EM BUSCA DO VERBO

 

— O poeta espreita a vida à cata do verbo — disse eu esta sentença, como resposta a uma amiga, e fiquei a matutar: “O que me faz presa de tão cruel busca?”, “Que fios atam minha vida a esse mister?”, “Ou seria ofício?”. Sim, ofício do verbo. Não me resta outro destino a não ser o de viver em busca do verbo: certo, exato, posto na página branca como um diamante lapidado.

O leitor, ao flagrá-lo com sua visada ligeira, deveria indagar-se (em silêncio de alumbramento):

— Caberia outro em seu lugar?

Como se, em tal pergunta, já recolhesse a resposta: “Não”.

Quando um texto foi escrito com esmero, sentimo-nos como diante de um edifício de tijolos verbais; um encaixando no outro, formando uma construção incrivelmente exata e una. Se qualquer palavra for retirada, na vã ilusão do encaixe de uma outra, o que antes era estável desmoronará em sequência, pedra sobre pedra, palavras amontoadas. Em sepulcro, o todo.

“E quanto aos dicionários?” — alguém, ao canto da página, me inquire.

O dicionário apenas nos apresenta a solidão de cada vocábulo. A construção de um texto melhor não ocorrerá tão só pela força dos sinônimos, da etimologia, muito menos da gramática, da sintaxe esmerada, ou coisa que o valha. Não, a magia literária é algo quase próximo ao indecifrável. Alguns julgam-na prima-irmã da bruxaria. Não iria tão longe. Fiquemos com os deuses de casa. Explico.

Há um quê de talento, mas, também, uma pitada considerável de transpiração e de atenta visita à casa dos mestres. Quando me refiro à casa dos mestres, fique bem claro, estou me referindo aos clássicos da literatura.

Ao lermos um Machado de Assis, a mente se abre, a pena aflita diante de tanto brilhantismo: “…Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos.”, em Memórias póstumas de Brás Cubas; “Capitu, apesar daqueles olhos que o diabo lhe deu… Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada.”, em Dom Casmurro.

Súbito a mente me puxa a lembrança para um terceto, do “Soneto de Fidelidade”, de Vinicius de Moraes: “Eu possa me dizer do amor (que tive):/ Que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure.”.

No entanto fique atento a algo de suprema importância: não se filie ao bloco do raso e largo. A literatura premia mais os loucos do que os mornos. “O supremo pecado é a superficialidade”, alertou-nos Oscar Wilde, em De Profundis.

Na vida, se estivermos atentos, sempre há de ficar um pouco em cada uma de nossas construções, quer num poema, num conto, num aforismo, tal como nos ensinou Drummond, em “Resíduo”:

De tudo ficou um pouco.

Do meu medo. Do teu asco.

Dos gritos gagos. Da rosa

ficou um pouco.

Não importa o mote, o tema, o enredo. Na labuta de escritor, imortalizou Manoel de Barros: “Cada coisa ordinária é um elemento de estima”. Até hoje, quando me indagam qual a minha criação predileta, eu respondo, sem hesitar: “Aquela em que estou agora imerso, de corpo e alma envolvido”.

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Pouco depois caí num sono leve. Ao acordar, sobre a escrivaninha uma obra de Sophia de Mello Breyner Andresen, aberta na página em que reli:

Apesar das ruínas e da morte,

Onde sempre acabou cada ilusão,

A força dos meus sonhos é tão forte,

Que de tudo renasce a exaltação

E nunca as minhas mãos ficam vazias.

Em sequência, Manuel Bandeira, com o seu “Consoada”, despontou dos meus lábios trêmulos:

Quando a Indesejada das gentes chegar

(Não sei se dura ou caroável),

Talvez eu tenha medo.

Talvez sorria, ou diga:

    — Alô, iniludível!

O meu dia foi bom, pode a noite descer.

(A noite com os seus sortilégios.)

Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,

A mesa posta,

Com cada coisa em seu lugar.

 

Companheiro Acácio, então, me chama, caro leitor, a recitar:

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

 

“Assim eu quereria o meu último poema”, confidencio, em voz baixa, a Acácio. E ele ri, bandeiramente, da minha augusta presunção.

Não importa, continuarei a espreitar a vida à cata do verbo.

 

* Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia de Letras do Brasil (ALB) e de outras entidades culturais.

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Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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