#EleNão, por Álder Teixeira

“Estou cheia de raiva, mas não vou pegar uma arma e lutar. Vou usar minhas palavras para destruir o sistema de opressão”. A declaração pacífica, mas exemplarmente corajosa, é de Kasha Jaqueline Nabagesera, uma militante de Uganda hoje reconhecida no mundo inteiro.

 

Bem cedo, Kasha descobriu que seu corpo era de mulher, mas suas escolhas, suas ideias, sua forma de vestir e seus desejos sexuais apontavam para algo diferente. Decidiu assumir-se lésbica e enfrentar o preconceito num país marcado por tabus e estupidamente violento contra as diferenças: Em 2009, para que se tenha uma ideia do que Nabagesera teve de enfrentar em decorrência de suas opções sexuais, o governo de Uganda defendeu uma lei que previa, entre outras punições, a pena de morte para homossexuais.

 

Mas Kasha Jaqueline Nabagesera não cedeu. Antes pelo contrário, resolveu comprar a briga em favor da tolerância e do direito das pessoas em seu país, e em todos os países, uma vez que sua voz, em pouco tempo, seria ouvida além-fronteiras. Em seus pronunciamentos, ela revelou ao mundo os atos de violência de que fora vítima: foi surrada, sofreu bullying, foi impedida de estudar em muitos colégios e viu seu nome aparecer na imprensa sob juízos profundamente injustos e levianos. Quanto mais era objeto de maus-tratos, mais encontrava forças para seguir em frente.

 

Conhecida como a “Mãe do Movimento dos Direitos Gays”, fundou o Freedon and Roam Uganda (FARUG), organização que congrega as vítimas do preconceito, da homofobia e da intolerância à diversidade em seu país, e lutou com sucesso contra uma imprensa cúmplice do autoritarismo dominante.

 

Certa vez, ao deparar com fotos suas e de amigas estampadas num jornal, sem seu consentimento, Nabagesera reagiu, processou o órgão e venceu. No enfrentamento, originariamente pacífico, teve um de seus amigos assassinado. Desde então, sua luta teve repercussão internacional: falou na ONU, passou a ter espaço em jornais e revistas de prestígio e levantou apoio de autoridades, movimentos e organizações pelo mundo. — “Se desistirmos agora”, afirmou, “o que vai acontecer no futuro?”.

 

Foi capa da Time, discursou na Europa e nos Estados Unidos. Como o primitivo da Caverna de Platão, rompeu grilhões e foi lá fora ver o mundo à luz plena, mas não se contentou com a liberdade conquistada para si. Quer mais: a liberdade para todas as mulheres, de Uganda e do mundo inteiro.

 

No Brasil, como nunca antes, as mulheres parecem decididas a fazer o mesmo. Nesta semana, a poucos dias do primeiro turno para a eleição, o #EleNão alcança dimensões inimagináveis. A exemplo do que fazem Nabagesera e incontáveis outras através dos tempos, mesmo quando anônimas, são milhões de mulheres que tiveram a coragem para enfrentar o reacionarismo, o preconceito racial, o terrorismo homofóbico, a misoginia e a apologia da violência como proposta de ação para o país. Elas representam mais da metade dos eleitores brasileiros, e podem decidir em favor de um Brasil diferente. Irão decidir.

 

Alder Teixeira

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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