Espetáculo kafkiano

Como discorreu Otto Maria Carpeaux, em ensaio notável, certos nomes têm a força de um enigma, e dizem sobre aquilo a que se referem muito mais do que sonha a nossa vã etimologia.

 

É o estudioso austríaco quem nos lembra, por exemplo, que o verbo boicotar vem do capitão inglês Boycott, um fazendeiro cujas práticas eram de tal modo assustadoras que seus empregados resolveram largá-lo na mais absoluta solidão, ou seja, boicotaram-no; do Marquês de Sade, afeito a torturar suas companheiras de sexo, veio o que se conhece hoje por “sadismo”, assim como, na contramão, “masoquismo” se originou do frágil e tímido escritor Masoch, acostumado aos maus-tratos que lhe eram impostos.

E por aí vai. Do famoso hoteleiro Ritz, nasceram mundo afora, assim chamados, grandes hotéis, como se a palavra servisse para designar o ‘estabelecimento onde se alugam quartos, com ou sem refeições’, como aparece no Aurélio, que, por extensão, passou a definir livros volumosos.

 

Ontem, por coincidência, vi à distância, na rua em que moro, um incêndio de proporções “dantescas” num edifício residencial. E me veio Dante, o poeta italiano, adjetivar o que, aos meus olhos assustados, parecia gigantesco, grandioso, muito maior do que realmente foi. Felizmente.

no romance O Processo, no dia em que completa 39 anos, Joseph K. é preso, levado ao Tribunal e condenado à morte sem saber que crime teria cometido; em O Castelo, o agrimensor K. chega a uma cidade à procura de trabalho, mas é impedido pelos moradores de exercer sua profissão, que o tratam com hostilidade e o condenam aos burocratas do castelo, submetido como o homem comum na luta pelo direito a um trabalho, a uma casa para morar, a um nome com que possa desfrutar de uma identidade. E assim, marcados pelo absurdo, acontece em cada um dos livros do “pai da literatura moderna”, segundo assertiva de Jean-Paul Sartre.

Franz Kafka nasceu em Praga a 9 de julho de 1883. Seu pai, um judeu alemão, rico e austero, exerceu sobre a personalidade do futuro escritor uma influência quase maligna, levando-o a desenvolver uma personalidade doentia, cujo conflito projeta nas suas narrativas com uma força e um sentido inclassificável.

Há alguns anos, não muitos, percorri as ruas da Praga antiga, cenário de muitos de seus livros e de suas histórias a um só tempo inquietantes e belas, na tentativa de encontrar vestígios de sua vida atormentada. O castelo que dá nome ao romance existe, o cenário de O Processo existe, os bares que frequentou, estão lá, os lugares inomináveis, marcados do musgo verde, úmido e gelado de que estão cobertas as pedras do chão, estão lá.

 

Em que pese a beleza estonteante da cidade, das mais encantadoras a que pude chegar, aos olhos do visitante, dá-se a ver a presença do homem solitário e triste, do ser humano que foi capaz de entender e comunicar, pelo milagre de sua arte dialeticamente real e fantástica, o incomunicável, o inexplicável, o absurdo, o estranho, o burocraticamente tortuoso e apavorante de um mundo sem lógica e sem racionalidade.

No Brasil, pois, à frente dos quartéis, assiste-se a um espetáculo kafkiano.

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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