A primeira vez que ouvi falar do seu nome foi por volta dos meus 10 anos de idade, na companhia de minha mãe, em uma das idas ao Centro de Fortaleza. Não sei precisar a rua, mas lembro que era das mais movimentadas entre a Praça José de Alencar e a Praça do Ferreira.
Andávamos, eu e minha mãe, de mãos dadas pela calçada apinhada de gente quando, de repente, um grito se fez ouvir: Rita Lee!
Foi o que bastou para que dezenas de outros gritos de igual teor ecoassem ao nosso redor: Rita Lee! Rita Lee! Rita Lee!
Sem entender nada, vi-me puxado pela minha mãe em direção à vitrine de uma loja, onde ficamos encostados. Foi quando percebi, vindo em sentido contrário ao que estávamos indo, uma senhora de baixa estatura, magra, de andar rápido, cabelos desgrenhados, óculos grandes de aros vermelhos e roupas super coloridas.
Era para ela que a multidão, entre vaias e gargalhadas, destinava a alcunha que soava como zombaria, ao que a senhora respondia com uma sequência impublicável de palavrões e xingamentos contra tudo e contra todos, o que fazia com que a malta gritasse ainda mais alto.
Rita Lee. Daquele instante em diante associei o nome àquela senhora que, em seu visível tormento, vexame e drama interior, servia de troça para uma multidão de anônimos que se regozijavam em nome de uma decantada molecagem cearense.
Somente alguns anos depois, já entrando na puberdade, é que tomei conhecimento da verdadeira Rita Lee, cantora, compositora e escritora paulista, um dos mais expressivos nomes de sua geração, e certamente uma das maiores artistas que este país já foi capaz de produzir.
Rita, a verdadeira, entrou na minha vida por meio de um escambo, onde troquei uma lâmpada estroboscópica por dois discos usados, ou melhor, dois LPs, sendo um deles o já então lendário Fruto Proibido, assinado por ela e pela banda Tutti Frutti.
Desbunde e sorte total: o garoto que começava a desvendar os mistérios da composição ganhava ali uma de suas mais importantes referências; bendito fruto, bendita Rita.
Bendita mesmo, dessas com direito a pelo menos três encarnações musicais: a primeira com os Mutantes, ao lado de Arnaldo Baptista (com quem veio a se casar) e Sérgio Dias, além de Liminha e Dinho Leme, que entraram no grupo posteriormente; a segunda com a citada Tutti Frutti, de Luis Sérgio Carlini, Lee Marcucci e Franklin Paolillo (minha formação preferida); e finalmente a terceira, em dupla com Roberto de Carvalho, seu mais longevo parceiro artístico e companheiro de vida, pai de seus três filhos.
Melodista inspirada e dona de uma poesia crítica, debochada e confessional, Rita foi uma revolucionária na forma e no conteúdo, batendo de frente com as convenções tanto no plano artístico, político e social, quanto na pauta de costumes, por vezes pagando um preço injusto por suas convicções e atitudes – como no episódio de sua prisão na década de 1970 -, mas sem nunca se deixar abater ou desistir, como deixou claro em “Mutante”, já na fase com Roberto de Carvalho:
“Quando eu me sinto um pouco rejeitada / Me dá um nó na garganta / Choro até secar a alma de toda mágoa / Depois eu passo pra outra”.
Rita Lee Jones de Carvalho foi e continuará sendo um talento de inteligência ímpar, multifacetada e provocante em sua abordagem artística e existencial.
E é uma pena que ela nunca tenha tomado conhecimento da outra Rita, aquela que, sem sequer ter seu nome real conhecido, mas tão independente quanto a original, foi achincalhada pelas ruas de Fortaleza por ousar quebrar padrões estéticos e comportamentais, vindo a ser uma das vítimas preferidas dos adeptos de um tipo de humor sádico, depreciativo e preconceituoso que, lamentavelmente, ainda circula por aí.
Para essas duas mulheres, senhoras de si e de suas vidas, toda a minha consideração, respeito e gratidão. E muito Rock ‘n’ Roll onde quer que estejam.
Uma resposta
Parabéns pela crônica . Compartilho com você da admiração pela Rita Lee.