EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

“Tenho medo do homem de um livro só.” A máxima é de São Tomás de Aquino, e a tomo no sentido pleno da metáfora, pelo que diz sobre a necessidade de termos da vida uma visão ampliada, uma compreensão holística de toda a complexidade do mundo em que vivemos. Por isso, ainda uma vez me explico por ter feito dessas memórias um apanhado dos livros que li, das viagens que fiz, dos filmes e espetáculos de teatro a que assisti. É este o cabedal que fez da minha vida algo interessante, de que me orgulho, que posso, na quase noite do tempo, confessar. Além deste patrimônio, algumas passagens da minha vida, os bons e maus momentos da minha história pessoal. Não me tornei especial em coisa alguma, joguei com a sorte, abusei da boa vontade de Deus para comigo. Tantas vezes deixei que ‘o cavalo passasse selado à minha frente’… Mas de nada me arrependo. Se, por um golpe do imponderável, me fosse dado começar de novo, faria tudo exatamente como fiz. Quem sabe retocando um erro aqui, outro acolá, mas agindo com a mesma coerência, com o mesmo senso de realidade. Não há nada de inconfessável em tudo que fiz.

Sou um homem de muita sorte. A vida, que na sua essência é Deus, deu-me mais do que fiz por merecer. Se outras razões não houvesse, e como há!, já tenho muito para agradecer. Deus me deu Saulo e Carolina, e quatro netos que são a maior alegria dos meus dias.

Estas memórias dão a ver a minha inclinação para o confessional. Constituem a prova do quanto estimo a vida pretérita, as pessoas que passaram no caminho da minha existência, as coisas grandes ou pequenas que me aconteceram, e que, de alguma forma, ficaram vivas na tela das retinas, e, doces melodias, nas cordas do coração.

Para contá-las, canhestramente, assim como o fiz, tive de lançar mão de expedientes os mais variados, desde diários de viagem, anotações e rascunhos diversos, fotografias a conversas com pessoas que estiveram comigo nesses momentos marcantes da minha vida. Não raro, por e-mail e telefone. Às vezes, acordando durante a madrugada, na ânsia de relembrar um fato, o mês ou ano em que estive num certo lugar, quem me acompanhava naquele instante.

Nunca me propus escrever uma autobiografia. Não tive, não tenho uma vida que a justifique, já disse uma vez. O que, à guisa de conclusão, desfecho com essas derradeiras palavras, são as minhas memórias, atemporais, humanas, muitas vezes imprecisas, eivadas de hesitações, equívocos, brancos, pois que a mente é falha e o tempo já vem de longe.

Rosa Montero, a madrilenha que é uma das minhas ‘paixões’ atuais (a outra é a portuguesa Inês Pedroza), no imperdível A louca da casa, diz existirem dois tipos de escritor: os memoriosos e os amnésicos. Sou dos primeiros, os saudosistas, os que se prendem ao passado, os que não conseguem se desvencilhar da memória como uma bússola a indicar os novos caminhos. Tudo, no entanto, sem perder de vista o tempo que virá, com o olhar lá longe, onde se perde a linha do horizonte, e ainda dormem as coisas que virão.

Li há pouco tempo um livro de memórias saboroso do cineasta espanhol Luís Buñuel, Meu último suspiro, de que extraio esta bela afirmação: “Precisamos começar a perder a memória, ainda que gradativamente, para nos darmos conta de que é essa memória que constitui nossa vida.” Que sábia percepção!

Por lapsos que não fui capaz de contornar, aqui e além, terei trocado um registro, confundido um lugar, uma data, o nome de alguém com quem estive num e noutro momento desta caminhada. Nada, contudo, que desloque por inteiro o eixo memorialístico, a sinceridade e a intenção com que tornei públicas essas recordações.

A teoria já afirmou que a memória se mistura com a fantasia, posto que vem das profundezas da subjetividade de quem procura reconquistar o tempo perdido. Nunca esse resgate se dá de forma isenta, incontaminada pela voz do inconsciente. Por mais que tenha buscado esse estado puro da recordação, é óbvio que não o consegui, razão por que nem tudo o que está aqui, em forma de livro, é necessariamente o fato mais significativo ou mesmo interessante de uma viagem, uma circunstância vivida, uma experiência pessoal digna de nota. Pelo contrário, é incalculável o número de situações, fatos, acontecimentos marcantes que sequer foram citados. Há, assim, na esteira desses lapsos, pessoas importantes às quais não dispensei uma linha que fosse, e que, com a mais viva sinceridade, foram ou são indispensáveis para mim.

Se não me engano, é de Sófocles, o trágico grego, a constatação de que somente quando começamos a sentir o envelhecimento somos capazes de dimensionar com exatidão o valor da vida. Cedo, felizmente, pude perceber isso, o que me deu a chance de repensar acerca de quase tudo o que me diz respeito, pessoas, sentimentos, e valorizar mais as pequenas coisas, sem deixar de agradecer sempre o milagre da vida. É nesse aspecto que posso afirmar, ao fim dessas memórias, que são os amigos, as pessoas com as quais dividi experiências as mais diversas ao longo desses muitos anos, que constituem o bem mais precioso dentre as minhas conquistas. A elas dedico este pequeno livro.

Realizei com a escritura destas memórias um movimento proustiano em busca do meu tempo perdido, sem conseguir, contudo, evitar fazer uma avaliação atualizada dos fatos. O ato de recordar é sempre um ato de ressignificar as experiências vividas. Tanto melhor.

A vida é um milagre, uma bênção. Urge vivê-la intensamente, sem medo. Nós a complicamos, irascíveis, inconstantes, frívolos, tacanhos, arbitrários, opinativos, insidiosos, que inevitavelmente somos, mesmo sem o querer, numa circunstância ou outra. “O homem é ele suas circunstâncias”, ocorrem-me as palavras de Ortega y Gasset. É tudo tão mais fácil quando abrimos os olhos para as coisas essenciais… Quando avaliamos as pessoas por aquilo que trazem de bom dentro de si…

Que este livro, que ora concluo, possa, quando menos, constituir um incentivo para aqueles que ainda não adquiriram o hábito de ler ou que não tiveram a oportunidade de ler as obras aqui citadas, de assistir aos filmes a que fiz alusão e conhecer os lugares em que estive. Terá valido a pena, que ‘tudo vale a pena, se a alma não é pequena!’, está em Fernando Pessoa.
A minha alma não é pequena, é o que de mais verdadeiro tenho para confessar.

(Excertos do livro “Depoimento”, de Alder Teixeira

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica