ESCOLHAS ERRADAS

Ontem, 15 de janeiro, em debate de um grupo de mídia social do qual participo, um dos companheiros me perguntou sobre quais caminhos percorrer para conseguirmos obter uma compreensão mais adequada do desumano momento político e social ao qual chegamos no Brasil  – com o genocídio anunciado de portadores de covid-19 e bebês prematuros nos hospitais de Manaus pela falta de oxigênio – no sentido de provocar uma mudança efetiva de rumo e retomarmos o caminho da construção de uma democracia progressista, participativa e inclusiva.

Importante registrar de antemão que a estratégia de “lockdown” tem justamente como um de seus principais objetivos desafogar as unidades hospitalares de uma demanda desproporcional que comprometa o sistema levando-o ao colapso. Desde sempre Bolsonaro foi contra as medidas de “lock down”. E continua sendo.

Respondendo ao companheiro, disse acreditar, entre outros caminhos, no aprofundamento conceitual coletivo, a partir dos pequenos grupos de pertencimento (associações de bairro, associações profissionais, entidades estudantis, grupos de paróquia, movimentos religiosos, movimentos sociais, grupos de mídias sociais etc.) com vistas a refletir sobre seus valores e sua capacidade crítica de pensar o mundo, a fim de identificar coerências e incoerências, inseguranças e ingenuidades, entre o pensar e o agir, para compreender as consequências políticas que acarretam. Esse enfrentamento parece ser urgente e talvez capaz de produzir um ensinamento fértil para aquelas pessoas e grupos que o consigam realizar.

Como uma rápida exemplificação, aleatoriamente, peguemos o caso concreto do município de Guaratinguetá, no estado de São Paulo. Lá, em 2018, no segundo turno da eleição presidencial, Bolsonaro obteve quase 80% dos votos. Ou seja, se também pegarmos aleatoriamente um grupo de pertencimento, por exemplo, uma paróquia de fiéis, grosso modo, teremos que de cada 100 paroquianos, 80 votaram em Bolsonaro. Muitos destes sabedores da agenda violenta defendida por ele e do seu perfil de extrema-direita. Portanto, em meu entender, seria muito importante que essas pessoas sentassem para pensar coletivamente, refletir sobre seus acertos e erros, sobre suas compreensões da vida concreta brasileira, para perceberem o que precisa ser corrigido em seus processos de reflexão e visão de mundo. Afinal diz um pensamento popular: errar é humano, permanecer no erro é desumano. O primeiro passo para corrigir um erro é realizar uma reflexão honesta sobre ele.

Entre os muitos dos atos de Bolsonaro pode-se destacar, por exemplo, em 17 de abril de 2016, na sessão da Câmara Federal (Estadão, https://www.youtube.com/watch?v=xiAZn7bUC8A, 2016), o então deputado federal justificou seu voto a favor da derrubada da presidente Dilma Rousseff, com os seguintes fundamentos:“Perderam em 64, perderam agora em 2016! Contra o Foro de São Paulo! Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff! Pelo exército de Caxias, patrono das Forças Armadas! Por um Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos! O meu voto é sim”.

Vê-se claramente que não se tratava apenas de um voto, mas de um conteúdo ideológico e um programa político em andamento disposto no seguinte formato: 1) estabelecendo uma evidente relação entre o golpe de 1964 com aquele golpe de 2016 (um a ressurreição de 64); 2) com a clara definição de perseguição ao inimigo: o PT; 3) possuidor de uma visão hierárquica, violenta, autoritária e militar do exercício da política, apologética da tortura na pessoa de Ustra. Além disso, ao definir seu slogan de campanha como “Deus acima de todos”, Bolsonaro demonstrava ter a clara determinação de instrumentalização da religião como ferramenta estruturante do seu plano para alçar o poder, juntamente com uma visão totalitária e fascista do Estado: Brasil acima de todos.

A luta política é também – e principalmente – a luta sobre os significados (símbolos e construções imaginárias) e não somente um duelo dos grupos poderosos pelos seus interesses de classe. Portanto, se os cidadãos e cidadãs, com seus grupos de pertencimento, não exercitarem a reflexão em torno dos discursos ideológicos e das conjunturas políticas que estão por detrás das falas dos pretendentes ao poder, serão presas fáceis de políticos e grupos inescrupulosos. É fundamental buscar entender o que está por trás dos interesses do Capital, porque na eleição de 2018, para salvar seus interesses, o Capital de forma articulada com a mídia, com militares, com segmentos do judiciário, trabalhou para eleger um candidato de extrema-direita capaz de colocar em prática sua pauta neoliberal.

Em nosso artigo passado registramos que no dia 13 janeiro, a entidade internacional Human Rights Watch publicou seu “Relatório Mundial 2021”, no qual acusa o presidente Jair Bolsonaro de sabotar medidas contra a disseminação do Covid-19 no Brasil, produzindo informações equivocadas, chamando a pandemia de gripezinha, promovendo aglomerações, desestimulando publicamente o uso das máscaras. Em função dessa sabotagem, conforme o Relatório, o Supremo Tribunal Federal (STF) foi forçado a intervir contra as tentativas do governo federal de confiscar direitos dos estados da Federação na condução de suas medidas de enfrentamento da pandemia. (https://www.hrw.org/pt/news/2021/01/13/377542).

Portanto, a correção de rota está em nossas mãos. Porque o que acontece em Manaus é apenas a ponta do iceberg da gravidade que se anuncia em outros campos da vida brasileira. Importante entender o tempo presente. Corrigir os erros. Definir acertadamente e responsavelmente novos caminhos. E agir.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Religião em tempos de bolsofascismo (Independente); Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .