Espernear não resolve

A primeira semana de maio facultou à cena política cearense fatos de grande envergadura para os próximos movimentos em torno da composição das forças visando à eleição que se aproxima. Alguns profissionais de imprensa e analistas políticos, acostumados a fazer o mesmo do mesmo, ativeram-se apenas ao óbvio: o esperneio desesperado do presidenciável Ciro Gomes (PDT), esguichando seus impropérios contra o Presidente Lula e o seu Partido dos Trabalhadores (PT), buscando sujeitar goela adentro o nome de Roberto Cláudio como o candidato ao governo do Ceará pelo PDT. As agressões do chefe da oligarquia Ferreira Gomes provocaram uma tímida reação na direção estadual petista que publicou uma nota burocrática em repúdio a mais esta agressão.

Entretanto, a nosso ver, o fato político mais relevante da semana não aflorou à cena pública, permanecendo recôndito, somente sendo revelado àqueles capazes de exercitar a dúvida em seu ofício de analistas e de comunicadores, os quais se indagaram: por que Ciro Gomes, agonizante, esperneia tanto e agora começa a focar sua munição no PT e nos petistas do Ceará? O que o estaria atormentando?

Tais pesquisadores descobriram que na segunda-feira, dia 02 de maio, à tarde, ocorreu uma reunião virtual, com a presença de alguns dirigentes nacionais do PT e deputados federais, para recepcionar e apresentar suas primeiras impressões em torno de uma pesquisa presencial, encomendada pela Direção Nacional do PT e realizada pela empresa Vox Populi, sobre a situação de intenção de votos em cinco estados da Federação, entre os quais o Ceará. Pelo fato de não haver sido registrada, tal pesquisa só pode transitar em âmbito interno do solicitante. Mas não impede aos pesquisadores e analistas políticos de tecerem algumas considerações sobre dados relevantes, à medida que tiverem acesso a fontes fidedignas – pessoais e documentais – dos resultados.

Entre os dados fornecidos por estas fontes, dois deles ajudam-nos a esclarecer nossa visão em torno das perguntas lançadas acima. O primeiro deles é que na corrida presidencial, no estado do Ceará, entre os três presidenciáveis melhores situados nas intenções de voto, o presidente Lula ocupa o primeiro lugar disparado, contando com 58% das preferências dos eleitores; em segundo lugar vem o Inominável, com 18%; e em último lugar está Ciro Gomes com apenas 15%. Uma nítida humilhação para alguém que, em seu domicílio eleitoral, caso a eleição fosse hoje, perderia até para Bolsonaro.

O segundo dado de relevância obtido em nossa consulta, diz respeito às intenções de voto para o governo do estado, com simulações de vários cenários espontâneos e estimulados. O candidato preferencial cirista apresenta-se num patamar bem razoável nos cenários espontâneos de intenções de voto. Contudo, para surpresa nossa, nos cenários estimulados, quando apoiado pelo cearense presidenciável do PDT, sua posição despenca.

Por sua vez, os três nomes do Partido dos Trabalhadores que despontam na pesquisa, os deputados federais José Airton e José Guimarães, juntamente com a deputada federal Luizianne Lins, nos cenários estimulados, com o apoio do Presidente Lula, ocupam disparadamente – qualquer um dos três – o primeiro lugar nas intenções de voto para o governo do estado, com indicadores acima dos 40%.

Portanto, como retrato instantâneo do real, apesar de não poder ser divulgada publicamente, devido aos detalhes formais, a referida pesquisa apresenta-se como um verdadeiro mal-estar para a composição de força pedetista local. Logicamente, espernear não irá resolver este problema. E como hipótese, talvez seja esta a causa de tanta apreensão, de tanto tormento. Mas é importante continuarmos com a escavação investigativa.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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