Elogio e traição

Há poucos dias escrevi neste espaço um texto que, de imediato, causou espécie entre amigos e leitores de sólida formação intelectual. Sem meias-palavras, eu dizia do entusiasmo com que via chegar ao comando do Exército o iguatuense Paulo Sérgio Nogueira, a quem dirigi uma adjetivação que me parecera, ao escrever o texto, condizente com suas origens familiares e o seu perfil ético, ressaltando, ainda, suas qualidades intelectuais. As origens são inatacáveis, o elogio precipitado.

Hoje, volto ao assunto para reiterar essas referências, que conheço de perto, mas, acima de tudo, para retirar o entusiasmo ingênuo com que dizia nutrir esperanças de que o país, sob este aspecto, pelo menos, pudesse tomar outro rumo.

O comandante do Exército, mal lhe foi dada a oportunidade de honrar seu currículo, enlameou-o da forma mais subserviente e frágil. Uma vergonha.

A passos largos, o país vai sendo covardemente conduzido para um golpe. O terreno está sendo preparado de forma explícita, aos olhos de uma esquerda que se deixa misturar com farsantes como Ciro Ferreira Gomes, que mais uma vez tergiversa e mente, cria artifícios para alimentar a sua vaidade doentia e nutrir, com a sanha cega por que orientou sempre o seu discurso tortuoso sobre o país, o sonho irrealizável de chegar a presidente do Brasil.

Como pode-se ler na coluna de hoje do jornalista Ruy Castro, também ele responsável pelo que, agora, critica como um militante de esquerda que nunca foi, “estamos diante de um óbvio que talvez não queiramos enxergar: o de que Bolsonaro, que já chegou ao Planalto com o aplauso das milícias, dedicou-se imediatamente a armar a população […]” com o objetivo de facilitar sua permanência como presidente de um regime de exceção a que já estamos, de certo modo, submetidos.

Enquanto isso, num ritmo alucinante, que revela a proximidade da tragédia anunciada, assiste-se impotente ao desmonte das garantias constitucionais, repressão de toda ordem aos movimentos sociais e à defesa da democracia, perseguição aos povos indígenas, aos negros e às chamadas minorias.

Da altura montanhesca dos 480 mil mortos pela Covid-19, o Brasil padece de uma outra doença, não menos impiedosa sob muitos aspectos: a da falta de escrúpulos. É nessa doença a que se sustentam uma elite perversa, uma classe média obnubilada, motoqueiros idiotas, profissionais liberais covardes e uma legião amorfa de homens e mulheres medíocres, oportunistas e bandalhos que chegam a inconfessáveis orgasmos por ver o país outra vez sob o domínio assassino dos militares.

Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, o meu coração fecha os olhos e sinceramente chora, está em Fado Tropical, de Chico Buarque de Holanda.

O movimento pusilânime do General trouxe-me de volta os versos da canção.

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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