot.com/2017/04/a-verdade-e-relativa.html,
consulta de 29/04/2023).

E, acrescento, mais: para diversos problemas não existe apenas uma
verdade, mas, como solução, respostas adequadas, enquanto pode ser
construída através de teorias comunicacionais e pelo próprio consenso que muitas vezes até se contrapõem a tudo que é sólido e verdadeiro.

A construção da verdade por uma racionalidade comunicativa, segundo
Jürgen Habermas, hauridas por comunicação de argumentos, “manifesta-se num contexto descentrado de condições que impregnam e formam estruturas, transcendentalmente, possibilitadoras; porém, ela própria não pode ser vista como uma capacidade subjetiva, capaz de dizer aos atores o que devem fazer”(Direito e democracia entre facticidade e
validade, Tempo Brasileiro, 2003, p. 20).

Por sua vez, podemos dizer que consenso é método e não verdade: um
hospital europeu pode determinar a eutanásia de um paciente terminal
apresentado o problema perante uma junta médica. Apresenta a realidade
dos fatos. Doença irreversível. Gastos médicos. Leito que poderia
servir a outro paciente. Só que os médico dessa junta, apensar de
adotar a solução final, têm outra verdade no juramento de salvar vidas
e exercer o resgate delas.

Por mais verdadeira que seja a reprodução de um fato, nenhuma opinião sobre ele deveria ser defendida com fervor. Ninguém precisa dizer que
dois mais dois são quatro e não vinte e dois. O fervor apenas se faz
necessário quando se trata de sustentar uma opinião que é duvidosa ou
pouco demonstrável. Devem, no entanto, ser afastadas. Pelo mesmo
motivo, a promessa deve ser também evitada. Ambos, fervor e promessa,
não camaradas da verdade porque podem ser facilmente desmascaradas.

Em termos políticos, a verdade não passa de uma evidencia, mas é vista
frequentemente como um insulto. Observem que o instinto natural do
homem, de fato, nunca se dirige para o que é seguro e verdadeiro.
Sempre sobra uma margem de dúvida. Devido a sua inclinação a rebeldia,
onde se agrupam grandes amotinados, ninguém estar a espera da verdade
como tal.

A verdade estava na chave de todo iluminismo do século XVII, baseado na
 razão e no pensamento racionalista. Assim os iluministas guiavam
todos os desejos e as vontades. A rigor, suas reflexões eram pautadas
nas temáticas relacionadas à sociedade e ao mundo natural em que
vivemos. Com essa base, começaram a pensar sobre as desigualdades
sociais e a composição de elementos naturais, sobre as formas de
governo e, daí, retomaram uma discussão estabelecida pelos filósofos
gregos antigos.

Necessariamente, para o Iluminismo, a chave para decifrar as
indagações mais preocupantes da humanidade se encontrava na verdade
haurida na capacidade racionalizante do ser humano, ou seja, no
racionalismo, e não na tradição e na religião. Nessa racionalidade, a
razão iluminista era o caminho para as pessoas vencerem suas
ignorâncias e medos e construírem um mundo baseado na verdade, no
progresso e na liberdade. Dessa maneira, a razão permitiria alcançar a
universalidade, a individualidade e a autonomia política e comercial
dentro do processo civilizatório criado pelos filósofos iluministas.

Todavia, a verdade começa a apresentar problemas, exatamente quando a razão iluminista preconizava o rompimento com o governo absolutista,
pautado na desigualdade jurídica e no despotismo do Antigo Regime, em
que as leis eram instituídas pelo rei absoluto e guarneciam uma série
interminável de privilégios.

A vitória da verdade vem parcialmente, ao criarem leis baseadas na
razão, como a teoria da separação dos poderes: o Poder Legislativo
(responsável pela elaboração das leis), o Poder Executivo (responsável
pela administração governamental) e o Poder Judiciário (responsável
pela fiscalização e cumprimento das leis), como preconizou o barão de
Montesquieu.

Também obras como O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, avivaram marcos de
como se faziam (ou até hoje fazem) politica. E essa obra, que era uma
espécie de manual voltada aos reis e príncipes, dizia muito desses
pensadores  que não propuseram uma revolução, porém, propuseram uma
ampla reforma política, econômica e social.

Antes de concluir sobre a atuação da mídia eletrônica consagrada pela
televisão, com marco anterior ao fenômeno das redes sociais,  levada à
frente pela civilização da imagem, parece sensato, em outro debate, a
avaliação sobre o desaparecimento da esfera pública .

Durval Aires Filho

Durval Aires Filho é Desembargador do Tribunal de Justiça do Ceará, professor universitário e mestre em Políticas Públicas. É membro da Academia Cearense de Letras, tendo publicado os seguintes livros: “As 10 faces do mandado de segurança“ (Brasília Jurídica) e “Direito público em seis tempos. Autores relevantes e atuais” (Fundação Boitreaux). Antes da pandemia foi vencedor do Prêmio Nacional de Literatura para Magistrados, com a ficção “Naus Frágeis”.