Ensaio sobre promessas e traições

O tema da traição existe desde que o homem é homem e a mulher é mulher. Em nossa rica literatura vamos encontrar escritos maravilhosos elegantemente elaborados tanto por um Machado de Assis (Dom Casmurro) como por um Chico Buarque de Holanda (Calabar).

Vamos encontrar em Nicolau Maquiavel um marco referencial teórico não tanto de fazer política, mas principalmente de como conquistar e se manter no poder, conforme expressa textualmente em sua obra mais famosa, O Princípe. Para o autor florentino, “um príncipe prudente não deve cumprir a palavra dada quando tal cumprimento se volta contra ele e as razões que o levaram a assumir o compromisso não existem mais”.

Por outro lado, segundo Hannah Arendt uma das condições fundamentais para o exercício da política de forma responsável é a capacidade de todos os humanos prometerem e de cumprirem suas promessas. Sem essa condição a política enquanto projeto coletivo não consegue subsistir dignamente. Concomitantemente Arendt destaca que ao lado desta condição configura simultaneamente outra, de igual valor, como se fosse sua alma gêmea, qual seja a capacidade que todos nós temos de pedir perdão e de perdoar, sobretudo diante das situações que nos impossibilitaram de cumprir nossas promessas. Segundo a autora, somente com essas duas colunas morais é possível fazer da política uma atividade responsável. Essa compreensão ela vai buscar nos estudos que realizou sobre a teoria politica presente no cristianismo de Agostinho de Hipona.

No impasse que hoje nos encontramos na luta política de nossa democracia, as duas teorias acima podem nos auxiliar a entender um pouco mais o momento presente. Se numa eleição disputadíssima como foi a de 2014, na qual a mídia global de forma orquestrada conduzia um movimento continuado de construção de um ambiente de pessimismo e mau humor em relação à situação nacional, descontextualizando esse momento da crise instalada no mundo desde 2008, a candidata à reeleição, não dispondo de instrumentos de comunicação eficazes capazes de confrontar a articulação midiática global, na luta para levar adiante o projeto político iniciado em 2003 que mudou as relações sociais deste país, lançou mão, naquele momento, de promessas políticas garantidoras das conquistas alcançadas para a classe trabalhadora brasileira e para os empobrecidos. No resultado das eleições mais de 54 milhões de brasileiros reelegeram a candidata oficial, depositando nela o poder popular de manter os rumos do projeto vitorioso desde 2003.

Assim, numa primeira análise, se formos utilizar a teoria maquiaveliana, poderíamos pensar que terminado o pleito, os motivos – as eleições – nos quais foram lançadas aquelas promessas haviam desaparecido; consequentemente, nesta perspectiva, não haveria mais razão para manter a palavra dada diante de um contexto econômico bastante complicado. Contudo, se fizermos o exercício de pensar um pouco mais intensamente, ajudados por Arendt, poderemos descobrir um motivo mais real, além das eleições em si: a fé de eleitores e eleitoras às promessas públicas. O que fazer com essa fé depositada pelos eleitores? Desconsiderá-la? Não cumprir as promessas públicas feitas em campanha?

Em julho de 2005, diante das primeiras manifestações de malfeitos produzidos por alguns integrantes do governo, o teólogo Leonardo Boff publicou no jornal O Povo um texto provocador. Ele expressa que para enfrentar a crise atual não é suficiente apenas uma ética social, expressão de um projeto coletivo no qual, por causa do dinamismo próprio da dialética, há a tendência de justificar deslizes éticos como passos toleráveis para conseguir certos avanços de classes. Nesse modelo, a ética pessoal é sacrificada em nome de um fim mais alto. Se há uma colaboração perene que o Cristianismo trouxe ao discurso ético é o caráter inegociável da ética pessoal. A razão reside no entendimento da consciência como norma interiorizada da moralidade. Esta interiorização é um fato irredutível. Não é fruto de algum superego social, nem eco da voz do dominador externo. Há lá dentro, no íntimo de cada pessoa, uma voz que não se cala, sempre vigilante, aprovando e proibindo, advertindo, aconselhando, dizendo: ‘Não faças isso, faça aquilo’. Por mais que marxistas e psicanalistas tenham tentado desconstruir essa voz, ela perdura. Sócrates e Kant a chamaram de a voz de Deus em nós.

Acontece que na política brasileira, trair ou realizar acordos inusitados para chegar ou se manter no poder faz parte do jogo. Aqui, os políticos são mais voláteis que os amantes. Porém, quando se trata de traição pública, o resultado é imprevisível.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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