Ronaldo Salgado: um Jornalismo para respeitar e superar diferenças e desigualdades, por Heliana Querino

Foi em abril de 2018 a primeira conversa com o mestre Ronaldo Salgado. Ele me esperava no bar do Álvaro, na rua Vicente Leite, Comunidade das Quadras. De longe avistei aquilo que, sem dúvida, é uma de suas maiores marcas – chapéu e cabelos longos, livres e grisalhos. A cerveja estava na metade da garrafa, e eu atrasada uns 10 minutinhos. O  jornalista me recebeu com simplicidade e bom humor. Na semana seguinte marcamos a entrevista que deveria ser publicada naquele mesmo mês pelo Segunda Opinião. Publico agora a entrevista do jornalista nascido no Crato, em 1956, região do Cariri, nascente do Rio Salgado.

Na cidade do Crato passou a primeira infância e toda a década de 60. Entre idas e vindas pelo interior e a capital, o professor queria, desde menino, ser um jornalista. Ainda mocinho, e por influência da Jovem Guarda, começou usar cabelos grandes, à revelia de seu pai.  

 Emocionado, prende a voz, respira e fala da amizade com Neno Cavalcante, fala sobre política, relações de afeto e prática jornalística humanizadora.

“Eu acreditava na minha condição de contribuir para que houvesse um mundo melhor.  Eu olhava o jornalismo como uma janela onde eu pudesse transformar aquela realidade bruta, cruel e opressora, e acreditava em uma prática humanizante e humanizadora, que se voltasse para o interesse da maioria da sociedade. À luz dos meus quase 62 anos, percebo que seria difícil, porque as empresas jornalísticas, em sua grande maioria, elas são aéticas – aí entra aquela crise —  você diz “eu sou um jornalista de uma empresa tal e embora ela defenda seu slogan – um jornal a serviço do Brasil – como é o caso da Folha de São Paulo, e ele não está a serviço do Brasil…”

“Estava muito claro em minha cabeça o que queria me tornar enquanto profissional. A comunicação, e mais especificamente o campo do Jornalismo com J maiúsculo, não esse jornalismo que está sendo feito agora, na grande maioria dos meios de comunicação, não só aqui no Brasil. Eu gostava do jornalismo que estava preocupado com o social, que estava preocupado com o cultural, com o econômico, com o exercício de uma ética que fosse soberana para respeitar as diferenças, as desigualdades e tentar superá-las através de uma conscientização mais forte, seja das autoridades, seja da própria população.

Claro que a minha consciência crítica quando entrei na universidade era uma. Que diferença grande de quando saímos do ensino médio. Há um despertar de uma nova consciência, as discussões passam a ser mais profundas, você tem acesso e conhecimento de outras literaturas. E hoje o que estão fazendo? Voltando mais uma vez para o golpe, proibindo o ensino de Filosofia, de Sociologia, de Música, de Educação, novamente estão querendo fazer sacanagem para não permitir que o aluno já chegue na Academia com uma consciência crítica mais aguçada. É uma questão perversa demais, que precisa ser denunciada e os jornais não estão denunciando. As pautas hoje são feitas, em sua maioria, de dentro da redação, coisa que acontecia antes do século XX. João do Rio, que foi o caso que eu estudei no Mestrado, ele ia para a rua. Hoje em dia, poucos repórteres saem a campo, os meus alunos dizem “professor, nós não estamos saindo para a rua, fazemos as reportagens por telefone ou por computador”, e a reportagem exige encontro face a face com a fonte, com o personagem da notícia. E isso é apenas um resumo da crise do jornalismo e da informação em termos mais gerais…”



1 – Em que outra época gostaria de ter vivido?

Eu gostaria de ter vivido entre os anos X e XX do século XX. Eu fico imaginando aquela Paris do início do século, com os escritores americanos todos querendo viver a liberdade, as festas, o Ernest Hemingway falando daquele período maravilhoso,  período de exuberância,  despertar do cinema de forma mais significativa,  chegada do rádio,  grande produção literária, a própria Belle Époque como um estilo de vida, que é claro, paira sobre mim num determinado signo de romantismo, porque de certa forma, nos levava a sonhar. Gostaria de viver essa época nesta perspectiva, mas não refuto a época em que nasci — 1956 é o ano em que emergem líderes culturais, James Dean, Elvis Presley, Beatles, Rolling Stones, esse movimento contracultural que repercutiu na atividade comportamental, as rebeliões estudantis em Paris, depois na Alemanha. Apenas como um sonho, eu olho para aquela época bela, e imagino que seriam anos mágicos.

2- A palavra que eu mais (menos) gosto:

A palavra de que eu mais gosto é humildade; a de que menos gosto é prepotência.


3 – Um filme para ver de novo:

A trilogia O Poderoso Chefão.



4 – Politicamente,

Eu sou de Esquerda até o talo, até a alma. Não tinha como não ser, a Direita ela é xenófoba, retrógrada, preconceituosa, ela é discriminatória, desrespeitosa, prepotente, arrogante. Ela acha que pessoas devem olhá-la debaixo para cima. A literatura a que tive acesso, graças a meu pai e a amigos, e graças a professores,  permitia descortinar realidades , os horizontes eram outros, não somente os daqueles que mandavam — “você não pode fazer isso porque não pode e pronto” – o questionamento existia -, “não pode, mas não pode por quê?”.  


5 – Quem você ressuscitaria:

O jornalista amigo-irmão-amor Neno Cavalcante…. Neno era o meu melhor amigo, nos conhecemos no Diário do Nordeste, fomos da equipe fundadora e logo estabelecemos uma empatia de respeito, de amizade e de admiração. Uma coisa que se transformou em um motor de sentimento de amor, carinho, brincadeira, cumplicidade… O pensamento dele convergia com meu ponto de vista no exercício do jornalismo, da política, da ideologia, das brincadeiras, sacanagem e “canalhices” que se fazem quando se está na mesa de bar. O fato de ele beber tanto quanto eu,  ou eu beber tanto quanto ele, nos fazia cúmplices de muitas coisas, e por isso estabelecemos uma amizade. Amigo – amor – irmão. Essa dimensão tríplice é uma definição do que é a amizade. 

6 – O livro que já li várias vezes: 

A alma encantadora das ruas, do jornalista e escritor carioca João do Rio, foi o que mais li, pelo menos dez vezes.



7 – Eu me acalmo:

Com uma roda de amigos, estar com amigos é uma retroalimentação da vida, os amigos de verdade, os que compartilham a vida, e menos brigam e mais se abraçam.

8 – Eu me irrito:

Com falsas amizades.



9 – A emoção que me domina:

É a solidariedade.



10 – Um dia ainda vou:

Viver de forma mais tranquila, do ponto de vista mental. Com essa dura realidade que passa o país hoje, ainda tem pessoas que acham que está tudo normal, para mim a maior violência que existe hoje no Brasil é a violência política, midiática, judiciária e Legislativa, porque se engrenaram para impedir que um analfabeto, um operário que conseguiu colocar o país na primeira linha de frente do mundo e mudou a geopolítica internacional… Eles não aceitam, porque o Brasil real é o país da Casa Grande e Senzala… 



11 – Existem heróis? Qual o seu?

O trabalhador e a trabalhadora assalariados que ganham a vida honestamente são heróis de verdade. São os meus heróis no dia a dia. Mas quando era criança eu gostava muito do Homem Aranha e Super Homem, no imaginário infantil eles são muito fortes.


12 – Religião para mim é: o exercício da fé sem obrigatoriedade. Sou muito livre, eu não frequento igreja, mas eu rezo em qualquer lugar, no bar, no quarto, no jardim, na privada, debaixo do chuveiro, assistindo TV, em qualquer lugar eu agradeço pelo dia, por ter vivido com paz, com proteção, com segurança e tranquilidade.

13 – Dinheiro é:

Nada, se a gente não tiver saúde, ética e honestidade.



14 – A vida é:

Um presente infinitamente mais importante do que todas as coisas materiais.

15 – Se você tivesse o poder, o que mudaria?

Não mudaria nada, simplesmente porque não quero o poder.



16 – Eu gostaria de ser:

Sempre simples, solidário e atencioso com as pessoas em minha volta.

17 – Não perco uma oportunidade de:

Tomar cerveja com os amigos e conversar sobre a vida.


18 – A solidão e o silêncio:

A solidão é um mal que nos corrói devagar se a gente não cuidar; o silêncio é um imperativo existencial para que a gente possa se encontrar. A solidão te permite esse diálogo interior, e esse diálogo interior se pratica com o silêncio, com a possibilidade de calmaria, se reconstituir de alguma forma, se auto-avaliar.  E isso não significa que em meio a uma multidão você não possa estar imerso numa espiral de silêncio…



19 – O Brasil é:

É preconceituoso, racista, injusto com a maioria do povo brasileiro, desigual e um país que precisa de uma mudança radical. Eu procuro não alimentar mágoa nem rancor dentro de mim,  eu sou mais alegre do que triste, como diz uma canção, mas isso não significa que eu não me decepcione, como no caso específico da circunstância brasileira, com o que estão fazendo com o Brasil, porque o que estão fazendo é em benefício de uma casta privilegiada e em malefício de um universo de pessoas que mereciam um país melhor para viver. Eu gosto de viver no Brasil pelo povo, a maior parte merece o meu respeito e minha admiração.  Embora eu saiba que muitos deles apoiam ou apoiaram esse tipo de coisa, mas é porque não tiveram acesso aos mesmos bens culturais e educacionais, políticos e econômicos, sociais, filosóficos e comportamentais, não tiveram acesso à informação que pudesse entregar para eles um caminho que fosse justo, digno e equilibrado… Nós temos e tivemos lideranças preocupadas com a realidade brasileira, não em benefício de um segmento só, mas em benefício de vários segmentos que constituem o tecido total que forma a nação brasileira, a pátria brasileira, o país como Unidade Federativa. Esse clima de ódio, esse clima de estranheza, esse clima de embates ferozes e enraivecidos, principalmente nas redes sociais, mas também já nos telejornais e noticiários, indo para as produções na televisão, no cinema e até mesmo na literatura, essa coisa toda é de machucar. A realidade de hoje me machuca, me dói. Eu bebo por prazer, mas também bebo por dor, não dá para aguentar a realidade nua e crua.



20 – O ser humano vai:

Continuar vivendo a transitoriedade e a brevidade da vida ora com o bem, ora com o mal.




21 – Eu sou, minha mensagem é

Eu sou uma pessoa simples e sem frescuras; minha mensagem é de amor, paz, saúde, generosidade, esperança em dias menos violentos e de respeito ao semelhante.  

Nós não devemos aceitar passivamente as verdades que nos são colocadas de forma absoluta como sendo verdades verdadeiras e imutáveis. Seria simples aprender a lutar pelos próprios direitos, aprender a respeitar os direitos do outro, de ser, de pensar, de agir da forma que acha que deve ser. Seria praticar o exercício da tolerância, em comum acordo com o exercício do respeito e da dignidade, do encontro mesmo quando nós nos encontramos em campos opostos em termos ou políticos ou ideológicos. Isso não significa que sejamos inimigos, a ponto de um querer um matar o outro e vice-versa.

Se pudéssemos ter acesso a livros, filmes, música, teatro para ampliarmos a perspectiva da nossa consciência para entender o mundo, porque o mundo é uma pluralidade, a vida é plural, multifacetada, multiforme, ela tem vários sentidos e precisamos simplesmente saber relacionarmo-nos uns com os outros, sem agressividade, sem ódio, restaurar o sentido do diálogo estabelecido pelos gregos, o parto maiêutico da busca de uma verdade coletiva ou individual, 




Ronaldo Salgado é um dos mais queridos e admirados profissionais no meio jornalístico e acadêmico.

Sementes de coração e alma florida! Assim é o homem fotógrafo das flores,  jardineiro de palavras que desenha crônicas de gente de verdade. É poeta, sim, e cidadão consciente e sem frescuras. Um ser humano que gosta de seres humanos e desgosta os seres “humanos desumanos”, e para que ninguém esqueça, ele gosta de cerveja e de amores também!

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - canivete suíço, jornalista, pesquisadora, educomunicadora, coordenadora de Cultura e colunista no SegundaOpinião.jor

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