Ensaio para um possível romance

Concebi o personagem numa situação de total impotência e imobilidade. Não costumo me importar com o interesse que as palavras que escrevo em sequência possam despertar no meu potencial leitor; o que me preocupa, neurótico, é como os poucos que talvez eu ainda tenha vão interpretar o que vai escrito, o que pode ser que explique por que continuo anônimo e pobre. Pois bem. Ou mal. Eu pretendia continuar a narrativa clássica de um autor clássico (a maturidade também me ensinou a não me ocupar com a questão tola da originalidade: apenas repetimos, são Gide!) e começava onde o clássico, um russo do século XIX, tinha parado, como se tivesse concluído (minha obra, pobre de mim, dizia que não era bem assim). Então, na sua condição completamente limitada, só o que restava ao personagem, também limitado em intelecto, era pensar. Eu me divirto eventualmente com as arquiteturas do desastre. Deus, o que eu fiz de mim, melhor, o que fez de mim essa fé insana na arte de escrever (a sorte é que, por enquanto, eu tenho um emprego). Por menos que ele pudesse pensar, aliás, por menor que fosse o alcance do seu pensamento, ideias teriam que se passar pela sua mente limitada. Foi aí que me veio a ideia de escrever sobre esse estranho projeto (para mais informações, consultem o livro do Gênesis). Se ele tinha que pensar, eu tinha que elencar os principais interesses de um ser humano adulto vivo, considerando que a própria vida, em si, é uma das mais básicas condições do pensamento como a ciência o pode descrever, ai de nós. Verdadeiramente, de ter vivido na carne, eu sei o que é a sede e a fome e o frio e toda sorte de desejo insatisfeito, do mais básico e essencial ao mais sutil e caprichoso. Mas nenhuma premissa me prendia mais do que a certeza já quase idiota e imóvel de que tudo que é vivo morre. E de que todo aquele que é minimamente consciente sabe disso. Tive pesadelos e noites de insônia por causa disso (posso não ser original, mas sou sincero). Não cheguei a nenhuma conclusão que não tivesse sido pensada por um grego antigo, e mesmo os gregos antigos tinham mais conclusões sobre o assunto que as duas ou três às quais eu chegava e que circulavam na minha cabeça noturna. E todas se resumiram a uma: morreria eu e morreriam todos os seres humanos aos quais eu tinha me apegado ao longo da vida (caro leitor, cara leitora, estimado ninguém, espero que vossa experiência ledora de antes já lhe aponte que, o que virá a seguir, não é um lenitivo, ainda que não seja, por outro lado, uma gota amarga e purgante de sabedoria: eu só repetirei o que sabeis, só lembrarei o que de propósito esqueceis vós e esqueci eu mesmo, e, entre parênteses, pobres pétalas gráficas, tenho dito). As dúvidas antigas, que reputo antigas porque vindas antes de mim, sobre a existência ou não de Deus, é claro, surgiram como pano de fundo; mas isso é coisa de momento mais tranquilo, quando um sono profundo sobrevém à insônia e nem mesmo os pesadelos acordam o ser humano petrificado. Algo que cala muito fundo na minha carne diz que os crentes em Deus, não importa a sua confissão, e os descrentes, não importa o motivo, quando temem a morte temem igualmente. Se posso estar errado? A cada passo que dou: a vida é risco. Justamente a vida, repito: é um princípio de incerteza que torna toda a mecânica quântica uma questão meramente numérica. Sim, meninos e meninas, a morte, a negação de toda experiência biológica, o fim de cada indivíduo desde que concebido, animal ou vegetal ou fungo ou o que quer que seja (foi na juventude que fui bom em taxonomia, e na época a morte não me importava tanto). O meu medo foi que a obsessão, monomaníaca, tornasse o personagem ainda mais idiota do que o concebido a princípio, pois eu queria que o personagem, na medida do possível, fosse tão real quanto a maioria dos meus possíveis leitores (sem ofensa) e tanto quanto eu mesmo (pois não, meus queridos, minhas queridas, não somos gênios nem heróis na nossa grande maioria na qual, para além do possessivo, de novo, eu mesmo me incluo (pois nem se espera de herói e do gênio que se importem com coisas triviais como a morte (pois é talvez por isso que os heróis e os gênios habitem o reino de belas nuvens da lenda (pois deve ser por isso que dela, as nuvens, seja tão suave cair, ao menos, menos doloroso que de um terceiro andar)))). A morte, dama morte, para a qual não tenho uma segunda solução quando a primeira já diz tudo, e é dela, primeira solução, que eu tanto reclamo. Sim. Ele pensará na morte de maneira insistente. Como se trata de um personagem, gente de papel e tinta, no final terei eu que pensar por ele as suas insistências. Será ele um idiota. Serão possivelmente idiotas os meus leitores interessados, debruçados sempre nesse exercício sádico da lembrança que é a leitura. Será sem dúvida idiota o escritor que repete o sempre mesmo. Com a vantagem, espero, de sermos, dentre a massa amorfa de todos os idiotas, aqueles que se mantêm despertos. Esperando saber por quê.

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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