EXISTÊNCIA E RESISTÊNCIA EM TORNO DA ARTE

  Existir e resistir. A conexão entre essas palavras vai além da rima veiculada e da semelhança na escrita. Ainda mais para quem trabalha no campo artístico. Assim, entronizado nesse contexto, um artista que se deseja criador, e que elabore sua produção a partir de forças da cognição relacionadas à imaginação, à percepção e à memória, observa o mundo sob uma ótica (muitas vezes) independente. E, em torno desse quadro, compreende ser tal ótica, ao mesmo tempo, educadora, bem como relacionada ao entretenimento e à construção de conhecer aspectos da vida.

    Nesse sentido, o universo da arte envolve a própria existência como resistência, haja vista a batalha de se concretizar ações que possam ser traduzidas em vinculações reais com o público. E nesse aspecto não entram questões relacionadas ao sucesso, mas sim às possibilidades de compreensão por parte do receptor em relação à mensagem artística. 

    Por outro lado, contra-argumentando o citado no parágrafo anterior: há pessoas que comentam a não obrigatoriedade de a arte ser compreendida, e sim, sentida. Tal aspecto representa também uma interferência ativa para quem mantém contato com as diversas manifestações artísticas humanas. Explica-se: o sentir envolve emoções, além de aflorar diálogos múltiplos e revelações daquilo que somos e podemos vir a ser. Portanto: sentir também é compreender.

    Em todo esse contexto há artistas que, através do seu trabalho, fazem questão de construir pontes para que outras possam ter uma formação simbólica com sentimentos e valores ligados ao ato de resistir. Nessa conjuntura, por conseguinte, há artesãos e pensadores da arte que impulsionam reflexões sobre diversas esferas, como a cultural, a política, a econômica, afora outras áreas.

    Aprofundando: o professor emérito da Universidade de São Paulo, crítico e historiador Alfredo Bosi, por exemplo, no livro Literatura e Resistência, sustenta na contracapa que este último termo “é um conceito que vem da ética, não da estética”. Esta crônica, entretanto, deseja convergir mutuamente tais expressões, haja vista a qualidade e a força expressiva de diversas obras de artistas múltiplos e de literatos brasileiros que tematizaram sobre o ato de resistir: Graciliano Ramos, Lima Barreto e Ferreira Gullar entre eles. Afinal, tais escritores vivenciaram períodos em que a violência se mostrava de várias formas, como são exemplos: a seca nordestina, prisões (inclusive em manicômios) e as ditaduras instaladas neste país. O mundo é cíclico mesmo…

    E em torno desse contexto, os livros desses artistas buscam explorar traços literários que problematizam – em tons ficcionais/reais ou ainda memorialistas/biográficos – parte das experiências e dos destinos da sociedade brasileira. Assim, eles – animados por uma ótica sociocultural de resistência – relataram questões dos e sobre os oprimidos. Portanto, parte da produção desses escritores passou a basear o seu discurso na perspectiva de se historicizar tais períodos, dando voz aos personagens, ouvindo os seus relatos narrativos e apondo-lhes esquemas artístico-ficcionais.

    Graciliano, por exemplo, foi um escritor que mexeu bastante com este pesquisador. Sua literatura, simples e densa ao mesmo tempo, evoca situações humanas que têm o poder de fazer o percurso de muita gente ser fortalecido. Essa sensação nasce de personagens como Fabiano, protagonista de Vidas Secas. Vaqueiro, homem simples, é um analfabeto típico da região nordestina. Com certeza, sua saga incomoda muito a quem lê o romance, com o sentimento predominante de “reação”. Nesse sentido, ao longo do enredo, a torcida pessoal era para que ele protagonizasse uma ruptura na sua condição de dependente de tudo e de todos… E isso não veio, por mais que o romance termine com ele e sua companheira, Sinha Vitória, questionando a relação deles para com o mundo, num processo incipiente de autoconhecimento e de percepção de si mesmos.  

    Lima Barreto é outro escritor que tematizou o nosso país sempre questionando os poderes estabelecidos. Assim ele – através de uma literatura aguda e mordaz – narrava, opinava e criticava, clamando por justiça e igualdade para todos. Na obra desse importante literata estão presentes questões sociais como a situação do negro e o escravagismo, a corrupção, a burocracia dos serviços públicos, além de temas como o alcoolismo, os hábitos populares e os subúrbios cariocas. 

    Sua literatura – considerada militante na segunda metade do século XIX e no início do século XX – converteu-se em um testemunhal do Rio de Janeiro e do Brasil. Afinal, para ele, escrever era como se fosse uma arma de combate, como uma verdadeira peça de resistência contra as diversas desigualdades brasileiras. Tal aspecto, em termos pessoais, só fez crescer a admiração deste cronista para com a sua prosa. Isso ocorreu em virtude de que os escritos de Lima Barreto também podem ser compreendidos como autobiográficos, pois sua vida se confundiu bastante com a obra. Ou seja: ele vivenciava muitas vezes na própria carne aquilo que escrevia, fazendo com que sua produção se tornasse uma espécie de retrato dos fatos que ocorriam neste país.

    Obviamente que essa perspectiva, na visão do cronista, mantém conexão com a questão da honestidade intelectual. Ou seja: se há em Lima um artista que produz aquilo que vivencia, amalgamando ficção e realidade, ele pode ter seu trabalho experimentado como um dado jornalístico, ou até mesmo educador. Além disso, adensa esse quadro a compreensão de que sua produção gera efeitos de intensidade, já que agrava o peso das situações narradas (Lima era um escritor entronizado no espaço midiático de sua época), acentuando as diferenças sociais e aguçando as tensões. E, apesar de escrita no entorno dos 100 anos, a produção desse escritor continua válida e vigente! Para comprovar esse aspecto, basta se analisar o Brasil atual, cheio de corrupção e de violência contra minorias, inclusive e principalmente a partir dos poderes constituídos…

    Além disso, sustenta-se igualmente que escrever sobre obras literárias com temáticas ligadas à resistência significa problematizar a questão do poder. Dentro dessa perspectiva, e mesmo sem querer ser texto-cêntrico, compreende-se a carga reflexiva que a literatura – como fato linguístico – pode causar nas suas relações com o leitor, com a possibilidade de ele repensar seus espaços sociais de atuação a partir da produção literária lida e significada contextualmente. 

    Literatura, existência e resistência! Ou a “Educação pela Pedra”, como já tematizou João Cabral de Melo Neto!   

       Há igualmente outros artistas, a partir inclusive do “mainstream”, que concebem a arte como um instrumento político de compreensão de mundo, e tentam juntar a ética e a estética. Esse é o caso de Roger Waters, um dos fundadores, nos anos de 1960, do grupo britânico Pink Floyd, uma banda que produziu canções clássicas em discos como The Dark Side of the Moon ou The Wall, estilizando o rock e lhe outorgando uma aura conceitual.

    Pode parecer senso comum trazer à tona a produção de um músico inglês numa crônica como esta, ainda mais havendo tantos artistas cearenses produzindo e resistindo. Pois que seja! O rock está na alma deste pesquisador, e tem uma fundamentação nos corpos e mentes de muita gente e em vários lugares. Ou seja: trata-se de uma linguagem que impacta o mundo de diversas formas, deixando marcas por onde passa. E isso há cerca de oito décadas!

    Assim: Pink Floyd foi descoberto pelo cronista ainda criança. Produzindo dentro do que se reconhece como “rock progressivo”, o som desse grupo realiza intensas viagens, misturando elementos da música à literatura de George Orwell – como prova o disco Animals, baseado na obra Revolução dos Bichos, desse autor citado, e passando ainda pelo psicodelismo e por experimentações lisérgicas. Um caldeirão vivo, sonoro e cultural, sem dúvida!

    Waters, como compositor principal do grupo, elaborou peças musicais instigantes, que tentam traduzir em entretenimento e também em reflexões aspectos políticos e existenciais. Isso cria no receptor possibilidades diversas de compreensão sobre o mundo. Nesse sentido, o ouvinte mantém contato com o som floydiano ao mesmo tempo em que se situa frente a temas da contemporaneidade. Assim, há questões relacionadas à loucura, à solidão, à guerra e seus elementos nucleares, às políticas neoliberais perigosamente institucionalizadas em diversos países, ao abandono, às posturas educacionais equivocadamente tradicionais e mantenedoras de um status quo egoísta, à morte, ao capitalismo desenfreado… Enfim, temas que funcionam como ferramentas de expressão de suas próprias ideias, e igualmente como instrumentos de cura em torno de seus problemas pessoais.

    Não bastasse tudo isso, Roger Waters, em sua última turnê, intitulada Us + Them, na música Another brink in the wall convida estudantes de uma escola pública de onde ele esteja tocando a participarem dessa canção nos vocais de apoio; no final, o grupo retira o macacão e eis que surge a palavra “RESIST”!

    Poeticamente intenso, esse recado de Waters surge num contexto musical, estético e artístico incrivelmente forte, grandioso mesmo, com canções já legitimadas no show-business, além de elementos extramusicais – como vídeos e performances teatrais – extremamente ricos. O espetáculo apresenta também a presença de um porco inflável voando sobre a plateia; e em seu dorso, a frase “permaneça humano”. Advém daí mais uma vez a conexão do trabalho atual de Waters com a questão da resistência!

    Por sua vez, Caetano, nos anos de 1970 já perguntava, na canção Cajuína, o destino de nossa existência. Pois bem, talvez seja empreender a vida em outros termos, mais vinculados com o brilho dos olhos, com o desejo de escolher o amor, de manter conexão dialógica com o próximo e de resistir a processos de desumanização, como a injustiça social. Tudo isso, se possível, sem perder a ternura jamais. Resistamos, pois! E existamos, sobretudo!

Carlinhos Perdigão

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OBS.: este texto é dedicado ao todos os artistas que resistem!

 

     

   

 

         

Carlinhos Perdigao

Carlinhos Perdigao

Carlinhos Perdigão é arte-educador, músico, produtor cultural, professor de língua portuguesa da Faculdade Plus e da UNIQ – Faculdade de Quixeramobim. É autor do livro “Fragmentos: poemas e ensaios” e do disco “Palavra”. Tem formação em Letras e Administração, com pós-graduação em Gestão Escolar. E-mail: [email protected] Site: carlinhosperdigao.com.br

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