Entre laranjas e goiabas, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Imaginemos um corpo vivo supostamente natural. Em sua aparência apresente-se como uma unidade, por meio de ilusões que mascaram antagonismos subjacentes, numa combinação de elementos que quando costurados parecem formar um Todo orgânico. Contudo, após uma acurada análise, percebe-se facilmente a existência de incompatibilidades: um membro de metal, um olho de madeira, um queixo de vidro, dentes de prótese artificial, calcanhares de barro. Portanto esta dita unidade orgânica representa uma armadilha e a única forma de chegar à verdade sobre ela é despedaçando-a brutalmente a fim de tornar visível seu caráter artificial, heterogêneo, arbitrário e contraditório.

Entre as lições conferidas por Michel Foucault em seus estudos sobre o poder está aquela na qual a verdade não depende da razão, mas dos regimes políticos. Instituir a verdade é essencialmente um ato de poder. Assim, toda vez em que há um golpe de estado, tradicional ou não, os assaltantes do poder buscam criar as condições simbólicas e institucionais para a imposição de sua verdade particular. Quanto mais autoritário for o pensamento do grupo assaltante, tanto mais autoritário será o regime que forjará a verdade por ele a ser imposta, com objetivo de burlar a história de seus governados, aprisionando seus espíritos.

Mas o que é a história? É o auto-esforço de realização humana. Burlar ou proibir a história de um indivíduo ou de um grupo social, aprisionando seu espírito, é tipicamente um ato de totalitarismo. O ser humano só pode efetivar-se em mundos históricos concretos que são resultado de sua ação livre. A razão lhe obriga à reflexão crítica tematizando os critérios que lhe permitam superar o mal para conquistar a sua liberdade humana, levantando a questão sobre aquilo que está sendo e não deveria ser, e sobre aquilo que não está sendo e deveria ser. É a contradição entre o que é afirmado e o que é de fato que leva este processo para frente. Não há liberdade sem processos de libertação em mundos concretos.

Uma das etapas atuais do Golpe brasileiro de 2016 é a tentativa de sacralização da política e dos seus atores proeminentes, por meio de construções midiáticas de suas imagens públicas. Essa manipulação do imaginário social visa à produção de santidades que habitem os corações e mentes da população brasileira, como sendo portadoras de unções divinas que travam uma luta maniqueísta do Bem (os do grupo da situação) contra o Mal (as oposições em geral). O caso da goiabeira é típico. Um alguém que se pressupõe ungido ao ponto de ver a deidade em pessoa num pé de goiaba. Outro caso típico é a bênção ao presidente eleito transmitida nacionalmente em televisão de fé católica pelo fundador de uma associação religiosa.

Mas a história comprova que a sacralização da política acaba necessariamente em seu oposto: aqueles que traduzem diretamente o antagonismo político do qual participam em termos morais (a luta do Bem contra o Mal, da honestidade contra a corrução etc.) veem-se obrigados, cedo ou tarde, a realizar a instrumentalização da política subordinando suas avaliações morais às necessidades reais de sua manutenção no poder: se antes era “eu apoio Y porque ele é moralmente bom”, converte-se “em Y só é bom porque eu o apoio”. Os casos do perdão por parte de um juiz a quem praticou assumidamente recebimento de Caixa 2, bem como a generalização de laranjas para recebimento mensal de propina, são típicos desse cinismo político.

A tarefa que se nos impõe é despedaçar esse monstro o quanto antes. Não vamos aguardar que uma nova fruta apareça do cardápio do Golpe.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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